PUBLICIDADE
IPCA
+0,53 Jun.2021
Topo

Reinaldo Polito

Não apele para o sensacionalismo. Você pode ferir sua reputação

notícia sensacionalista - iStock
notícia sensacionalista Imagem: iStock
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

12/01/2021 04h00

Exagero é sempre a exageração de algo que não é.
Ortega Y Gasset

Você já deve ter embarcado em chamadas apelativas e depois se frustrado com o conteúdo da matéria. Veja alguns exemplos hipotéticos: "Terremoto em Brasília! Ministro do STF parte pra cima de Bolsonaro". "Deputado faz acusações violentas e conta toda a verdade". "Moro acusa, mas passa vergonha no Twitter". "Maia se desespera com notícia inesperada".

Uma das apresentadoras de televisão mais perseguidas por chamadas espalhafatosas é Amanda Klein. Todos os dias, invariavelmente, alguém publica um vídeo dizendo: "Amanda Klein passa vergonha". "Esquerdista é desmoralizada". Você assiste ao vídeo e descobre que não teve "vergonha" nenhuma e ninguém foi "desmoralizado".

Com a entrada cada vez mais frequente de novos blogueiros na internet, esse "mercado editorial" ficou meio conturbado. Talvez por falta de experiência, mas, principalmente, na tentativa de aumentar o número de seguidores, vários deles publicam seus textos e vídeos com chamadas sensacionalistas. Quem lê o título tem a impressão de que o mundo vai desmoronar, especialmente quando as notícias são ligadas à política.

O sensacionalismo não se sustenta

Ocorre que as chamadas não se sustentam em duas frases do texto escrito, ou em um minuto de vídeo. A partir dos primeiros momentos, depois de todas as propagandas e pedidos de inscrição e compartilhamento, a história começa a mudar de rumo. As informações são precedidas ou seguidas de "se", "é possível", "dá a entender", "dá para deduzir", e por aí vai.

Os internautas mais observadores se sentem enganados e traídos com esses artifícios usados como se fossem verdadeiras iscas. Caem uma vez na armadilha, às vezes duas, mas ao perceberem que se trata de uma arapuca para seduzir as pessoas com títulos fantasiosos, deixam de seguir e acabam abandonando o blogueiro.

Na oratória acontecem fatos semelhantes. Alguns agentes de palestras, com a finalidade de angariar maior número de inscrições para o evento, promovem as apresentações dos palestrantes com títulos que nada têm a ver com o que efetivamente será entregue. Esses artifícios frustram a plateia, pois as pessoas descobrem que compraram gato por lebre.

Não adianta disfarçar

Os palestrantes que aceitam esse esquema enviesado também têm sua dose de responsabilidade, pois, mesmo sabendo que se trata de propaganda enganosa, fecham os olhos e fazem suas apresentações. São cúmplices nesse enredo. Alguns, até constrangidos, procuram incluir uma ou outra informação só para dizer que cumpriram o que foi prometido na chamada. O público percebe que é só jogo de cena. Perde a empresa que promoveu a palestra, e perde o palestrante que passa a ter sua imagem prejudicada.

Há casos em que a chamada até está de acordo com o conteúdo do que vai ser apresentado, mas para segurar a atenção dos ouvintes, o palestrante começa a apresentação exagerando em promessas que não poderão ser cumpridas ao longo de sua exposição. Por exemplo, dizer que ensinará um método de planejamento orçamentário completo para ser realizado em apenas cinco minutos.

Naturalmente, ele não teria condições de cumprir essa promessa. Durante a palestra, ele não conseguiria nem ensinar o método completo, nem como cumprir essa tarefa em tão pouco tempo. O público ficaria aguardando as informações que foram indicadas no princípio, e sairia com a sensação de vazio, de frustração, pois não foi cumprido o que o orador prometeu.

A credibilidade está em jogo

A reputação de blogueiros, jornalistas, palestrantes, gestores, se sustenta na sua credibilidade. Por isso, se não puder cumprir, não prometa. E, se prometer, cumpra o acordo, ainda que para isso tenha de sofrer prejuízos. Uma falha aqui, outra ali, mais uma logo à frente são fatos que isolados até, aparentemente, não produzem consequências negativas, mas, somados, ao longo do tempo levam as pessoas a desconfiarem ou não acreditarem nas palavras de quem faltou com a verdade.

Eu me lembro do susto que levei logo no início da minha carreira. O agente responsável pela realização da minha palestra em uma cidade do nordeste divulgou que eu era um profissional superqualificado, pois havia ministrado aulas para o Pelé, Brizola, Tarcísio Meira e tantos outros. Todas as pessoas destacadas de quem ele se lembrava foram incluídas no pacote. E para coroar, a chamada dizia que durante a palestra as pessoas aprenderiam como ficar ricas em pouco tempo.

Liguei para ele tentando descobrir o que havia ocorrido. Talvez tivesse se enganado de palestrante. A resposta que ele me deu foi suficiente para eu cancelar o evento: ninguém vai verificar essas informações, fique tranquilo. E eu, ainda incrédulo, disse que bastava o fato de eu saber que aquelas informações não eram verdadeiras, e que por isso a palestra estava cancelada.

O marketing bem feito é saudável

Nada impede que você lance mão de uma chamada mais apimentada, instigante para motivar as pessoas a comparecerem nos eventos, ou a assistirem aos vídeos, ou a lerem o texto. Faz parte do marketing. O que não pode é exagerar a ponto de tornar a chamada inverídica e fora de contexto. Aí deixa de ser coisa de gente séria. Como disse Santa Tereza de Jesus: "Nunca encarecer muito as coisas, mas dizer com moderação o que se sente"

Fique atento à forma como divulga seus textos e vídeos, já que um exagero, tomado à primeira vista como insignificante, pode pôr a perder projetos até de boa qualidade. Lembre-se de que na construção da história da nossa vida não existe má conduta pequena ou grande, mas sim comportamentos incorretos. Desses nós precisamos nos afastar sempre.

Superdicas da semana

  • Carregar um pouco nas tintas pode tornar uma chamada mais instigante
  • O exagero torna a chamada sensacionalista
  • Se não puder cumprir, não prometa
  • Se prometer, cumpra, mesmo que tenha prejuízo

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para advogados", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas", "Superdicas para escrever uma redação nota 1.000 no ENEM", "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Assim é que se Fala", e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

Siga no Instagram: @polito

Siga pelo facebook.com/reinaldopolito

Pergunte para saber mais contatos@polito.com.br