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Reinaldo Polito

Será que Bolsonaro escapa do impeachment?

Manifestação popular - NurPhoto/NurPhoto via Getty Images
Manifestação popular Imagem: NurPhoto/NurPhoto via Getty Images
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

19/01/2021 04h00

A ninguém prejudicou ter-se calado, e sim ter falado.
Dionísio Catão

Quase todo político sonha um dia em ocupar a cadeira do presidente da República. Seria assim uma espécie de coroamento de sua carreira. Além do poder que o cargo faculta ao seu ocupante, essa conquista simboliza o sucesso da sua trajetória. E como dizia Fernando Collor: ser presidente é bom. Se você tem vontade de alguma coisa, manda fazer. Se não gostar do que foi feito, manda fazer de novo. E refazem quantas vezes você desejar. Sem reclamar.

Você pode discordar de um ponto ou outro, mas em linhas gerais, além de poder fazer o que for preciso para melhorar as condições de vida do povo, não foge muito do que acabei de relacionar. Se o presidente gozar de popularidade, aí, então, é a realização completa.

Todos os presidentes que conquistaram elevada aceitação popular, fizeram questão de quebrar o protocolo e cair nos braços da multidão. Foi assim com Sarney, na implantação do Plano Cruzado, época em que todo mundo queria tirar foto com ele. Com Lula muito mais ainda, pois surfou em popularidade quase o tempo todo em seus dois mandatos. E atualmente com Bolsonaro.

Cabelos brancos

Nem tudo, entretanto, são flores. Em uma das aulas do curso de Marketing Político, que ministro na pós-graduação da ECA-USP há duas décadas, levantei uma questão com os alunos: o que chama mais a atenção de vocês em um presidente da República?

Eu esperava que dissessem ser a falta de cumprimento das promessas de campanha, as traições dos parceiros mais próximos, a difícil convivência com os poderes legislativo e judiciário, ou até mesmo a maneira como desfrutavam as benesses do cargo. A resposta de alguns foi surpreendente: eles ficam de cabelos brancos em poucos meses. Havia aí um tom de brincadeira, evidentemente, mas, na verdade, esse comentário indica claramente que para ocupar esse cargo tem de ter tutano, ou seja, agir e suportar com força e inteligência. Chega a ser um grande sofrimento.

Os frequentes pedidos de impeachment

Uma das agruras do chefe do executivo é ter de enfrentar os frequentes pedidos de impeachment. Por quase nada, os opositores não têm nenhum escrúpulo em acusar o presidente de algum malfeito. Bolsonaro já está quase segurando a taça de campeão. Até aqui foram cerca de 60 pedidos. Você não entendeu mal não, cerca de 60 pedidos.

Os motivos são os mais variados: exaltação ao golpe militar, incentivo à prática de tortura, suposta interferência na polícia Federal, divulgação de notícias falsas, as fake news. Os motivos apontados são incontáveis. Nenhum pedido contra ele, entretanto, prosperou. Morreram na gaveta do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia.

Só há impeachment com a pressão popular

E Maia não deu andamento a esses pedidos porque morre de amores por Bolsonaro. Ao contrário, são adversários declarados. O que mais Maia desejava era ver Bolsonaro fora da presidência. Só que se sai Bolsonaro, entra Hamilton Mourão. Não adianta nada. Portanto, o melhor é tentar dia a dia minar a posição do desafeto. Depois, para um pedido de impeachment prosperar é preciso que o presidente tenha cometido crime. E mais, que haja poderosa manifestação popular, como aconteceu nos casos de Collor e Dilma.

Nenhuma acusação de crime parece se sustentar e não existe manifestação popular exigindo sua saída. Uma batida de panela aqui, outra ali, mas nada que possa preocupar muito. Mas enfrentar essa pressão dia após dia não é simples, pois é só dar uma vacilada e pode ficar sem a faixa presidencial. Basta dizer que quando iniciaram os murmúrios de impeachment de Collor e de Dilma ninguém acreditava que a história fosse para frente. E foi. Caíram os dois.

A pressão popular é fundamental para que ocorra o impeachment, já que se trata de um julgamento político. Se o povo pressionar, até crimes geralmente desconsiderados adquirem força irresistível. No caso de Collor, conseguiram encontrar uma Elba, e para apear a Dilma, foram umas pedaladas. Se a população não estivesse nas ruas, talvez esses pedidos também tivessem sido engavetados.

Além de todos esses motivos, perderá o poder o presidente que não tiver sustentação política. Como disse Roberto Jefferson na defesa que fez a Fernando Collor:

Não se enganem aqueles que essa demonstração que foi dada hoje, que esse ato de rasgar a Constituição vai atalhar também quem chegar à Presidência e não trouxer a maioria absoluta no Congresso, porque outras CPIs como esta estarão no seu caminho, não para apurar irregularidades, mas pelos preconceitos ideológicos, pelas posições doutrinárias em contrário.

Entende agora por que Bolsonaro deu as mãos para o Centrão?

250 pedidos de impeachment

Só para dar uma ideia de como é comum presidentes passarem por esses perrengues, basta dizer que Bolsonaro já recebeu (se não perdi a conta) 61 pedidos, Collor 29, Itamar 4, Fernando Henrique 24, Lula 37, Dilma 68 e Temer 31. Ou seja, virou carne de vaca, pois nesse período de redemocratização, desconsiderando Sarney, já foram 250 pedidos. É mais um recurso para fazer oposição e tentar enfraquecer a imagem do adversário. Em tom de brincadeira poderíamos dizer que se o político tivesse de pagar sucumbência, caso o pedido não prosperasse, possivelmente poucos continuariam com essa prática.

Por que estou trazendo esse tema para esta coluna? Se analisarmos bem, na maioria dos pedidos de impeachment o motivo esteve relacionado diretamente com a comunicação. Normalmente acusam o presidente sobre o que ele disse, e não sobre o que ele fez. Com Bolsonaro, pelos exemplos que relacionei, praticamente todos os pedidos tiveram a ver com o que ele falou.

Aprendendo com as bordoadas

Os opositores estão perdendo a chance, pois, se observarmos atentamente, nesses dois anos Bolsonaro fez um verdadeiro curso para saber como falar, melhor dizendo, como não falar. À medida que foi levando bordoada, começou a deixar de lado certas atitudes que poderiam ser comprometedoras. Ainda derrapa, mas se os adversários não agirem rápido, já, já ele deixará de cometer esses deslizes.

Portanto, ao que tudo indica, o impeachment de Bolsonaro dependeria mais da forma como ele se expressa, e menos de como ele age. Os opositores vão continuar torcendo para que ele fale besteiras, enquanto os apoiadores vão rezar para que ele tenha bom senso e equilíbrio para ficar com a boca fechada. Como, todavia, a boca é dele, caberá a ele decidir. Eu me lembrei de uma brincadeira da época de criança, que chegou a ser usada pela ministra Cármen Lúcia: Cala boca já morreu, quem manda na minha boca sou eu.

Superdicas da semana

  • Contra o calar não há castigo, nem resposta. Cervantes
  • O que não se pode falar, deve-se calar. Ludwig Wittgenstein
  • Se tivesses ficado calado, terias continuado filósofo. Boécio
  • Quando não se tem ideias, as palavras são inúteis e até nocivas; melhor calar-se do que falar só para confundir. Angel Ganivet

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Oratória para advogados", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas", "Superdicas para escrever uma redação nota 1.000 no ENEM", "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Assim é que se Fala", e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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