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Se você escrever bem, irá projetar uma imagem profissional positiva

Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

16/06/2020 04h00

A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo, mas é claro, certo?
Luis Fernando Verissimo

Já escrevo há muito tempo. O primeiro artigo que publiquei foi em 1973. Lá se vão, portanto, 47 anos. Nessa época, ainda garotão, eu trabalhava no Banco Francês e Brasileiro, que tinha uma revista interna chamada Franjour. Enviei para os editores um artigo intitulado "A história da moeda". Para minha surpresa, o texto foi publicado. Nem dá para imaginar a quantidade de erros que cometi naquela página datilografada que enviei para publicação.

Ainda bem que a minha ingenuidade não impediu que eu levasse a cabo aquela ousada empreitada. A alegria de ver meu texto impresso na revista foi indescritível. Nunca mais parei. De lá para cá, publiquei 31 livros e mais de dois mil artigos. Só aqui no UOL, foram cerca de seiscentos. Quase todos os dias experimento a mesma sensação de "torpor", que é aquele sentimento de quase impotência que me abate quando estou diante da tela branca do computador. No princípio era o "dilema da página em branco", de uns anos para cá passou a ser o" dilema da tela branca".

Com o tempo, aprendi que por mais vazia que pareça estar a cabeça, nossa capacidade criativa é ilimitada. Às vezes parece que não vai dar em nada. Experimenta um tema aqui, outro ali, e logo entram em ação as teclas "delete" ou "backspace". Mais algumas tentativas, e tudo volta ao ponto de partida, com o cursor piscando "impaciente", como que dizendo: e aí, vai ou não vai?

Cedo ou tarde, as ideias surgem

De repente, até pela associação dos assuntos que haviam sido dispensados, surge a ideia que teimava ficar escondia lá nas profundezas do cérebro. Descoberto o tema, é como se uma porta iluminada se abrisse, pois as ideias vão se sucedendo como que por encanto. E quando nos damos conta, estamos exultantes colocando um ponto final naquela "aventura intelectual".

Há outras situações, entretanto, em que o assunto já está amadurecido, ou por alguma leitura de livros, jornais, revistas, internet, ou devido a alguma conversa com as pessoas do nosso relacionamento. Todos os fatos, por mais insignificantes e corriqueiros que possam parecer, acabam servindo para o desenvolvimento de uma ideia que valha a pena compartilhar com os leitores. Nem sempre é o fato em si, mas seu papel de "gatilho", que desperta o raciocínio por caminhos inimagináveis.

Escrever se aprende escrevendo

Essa fluência na escrita só se consubstancia com a prática. Não tenho dúvida de que escrever se aprende escrevendo. Tenho guardado os cadernos onde escrevi os meus primeiros livros. De vez em quando eu os folheio para me recordar de como foi o início da minha carreira como escritor. Para a conclusão do primeiro livro, por exemplo, consumi nove longos anos. Ao reler uma página já escrita, sempre encontrava frases truncadas, palavras repetidas, falta de ligação na sequência do pensamento. Muitas vezes, ficava mais fácil escrever tudo novamente a tentar fazer as correções.

Dessa forma entreguei o livro sem erros para a publicação? Que nada! A primeira edição saiu com 34 erros. Como entre edições e reedições, de 1986 para cá, foram quase 150, tive a oportunidade de eliminar praticamente todas as incorreções. Mesmo assim, vez o outra aparece um leitor avisando que em determinada página escapou um "gatinho".

Estude e escreva

Estou contando essa história pessoal não com o intuito de desanimar ninguém, mas sim com o objetivo de incentivar a todos aqueles que desejam escrever, mas sentem algum tipo de dificuldade. O começo normalmente é sempre muito difícil, quase desesperador, mas com a prática, disciplina e persistência os textos vão surgindo naturalmente. Sempre haverá os instantes de dúvida, aqueles momentos em que somos pressionados pelo "dilema da página em branco". A experiência nos ensina que basta insistir um pouco para que as ideias que teimavam em se esconder, sejam resgatadas de lugares que nem sabemos de onde. Ah, cuidado também com o "dilema da página preta", que se caracteriza pela dificuldade de pôr um ponto final no texto.

Minha sugestão é que antes de mais nada leia um bom livro sobre redação. Vou indicar dois, um de minha autoria com a Rachel Polito "Superdicas para escrever uma redação nota 1.000 no ENEM", e outro da Dra. Edna Barian Perrotti "Superdicas para escrever diferentes tipos de textos". Estude bem as obras e faça os exercícios recomendados. Se já for experiente e desejar escrever livros, recomendo a excelente obra de Mario Vargas Lhosa "Cartas a um jovem escritor".

Feita essa lição de casa, comece a escrever sem intenção de publicar os textos. Escreva apenas para praticar. Aja como se estivesse na escola fazendo redações. Redija vinte, trinta, cinquenta. Quanto mais escrever melhor. Você vai notar altos e baixos na sua habilidade de escritor. Em certos momentos o texto sai sem atropelos, desde o início até o final. Em outros, fica enroscado. É preciso fazer muitas tentativas para concluir a redação. Vai constatar, entretanto, que a sua habilidade será sempre ascendente.

Esse é um aprendizado que não tem fim. A cada dia você encontrará novos atalhos para tornar seus textos mais atraentes. Com o tempo, identificará qual é o seu estilo como escritor. E essa será uma de suas maiores descobertas, pois se firmará como uma espécie de marca registrada da sua produção literária. Guarde tudo o que escrever, de preferência com os erros cometidos. Esse histórico poderá ser muito útil no seu aprendizado.

Monte um blog

Para dar um pouco mais de seriedade ao que escrever, e se familiarizar com comentários de terceiros, monte um blog, e publique ali tudo o que julgar interessante. Dessa forma poderá ter um feedback dos leitores, e, a partir dessas opiniões, ajustar o rumo dos seus textos. Não desanime diante de críticas mais severas, pois a maioria carece de fundamento. Não deixe, entretanto, de analisar bem todas as opiniões. Retire de cada uma delas o que pode ser importante para o seu aperfeiçoamento.

Se encaminhar um texto para uma editora, e eles fizerem a revisão, não se assuste com a quantidade de correções. Se devolverem com marcações em vermelho, será ainda mais traumatizante. É assim mesmo. Cada revisor que puser a mão no texto vai sugerir inúmeras modificações. Se for erro mesmo, agradeça e acate sem discutir.

Se for sugestão de estilo, pondere antes de aceitar. Geralmente eles têm razão, mas às vezes é só questão de gosto. Como o texto é seu, fique com a versão com a qual se sinta mais feliz. Daqui a dez ou vinte anos você nem se lembrará mais quem foi o revisor, e o texto permanecerá ali com o seu nome. A responsabilidade será sua.

Espero que essas reflexões tenham servido para motivá-lo a iniciar a vida como escritor, ou, em alguns casos, incentivá-lo a retirar as antigas anotações da gaveta e retomar o caminho da produção literária. Se tomar essa iniciativa, desejo que seja muito feliz com o resultado. Sem contar que aquele que escreve bem irá se destacar na carreira e projetar uma imagem profissional positiva. Eu continuo aqui, escrevendo todos os dias, e, principalmente, errando, acertando e aprendendo dia após dia.

Superdicas da semana

  • Estude bons livros de redação
  • Pratique o máximo que puder
  • Desenvolva o hábito de escrever pelo menos um pouco todas as semanas
  • Monte um blog

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Superdicas para escrever uma redação nota 1.000 no ENEM", "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta. Leia também "Cartas a um jovem escritor", de Mario Vargas Lhosa e "Superdicas para escrever diferentes tipos de texto", de Edna B. Perrotti.

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Reinaldo Polito