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Carlos Juliano Barros

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Crush de Bolsonaro, Orbán criou "sociedade baseada no trabalho" na Hungria

O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro - Marcos Corrêa/PR
O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro Imagem: Marcos Corrêa/PR
Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

22/02/2022 04h00

Jair Bolsonaro não disfarçou a alegria ao posar para fotos com o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, em seu giro pelo leste europeu na semana passada. Não é novidade para ninguém que o todo poderoso líder da ex-República comunista é uma das principais referências políticas do presidente brasileiro.

Desde que voltou ao cargo, 12 anos atrás, Orbán vem seguindo à risca a cartilha do autocrata-modelo. De lá para cá, ele interferiu no Judiciário, alterou a legislação eleitoral, domesticou a imprensa independente e dificultou a vida dos imigrantes para dar vazão à sua virulenta retórica nacionalista.

Por essas e por outras, Orbán compõe a gangue dos que corroem a conta-gotas a democracia mundo afora —balaio em que também figura Donald Trump, outro ídolo declarado de Bolsonaro.

Mas o que pouca gente sabe é que o premier húngaro de fato pretende criar um novo formato de nação: "a sociedade baseada no trabalho", em suas próprias palavras. A primeira vez que o conceito veio à tona foi em julho de 2014, durante um discurso que Orbán fez a universitários em um congresso de verão na vizinha Romênia.

"Até hoje, nós conhecemos três formas de organização do Estado: o Estado Nação, o Estado Liberal e o Estado de Bem-Estar Social. A questão é: o que vem a seguir?", indagou à plateia de estudantes.

Orbanomics

A palestra de Orbán era um esforço teórico para justificar as ações tomadas por seu governo, apelidadas de "Orbanomics" (política econômica de Orbán, numa tradução livre). O objetivo era conter os estragos gerados pelas medidas de austeridade impostas pela União Europeia, na esteira da crise financeira de 2008.

Na marra, o premier húngaro baixou juros, estatizou fundos de previdência privada, reduziu impostos para empresas locais e aumentou os tributos pagos por grandes grupos estrangeiros, como bancos e companhias de telecomunicações. A economia, então, voltou a crescer —o que também explica a popularidade de Orbán, reeleito duas vezes ao longo dos últimos 12 anos.

Mas a principal aposta do primeiro-ministro foi a criação de um "programa de emprego compulsório" que absorveu cidadãos húngaros sem ocupação e barrou oportunidades para pessoas de fora do país.

Basicamente, quem quisesse receber uma espécie de Bolsa-Família era obrigado a aceitar trabalhos de uma hora ou duas horas por dia nos setores público e privado, mesmo que tivesse qualificações muito acima do necessário.

"No slogan do governo 'sociedade baseada no trabalho', a palavra 'trabalho' é usada como substituta de 'baixos salários'", analisa Annamaria Artner, professora da Universidade Milton Friedman, de Budapeste, em artigo publicado na revista digital "Social Europe".

O plano de criar um país movido a mão de obra barata ficou escancarado no final de 2018. Naquele ano, o governo Orbán emplacou uma nova legislação que aumentava de 250 para 400 o número de horas extras permitidas no país por ano. As empresas teriam até três anos para fazer o pagamento desse adicional aos trabalhadores.

Tachada de "Lei da Escravidão" pela oposição, a proposta motivou protestos massivos nas ruas da capital húngara —um raro momento de insatisfação generalizada contra Orbán, que vai tentar o quarto mandato consecutivo nas eleições marcadas para abril.

Limites

Ainda que lidere as pesquisas de intenção de voto, hoje Orbán não vive seus melhores momentos. Se no início seu governo estava às voltas com o problema do desemprego, agora o desafio caminha na direção contrária: a escassez de mão de obra.

Com as portas fechadas para imigrantes, a pressão sobre o mercado de trabalho ajuda a explicar a disparada da inflação na Hungria. Levando em conta também as sequelas da pandemia, a alta nos preços bateu 7,4% no fim do ano passado —o nível mais elevado desde meados de 2014, época do discurso seminal de Orbán na Romênia.

Não à toa, o premier há tempos conclama a população de seu país a ter mais filhos. Para além de engrossar o mais rápido possível a população economicamente ativa do país, o pedido também serve para inflamar a retórica nacionalista de ares eugenistas que turbina Orbán nas urnas.

O líder húngaro surfou como poucos a onda da extrema-direita que varreu o mundo na última década. Em sua guerra cultural, apontou a artilharia contra imigrantes, jornalistas e membros da comunidade LGBTQI+ para excitar o eleitorado conservador. Mas é fato que, ao menos por um tempo, Orbán conseguiu içar o país da lama —algo que seu devoto fã brasileiro não passou nem perto de alcançar.