Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
'Round 6': no Brasil, não faltariam candidatos ao jogo macabro da Netflix
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Na última semana, Round 6 quebrou a internet. De lá para cá, estouraram as mais variadas análises sobre o sucesso da sangrenta série sul-coreana da Netflix - a mais assistida da história da gigante do streaming. Se o leitor ainda não faz parte de um dos mais de 111 milhões de lares vidrados na trama, aí vai um breve spoiler.
Endividadas e desesperadas para colocar as contas em dia, centenas de pessoas encaram uma gincana macabra numa ilha escondida, na esperança de faturar um prêmio milionário. Quem falha paga com a própria vida.
O show de horrores causa uma mistura de repulsa com preguiça. A violência gratuita e sem sentido não para de pé. Nem o pano de fundo da história - os dramas pessoais de quem circula no lado B do festejado capitalismo sul-coreano - chega a convencer. Um problema, por sinal, já denunciado e mais bem trabalhado por outro blockbuster sul-coreano: "Parasita", filme vencedor do Oscar de 2020.
Coincidentemente, Round 6 explodiu no mesmo momento em que vieram à tona estatísticas reveladoras da lama em que a economia brasileira está atolada.
O que talvez ajude a explicar a popularidade da série por aqui. E o que também induz a um exercício de imaginação tão sádico quanto o da produção da Netflix: quantos de nós toparíamos entrar em um jogo mortal para aliviar a barra do orçamento?
Aí vão alguns dados para dar estofo à brincadeira.
De acordo com um relatório do Banco Central divulgado na semana passada, de cada R$ 10 ganhados pelas famílias brasileiras ao ano, R$ 6 estão comprometidos com dívidas. É simplesmente a maior proporção desde 2005.
Em agosto, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) já havia divulgado outro dado estarrecedor: 71,4% dos consumidores tinham alguma pendência financeira para quitar. Outro recorde histórico, de acordo com as pesquisas da entidade, iniciadas uma década atrás.
Por qualquer que seja o indicador, o fato é que os brasileiros enfrentando dificuldades conseguem se enxergar no lugar dos colegas coreanos de infortúnio em Round 6.
O desemprego não dá trégua e ainda atinge cerca de 14 milhões de pessoas, sem falar na alta taxa de informalidade que achata rendimentos e precariza condições de trabalho.
A inflação acumulada até setembro já passou dos dois dígitos, como se diz no jargão econômico, e bateu 10,25%. Culpa não só de fenômenos globais, como o dólar em disparada ou os impactos da pandemia nas cadeias produtivas, mas também de um governo que conspira abertamente contra a estabilidade do país e a confiança na economia.
Com renda encolhendo e preços disparando, a saída é apelar para o nosso sistema financeiro - aquele mesmo, mundialmente famoso por cobrar ágios que beiram a extorsão.
No Brasil, a taxa média de juros anuais para uma pessoa física é superior a 40%. Um assalto em qualquer país civilizado. Mas ainda bem mais módicos que os inacreditáveis 124,9% do cheque especial ou os surreais 163,7% do rotativo do cartão de crédito.
Como o absurdo já perdeu a modéstia faz tempo por estas bandas, a tendência dos juros é subir por causa da escalada da inflação - mesmo com a economia em frangalhos e população endividada até o pescoço. Essa é a resposta automática das nossas autoridades e dos economistas do mainstream.
Dar um basta à nossa injustiça tributária? Cobrar mais imposto de quem ganha mais? Acabar com isenções absurdas? Criar programas de proteção social eficazes? Nada disso está no horizonte político.
A realidade é que, enquanto o debate sobre a desigualdade social avança no mundo todo, e pauta até série da Netflix, por aqui seguimos reféns do receituário da década de 1980 - aquele que defendia a desregulamentação dos mercados e não via grandes problemas nos efeitos colaterais, como a concentração de renda.
Então, pelo visto, matéria-prima para um Round 6 no Brasil não vai faltar no curto prazo.
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