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Reinaldo Polito

Quais são os defeitos e virtudes na comunicação dos presidenciáveis?

                                 Da esquerda para a direita: Sérgio Moro, Lula, Jair Bolsonaro e Ciro Gomes                              -                                 Reprodução
Da esquerda para a direita: Sérgio Moro, Lula, Jair Bolsonaro e Ciro Gomes Imagem: Reprodução
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

28/12/2021 04h00

É melhor ter lutado e perdido, a nunca ter lutado.

Arthur Hugh Clough

Vamos analisar alguns aspectos da oratória dos cinco presidenciáveis mais destacados no momento: Lula, Bolsonaro, Moro, Ciro e Doria. Os outros, a não ser que haja grande reviravolta, não terão chances de competir. O objetivo é observar a qualidade da comunicação de cada um, e como a capacidade de falar pode influenciar a campanha eleitoral. Não vamos discutir aqui se um candidato é ladrão, genocida, traidor, ou qualquer outra denominação.

Lula

O líder petista mudou o jeito de fazer política. Depois de sair derrotado várias vezes nas primeiras tentativas, descobriu que o seu discurso radical afugentava parte do eleitorado. Por isso, partiu para uma estratégia diferente Parou de bater, desenvolveu mensagens mais conciliadoras e conquistou os eleitores que resistiam àquele comportamento beligerante.

Agora, voltou a ser o Lula dos primeiros tempos. Defende o controle da imprensa, mais estatização, decisões globais para assuntos internos, entre outras ações que não faziam parte dos discursos que proferia nas vezes em que se elegeu.

Sempre foi considerado um orador muito hábil. Talvez não exista um político no país que consiga fazer com tanta competência a leitura dos anseios do povo. Pelo que tem apresentado nas últimas aparições, entretanto, parece ter perdido um pouco a mão para falar. Os discursos são repetitivos, sem propostas definidas, tocando apenas aqueles que o seguem, independentemente do que diga. Vamos ver se com o início da campanha ele acerta o rumo.

Bolsonaro

A maior crítica que fazem a Bolsonaro é sobre sua forma de se comunicar. Até seus adeptos concordam que ele passa do ponto em determinadas circunstâncias. Não pode ser esquecido, porém, de que foi assim que ele venceu as eleições. E em situação muito mais desfavorável, pois ninguém sabia de sua existência no país, tinha apenas alguns poucos segundos de televisão, nenhum partido de expressão para apoiá-lo e a mídia quase toda contra ele.

Assim sendo, esse tom de suas falas que beiram à vulgaridade não é novidade. Alguns até dizem que votaram nele exatamente por ser assim. O presidente consegue dessa forma manter a base de seu eleitorado, que, para ele, pode ser suficiente às suas pretensões de chegar ao segundo turno.

A sua maior falha, que era o desconhecimento das questões econômicas, foi atenuada. Agora já se aventura a dar explicações sobre taxa de juros, inflação, produção agrícola, desemprego, PIB, sem precisar do "Posto Ipiranga", e sem se comprometer.

Por outro lado, uma coisa é enfrentar o "Andrade" numa eleição, e com a ajuda de uma facada que sensibilizou a opinião pública; outra, diferente, é bater de frente com a "Jararaca", que sabe tudo do mundo político. Temos de acrescentar também um dos maiores obstáculos às suas intenções de se reeleger: a situação econômica pós-pandemia, que exigirá um desempenho retórico para o qual ainda não foi testado em campanhas eleitorais.

Ciro

É muito experiente. Já ocupou praticamente todas as posições políticas que alguém poderia almejar. Sabe como poucos atingir o coração do eleitorado. É um debatedor aguerrido e muito criativo na elaboração de plataformas eleitorais. Uma de suas maiores qualidades é a voz bonita, puxada para o grave, com boa sonoridade e de timbre muito agradável. Nenhum concorrente se compara a ele nesse quesito.

Seu "calcanhar de Aquiles" é o destempero. Em certas circunstâncias, quando tudo parece caminhar bem, o sempre candidato perde o controle e rompe as linhas fronteiriças do equilíbrio. Esse comportamento excessivamente agressivo assusta alguns eleitores.

Nos últimos debates em que participou estava irreconhecível. Tratou os contendores com gentileza e consideração, transmitindo uma imagem de serenidade que nunca havia demonstrado. Vamos ver se consegue manter esse figurino.

Doria

Sua experiência adquirida ao longo de muitos anos em programas de rádio e televisão, possibilitou que, mesmo sendo desconhecido, vencesse as eleições à prefeitura de São Paulo e ao governo do estado. Após esses anos como político, está mais traquejado. Conseguiu transportar para as apresentações políticas sua habilidade de se comunicar diante das câmeras.

Seu grande trunfo é a defesa que fez das vacinas, na época em que quase ninguém sabia como agir. Esse pioneirismo, todavia, não deu a ele até agora as intenções de voto de que precisa. Talvez tenha se equivocado ao atacar Bolsonaro logo no início. Com sua facilidade de se expressar, é possível que no horário político consiga reduzir a rejeição e subir nas pesquisas.

Moro

O ex-juiz saiu da condição de péssimo orador para um nível de comunicação bem mais elevado. Arredondou a voz. Agora fala com sonoridade agradável. A postura está mais elegante e os gestos são harmoniosos. As pausas ficaram silenciosas, sem aqueles irritantes ãããã, éééé.

O problema é que continua com muitas falhas de dicção, suprimindo sílabas inteiras até, como, por exemplo, "coupção" no lugar de "corrupção". Outra falha, e talvez a maior de todas, é a maneira pouco natural como tem se apresentado. Dá a impressão de que não faz um discurso próprio, mas sim produzido por algum marqueteiro.

Durante a campanha precisará se libertar desse artificialismo e desenvolver comportamento mais espontâneo. Esse será seu maior desafio, pois com sua inexperiência política, a tendência é que continue se submetendo às sugestões de seus assessores.

Superdicas da semana

  • As eleições, como se fazem no Brasil, são a origem de todos os nossos males. D. Pedro II
  • A eleição indireta tem por base o pressuposto de que o povo é incapaz de escolher acertadamente os deputados. Rui Barbosa
  • Na mesma linha de Rui Barbosa, poderíamos deduzir que esse pressuposto vale também para a Lei da Ficha Limpa
  • As urnas eleitorais são o sarcófago da opinião pública. Sofocleto
  • Entre maçãs podres, a margem de escolha é pequena. Shakespeare

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre o tema: "Como falar corretamente e sem inibições", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Saiba dizer não sem magoar as pessoas" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 minutos para falar bem em público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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