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Reinaldo Polito

Anitta procurou ajuda para falar de política

Anitta diz que não é petista  - Reprodução/Twitter
Anitta diz que não é petista Imagem: Reprodução/Twitter
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

19/07/2022 04h00

Termos consciência de nossa ignorância é um grande passo para o conhecimento.
Disraeli

Anitta tem aparecido com frequência no noticiário político. Em determinado momento dá apoio a Lula. Depois pede que ele ajude a legalizar as drogas. E justifica sua reivindicação alegando que deu a ele "o maior apoião". Pouco depois diz que não é petista.

Além das incursões pelo mundo da política, ela também defendeu teses na área da economia. Foram suas palavras:

Não adianta se a economia vai bem [...] se ninguém tiver oxigênio, o dólar vai ficar ali sozinho. Vai todo mundo morrer sem oxigênio.

Até Bolsonaro ironizou: "Paulo Guedes, cuidado! Você vai perder seu emprego de ministro da Economia.

Que confusão

Não nos esqueçamos de quando a cantora resolveu tomar aulas de política com Gabriela Prioli. Suas perguntas demonstraram a total falta de familiaridade com o tema: "O que são os Três Poderes?"

Apesar de a instrutora tentar explicar de forma bastante didática, a aprendiz dava demonstrações claras de não conseguir acompanhar as informações. No final, exclamou: "Caraca, que confusão!". Ou seja, não entendi nada do que você disse.

E provou que estava com muita dificuldade para acompanhar no momento em que introduziu nova pergunta, verdadeira pérola: "O judiciário seriam os ministérios?". E outra: "Por que não seria um deputado municipal?".

Esses são apenas alguns exemplos da sua falta de preparo nas questões políticas, e, como vimos, também nas econômicas. Por isso, a pergunta: se ela é tão despreparada nesses temas, seria legítimo que aproveitasse a fama para defender causas sobre as quais não entende?

Tem muita gente nesse barco

Antes de crucificarmos a cantora, temos de nos conscientizar de que boa parte da população está no mesmo nível de desconhecimento. Não é por outro motivo que alguns eleitores ainda pegam o santinho jogado no chão, perto das urnas eleitorais, e votam no candidato sem ter a mínima noção de quem seja. Ou votam no artista conhecido, ou em quem um ídolo indicou.

O que falta ao nosso país, infelizmente, de maneira geral, é cultura política da população. Seria preciso que as pessoas soubessem o papel do Congresso, qual a finalidade da Câmara dos Deputados, do Senado Federal, do Supremo Tribunal Federal, dos governadores, prefeitos, deputados estaduais, vereadores. Assim teriam melhores condições de saber em quem votar.

Políticos profissionais

Esse "voto emocional" acaba por perpetuar aqueles que se transformaram em políticos profissionais. Que não fazem nada, não apresentam um projeto útil, defendem seus interesses pessoais, e a população não tem a mínima ideia do que esteja acontecendo.

Poucos se dão conta de que seus votos impensados provocam o baixo salário, os problemas da saúde, da educação, dos transportes, do saneamento básico. Na verdade, muitos, depois de alguns dias, não se lembram nem em quem votaram.

Volte, estude e aprenda

Não foram poucos os casos de candidatos, a vereador, por exemplo, que me procuraram para fazer treinamento de oratória, e não tinham noção de quais eram as atividades que deveriam exercer, caso fossem eleitos. Nesses momentos, fazia uma lista de questões que cada um deveria estudar e responder.

Em seguida, mais bem informados, poderiam voltar para desenvolver as habilidades de comunicação. Teriam o que dizer. Estariam assim em melhores condições de representar os eleitores e ser úteis à comunidade.

A democracia pressupõe a livre expressão do pensamento. Por isso, mesmo que alguém não tenha estudado com profundidade as questões específicas da política, seu sentimento com relação aos problemas do país, sua intuição e sua capacidade de observação poderão ser os requisitos habilitadores para que emita suas opiniões.

Um caso distinto ocorre com formadores de opinião. Quem não sabe sobre o que está falando, só porque conquistou destaque em determinada atividade, não pode se meter a dar conselho sobre o assunto, principalmente em política, já que esse tema mexe com a vida de todos nós. O ideal nesses casos é o de se preparar adequadamente antes de defender suas teses.

Embora Anitta continue dando opiniões equivocadas, foi louvável sua iniciativa de procurar alguém especializado para orientá-la sobre os temas que fogem do seu conhecimento. Parece que ela se conscientizou de que suas palavras têm poder sobre muitas pessoas e, por esse motivo, precisariam estar mais bem embasadas. Seus pronunciamentos recentes demonstram que ela ainda está verde e precisa urgentemente de uma reciclagem.

Cada um no seu quadrado

Há uma história curiosa sobre a autoridade de uma pessoa para falar de determinadas matérias. No século IV a. C. viveu um dos pintores mais competentes e renomados da antiguidade, Apeles. Ele tinha o hábito de se esconder atrás dos quadros que expunha e ouvir os comentários que faziam do seu trabalho. Certa vez, um sapateiro fez críticas sobre o calçado de uma das figuras retratadas.

O pintor julgou as observações pertinentes e resolveu fazer as alterações. Pouco tempo mais tarde, o mesmo sapateiro parou diante de uma de suas telas e fez outras considerações, apontando erros em diversas partes da obra. Apeles, irritado, saiu do seu esconderijo esbravejando: "Ne sutor ultra crepidam - não vá o sapateiro além do sapato".

Dessa forma deveriam se comportar muitos daqueles que ousam dar opiniões sobre assuntos que fogem de sua área de conhecimento. Tenho orientado os meus alunos do curso de pós-graduação em Marketing Político na ECA-USP, nos últimos 20 anos. Ainda que o candidato que esteja assessorando implore para que dê palpites fora da sua área de conhecimento, não arrisque. Indique alguém que seja especializado. Lembre-se sempre de Apeles: não vá o sapateiro além do calçado.

Superdicas da semana

  • Quem fala fora do seu campo de conhecimento é só um falador
  • Antes de aconselhar é preciso saber
  • Quem vota só por emoção pode se arrepender
  • Quem vota sem emoção, mas sem pensar, também

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como falar corretamente e sem inibições", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 minutos para falar bem em público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.