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Reinaldo Polito

Este 22 de junho marca o fim de uma guerra fratricida

Estátuas de crianças escravizadas em uma Plantation - Janaina Garcia/UOL
Estátuas de crianças escravizadas em uma Plantation Imagem: Janaina Garcia/UOL
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

22/06/2021 04h00

A guerra civil pode ser considerada como um suicídio nacional.
Marquês de Maricá

Com a chegada de Bolsonaro ao governo, a situação do Brasil sofreu uma transformação radical. A esquerda sentiu a perda do poder e o risco de ver escapar pelos dedos o aparelhamento que havia construído em praticamente todos os setores de atividade. Sem contar, também, o temor iminente que vislumbraram com a possível reeleição do adversário.

Como Bolsonaro conquistou mais de 57 milhões de votos, o país ficou dividido. Os opositores do presidente não se conformaram com a vitória conservadora e procuram com lupa algum desvio para criticá-lo.

A oposição tem papel fundamental no processo democrático. Existe exatamente para mostrar uma perspectiva diferente sobre a realidade, apresentar o contraditório, os argumentos que devem ser levados em conta para um estado democrático de direito e de justiça. Deve, por isso, apontar os erros do governo e, da mesma forma, os caminhos que poderiam ser seguidos.

A polarização radical

A polarização levada ao extremo, entretanto, pode não ser benéfica, pois o radicalismo traz em si o risco de cristalizar opiniões, de aflorar paixões descontroladas e de impedir que o bom senso e o direito comum prevaleçam. A impressão que fica em meio ao furor de vozes é que estamos em um jogo de vale-tudo na ânsia pelo poder.

Alguns já chegaram a dizer que vão tomar o poder, independentemente de eleições. E até que deveriam pegar em armas. Sem contar que por causa de divergências políticas algumas famílias entraram em conflito e amigos romperam relacionamento de décadas. Por todos esses motivos a situação atual exige cuidado: deveríamos ter aprendido com a história.

A Guerra de Secessão

Neste 22 de junho, os norte-americanos comemoram o fim de sua guerra civil. Após a eleição de Abraham Lincoln em 1860, os estados do Sul se envolveram com a ideia de secessão, ou seja, de separação, motivo de uma luta fratricida que teve início em 12 de abril de 1861 e terminou em 1865. Nos combates entre irmãos do Norte e do Sul morreram mais de 600 mil estadunidenses.

Os estados do Sul viviam quase que exclusivamente da monocultura, especialmente do algodão, enquanto a população do Norte já estava firme na era da industrialização. Tanto assim que compravam algodão do Sul e vendiam para eles os tecidos que confeccionavam.

Essa complementaridade econômica desgostava os nortistas, já que não admitiam que o Sul continuasse usando a mão de obra escrava em suas grandes áreas cultivadas, as denominadas plantations.

No final de 1860, no mesmo ano em que Lincoln venceu as eleições, os estados do Sul promulgaram uma nova constituição, estabelecendo os Estados Confederados da América. Elegeram Jefferson Davis como presidente, e escolheram Montgomery, no estado do Alabama, para ser a capital. Não é difícil deduzir que Lincoln, como presidente da União, isto é de todos os estados do país, não aceitaria essa divisão. Nascia aí o conflito.

As vantagens e desvantagens

A União contava com um exército mais numeroso e bem organizado. Possuía também à sua disposição o telégrafo, importante para saber das operações adversárias, aglutinar os soldados e promover a movimentação das tropas. Da mesma forma, tinham a seu favor as locomotivas a vapor, que usavam nas ferrovias para transportar rapidamente os soldados e os armamentos.

O Sul estava sob o comando do general Robert E. Lee, que além de ser um militar traquejado pela participação em grandes batalhas, era também um bom estrategista. Com ele estavam muitos soldados que haviam deixado o exército da União e se mostravam bem preparados para os conflitos.

O fim da guerra

No início houve certo equilíbrio, mas, com a superioridade numérica dos estados do Norte, as baixas dos sulistas passaram a ser cada vez maiores. Lincoln conseguiu interromper a expansão das plantations dos agricultores sulistas para o Oeste concedendo pequenas propriedades a quem quisesse se estabelecer naquela região.

A guerra partiu para o final quando em 1864 o Sul começou a perder o controle da situação. Os soldados da União prenderam o presidente Jefferson Davis; e o general Lee, não tendo mais como combater, em 19 de abril de 1865 se rendeu às forças da União, entregando-se ao general Ulysses Grant. O último tiro disparado foi no dia 22 de junho de 1865.

A batalha de Gettysburg

Em 1863 em Gettysburg, na Pensilvânia, ocorreu um dos mais sangrentos combates de que se tem notícia. Milhares de americanos morreram nessa luta, e outros tantos ficaram feridos. Ali foram enterrados os corpos, transformando os pomares em um imenso cemitério. A Comissão de Cemitérios da União determinou que aquele local passaria a ser um monumento nacional.

As feridas estavam mais abertas que nunca. Por isso, nem pensaram em convidar Lincoln para o evento. Elegeram para ser o orador na solenidade o sr. Everett, muito conhecido pela eloquência com que proferia seus discursos. O presidente norte-americano soube do evento ao ler um impresso informativo. Mesmo sem ser convidado, resolveu comparecer.

Mantiveram Everett como o orador principal. 30 mil pessoas aguardaram por muito tempo o orador que chegara atrasado. Debaixo de um sol escaldante, ele martirizou o público com sua verborragia por duas longas horas.

O discurso de Gettysburg

Lincoln, mais perspicaz, e profundo conhecedor da alma humana, pois havia superado enormes desafios ao longo da vida, fez um rápido discurso, tão pequeno que cabe na palma da mão. Com poucas palavras ele interpretou o sentimento de tristeza de toda uma nação dividida. Essa pequena peça oratória ficou para a eternidade. A conclusão de sua fala talvez seja um dos trechos mais repetidos em todo o mundo:

Cumpre-nos fazer que esses homens não tenham tombado em vão, que, com o auxílio de Deus, a Nação assista à renascença da liberdade e que o governo do povo, pelo povo e para o povo, jamais desapareça da face da terra.

Que consigamos aprender com os erros dos nossos antepassados. Que possamos olhar para este 22 de junho com os olhos de quem deseja uma lição de vida. Que saibamos manter a nossa liberdade sem que irmãos tenham de lutar entre si. Que ocorra naturalmente a alternância de poder pelos meios democráticos. Que os brasileiros, em sua maioria tão cordatos, não tenham de violentar suas características, das quais tanto nos orgulhamos, para tentar impor suas posições ideológicas.

Superdicas da semana

  • O que vale é a essência do discurso, não a sua duração
  • Alguns discursos são tão excepcionais que ficam para a eternidade
  • Discutir por causa de políticos é o mesmo que, na versão popular, ter crise de ciúme em casa de prostituição
  • O papel da oposição deve ser o de criticar e sugerir, não o de destruir

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como Falar Corretamente e sem Inibições", "Comunicação a distância", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante.

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