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Reinaldo Polito

Com esse discurso, Lula não precisa de adversário para perder as eleições

 Lula discursando - Max Haack/Futura Press/Estadão Conteúdo
Lula discursando Imagem: Max Haack/Futura Press/Estadão Conteúdo
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

12/04/2022 04h00

Antes de tudo, a coerência; ser coerente sempre, sempre.
André Rebouças

Lula fala para a sua claque, como se esses correligionários fossem suficientes para levá-lo de volta ao Palácio do Planalto. Não são.

Nenhum candidato deveria mentir para vencer eleições, embora muitos mintam. Ocorre que, por mais diferentes que sejam as opiniões dos políticos e as dos eleitores, em certas circunstâncias, há pontos comuns que podem ser abordados.

Lulinha paz e amor

Há temas tão polêmicos que, no mundo político, sendo possível, nem deveriam ser levantados. Foi assim que Lula em 2002 deixou de lado o radicalismo que orientava seus pronunciamentos para conquistar aqueles que temiam por suas ações mais extremadas. Surgiu a figura do "Lulinha paz e amor". A história é bastante curiosa, pois esse slogan surgiu por acaso.

Assim que teve início a campanha eleitoral gratuita pelo rádio e pela televisão, os dois adversários mais próximos do petista, com empate técnico por volta dos 20%, eram José Serra e Ciro Gomes. Como Lula abrira boa dianteira, superando os 37%, eles queriam enfraquecer o competidor direto para se credenciarem à disputa com o líder nas pesquisas.

Os adversários

Serra mostrou Ciro xingando um eleitor de "burro", enquanto Ciro afirmou que Serra se apresentava com "comportamento marginal". Lula deitou e rolou no meio dessa briga. Ao ser indagado sobre o que achava do tom agressivo dos adversários, cunhou uma pérola que seria o mote de toda a sua campanha: "Lulinha quer paz e amor".

Com esse tom conciliador, o líder nas pesquisas percorreu o país, visitando mais de 90 cidades, proferindo mais de 100 discursos. Esse novo rumo da campanha afastou o receio de muitos eleitores refratários ao radicalismo petista, e eles se juntaram ao ex-sindicalista na busca da vitória.

Tiro no pé

Com tanta experiência nas costas, parece que Lula desaprendeu. Analisando suas atuais atitudes não dá para entender quais são seus objetivos.

Ao defender o aborto, ele perde a maioria dos católicos e dos evangélicos, sem contar os eleitores mais conservadores. Ao propor a volta do imposto sindical, o fim do teto de gastos e da reforma trabalhista, afugenta os investidores e contraria a classe empresarial.

Ao prometer a inclusão do MST no governo, perde qualquer chance de se aproximar dos agricultores. Ao garantir que vai tirar o poder de compra da classe média, desagrada parcela importante dos formadores de opinião. Ao recomendar que grupos de 40 a 50 sindicalistas de Brasília se dirigissem à casa dos deputados para incomodar a família dos parlamentares, estabeleceu confronto desnecessário com os políticos que deveriam dar a ele a base de sustentação. Nem vou aqui mencionar o estrago que provocou por ter declarado que irá demitir oito mil militares do governo.

Tentou demonstrar arrependimento no caso do aborto, dizendo que não pensa assim, mas só piorou, pois ninguém acreditou nesse cavalo de pau. Já chega ter que explicar que o que disse sobre Alckmin, e o que o ex-governador de São Paulo disse sobre ele foi só conversa de campanha. Até os petistas estão estranhando essas escorregadelas do seu ídolo.

Seu próprio adversário

Lula cai a cada dia nas pesquisas e Bolsonaro sobe. Ou o petista está ruim da cabeça, ou foi levado pelo embalo daqueles que o apoiam, e acreditam que as eleições já estão no papo, ou sentiu que a corda já roeu e está tentando garantir a chance de ir para o segundo turno com quem acredita nessa causa.

Na verdade, agindo assim, Bolsonaro nem precisa de facada para vencer, pois Lula se transforma naturalmente no seu maior cabo eleitoral. Se continuar desse jeito, a reeleição pode acontecer já no primeiro turno.

Lula não é nem de longe o grande orador que sempre foi. Não convence, não encanta, não sensibiliza. Parece uma biruta de aeroporto que vira para onde o vento leva.

Superdicas da semana

  • Na política, sendo possível, alguns temas devem ser evitados
  • Mesmo com opiniões divergentes, sempre haverá pontos comuns
  • A identidade de pensamento afasta as resistências
  • O resultado das eleições não se conhece nas pesquisas, mas sim nas apurações

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como falar corretamente e sem inibições", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Saiba dizer não sem magoar as pessoas" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 minutos para falar bem em público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.