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Reinaldo Polito

A responsabilidade da imprensa com a ética

Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

25/05/2021 04h00

Se a imprensa não existisse, seria preciso inventá-la.
Balzac

Alguns julgam exagerado o conceito atribuído ao ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill: "Não existe opinião pública, existe opinião publicada". Suas palavras ganham peso quando observamos que ele também foi jornalista. Portanto, se vivesse hoje, poderíamos dizer que nesse tema Churchill tem lugar de fala.

A imprensa não apenas informa, pois, seu papel, desde que obedecidos os preceitos éticos, pode ser também o de interpretar os fatos sob os seus mais diferentes ângulos.

Uns consideram apenas os fatos em si, enquanto outros os avaliam como consequência de acontecimentos pretéritos, ou como causa das mais diferentes transformações sociais. Não há nessas opções a noção de certo ou errado, mas sim de uma escolha que seja pertinente à sua ótica.

Essa análise pressupõe, entretanto, como vimos, o comportamento ético do profissional e da organização a qual ele pertence. Se a opinião de quem se expressa se submeter a um viés ideológico, que o leve a distorcer a verdade, ou a omitir informações relevantes para impedir que a realidade possa ser efetivamente identificada, não estaria cumprindo com as práticas que fundamentam a sua profissão.

O papel da imprensa neste momento

Nesta época em que as opiniões se mostram tão polarizadas é importante que as pessoas consigam fazer avaliações ponderadas, sem que seu julgamento seja manipulado. Como diz Yao, personagem criada por Lin Yutang no seu clássico "Momento em Pequim: "Estude as coisas em si e não o que sobre elas se diz".

Não que o viés ideológico deva ser sepultado. Sabemos muito bem que a palavra nunca será neutra - ela vem carregada de valores de um tempo, de uma sociedade, de um histórico de vida e de um olhar sobre tudo e todas as coisas.

Há, por esses motivos, que se levar em conta a relatividade cultural e social de "verdade" de que se reveste um texto, seja ele falado ou escrito. A busca do princípio ético, por isso, torna-se essencial.

As recomendações éticas

O que não falta é recomendação, orientação e regra para nortear as ações do jornalista. O professor e escritor espanhol Niceto Blázquez na sua obra "Ética e meios de comunicação" faz crítica ostensiva ao comportamento dos profissionais que manipulam as notícias:

"Já não se trata de informar de acordo com a realidade, mas de informar 'criando' a realidade que mais interessa ao emissor ou ao destinatário".

Blázquez mostra ainda recomendações de diversos países para que as notícias sejam elaboradas e veiculadas. Selecionei algumas que julguei esclarecedoras.

Alemanha: "A aceitação e concessão de vantagens de qualquer tipo que possam prejudicar a liberdade de decisão editorial e da redação são incompatíveis com o prestígio, a independência e a missão da imprensa. Quem se deixa subornar para propagar ou suprimir notícias age desonestamente e contra a sua profissão".

França: "O jornalista não admite nenhuma pressão, dádiva, prêmio ou favor que possa colocar em perigo, diminuir ou subordinar a sua liberdade de ação, obrigando-o a transgredir as normas da profissão".

Brasil: "A oferta de trabalho a preço vil, a deslealdade, a prevenção ideológica contra os companheiros, a covardia no exercício da sua divulgação para atender interesses obscuros e contrários à comunidade, são atos condenáveis".

Até há pouco tempo os leitores tinham escassas possibilidades para contrapor as notícias que julgavam fantasiosas, ou com premissas distorcidas. Atualmente as mídias sociais fazem esse papel de confrontação de forma mais ampla. Ainda que haja grande quantidade de informações falsas, com um pouco de critério sempre será possível separar o joio do trigo.

Diante dessas considerações podemos concluir que, em última instância, caberá sempre ao leitor o papel de árbitro. Sua leitura crítica o ajudará a perceber quando uma notícia se distancia da verdade ou está impregnada de omissões.

Nesses casos, terá dois caminhos a seguir: ou abandona aquele órgão de imprensa, ou continua com ele, sabendo, contudo, que a leitura deverá ser cada vez mais atenta e criteriosa.

Superdicas da semana

Ao ler uma notícia, pergunte sempre o que estaria por trás dela

É possível ter viés ideológico, mas nunca a falta da ética

Desenvolva o hábito de ler os jornalistas em quem confie

Por mais que duvide da imprensa, ela é a mais confiável fonte de informação

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como Falar Corretamente e sem Inibições", "Comunicação a distância", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante.

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