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Nunca recebi pensão do meu pai, e isso mudou toda minha vida para melhor

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Imagem: iStock
Júlia Mendonça

Júlia Mendonça é formada em comércio exterior pela Universidade Positivo. Atuou como planejadora financeira entre 2015 e 2018. Especialista em orientação e planejamento financeiro pessoal, é coach e consultora de finanças, pós-graduada em investimentos, finanças e banking. É influenciadora digital no nicho de finanças e investimentos em um dos maiores canais do assunto na área do Brasil.

27/11/2020 04h00

Meu pai (a quem vou me referir a partir de agora como João*) sempre fez de tudo para não me pagar pensão. Ele se divorciou da minha mãe quando eu tinha 10 anos e sempre se mostrou muito mesquinho em relação ao dinheiro. Usou as finanças como arma para deixar minha mãe refém de um relacionamento ruim por anos.

Minha infância não foi fácil em relação a dinheiro. É verdade que nunca faltou nada, mas todo dinheiro era contado, assim como era o de todas as famílias no final da década de 1980 e início de 1990. Inflação galopante, falta de oportunidades no mercado de trabalho e baixo poder de compra.

Meus pais tinham vários momentos de brigas e toda discussão tinha como pano de fundo o dinheiro, muitas vezes por motivos simples, como a bolacha que minha mãe comprava para mim com o troco da padaria e que João considerava cara demais. Aos poucos, esses problemas foram escalando e ficou claro que o relacionamento deles não tinha futuro.

João não aceitava a separação e como consequência ficar longe de mim, por isso começou a usar o dinheiro como arma para manter minha mãe por perto. Ela sempre trabalhou, mas o salário dela era baixo e não seria suficiente para sustentar a mim e a ela em caso de divórcio.

A mudança

Essa situação persistiu por algum tempo, até que ela percebeu que a única saída para resolver esse problema seria arrumando mais alguns empregos. Alguns mesmo, com S no final. Ela já trabalhava 2 vezes por semana na região metropolitana de Curitiba e demorava 4 horas para chegar e sair do trabalho todos os dias, pegando vários ônibus.

Conseguiu mais 2 empregos nesse mesmo esquema, alguns a 70 quilômetros de distância da minha casa, o que significava caminhar por vários quilômetros diariamente, além da jornada nos ônibus.

A omissão

Mesmo logo após a separação, João nunca pagou um real de pensão, inclusive desconfio que ele tirou alguns bens do seu nome para evitar problemas judiciais com isso. A gota d'água foi quando ele me ligou no meu aniversário de 18 e eu falei que precisava de R$ 70 para pagar a inscrição de um vestibular, pois eu e minha mãe estávamos bastante apertadas em relação ao dinheiro aquele mês.

Ele fingiu que não ouviu e depois desse dia decidi que nunca mais falaria com ele. Aos poucos percebi que dinheiro para ele era muito mais importante que estar próximo da própria filha. Essa história teve um impacto muito grande na minha vida e formou um dos valores mais importantes que levo como educadora financeira.

As prioridades

Não é sobre dinheiro, não é sobre pensão. É sobre prioridades, sobre colocar a sua família na frente de todas as coisas. Se uma pessoa não consegue colocar o meu futuro (como filha) na frente de R$ 70, ele não merece minha atenção, meu carinho e muito menos minha empatia.

É por isso que hoje eu tenho orgulho de dizer que um dos meus maiores valores é minha família. Eu não ligo de chegar ao final do mês zerada, de ter de vender todos os meus investimentos se for para proteger minha mãe e minha irmã. É só isso que importa.

A lição

Demorou anos para eu entender a lição, mas sou grata por hoje poder passar essa mensagem para mais pessoas e, quem sabe, impedir que isso aconteça com outras famílias.

Antes que você venha criticar, já adianto que não preciso de uma sessão de terapia para resolver isso, obrigada. Estou plena e totalmente resolvida em relação a essa situação, por isso estou me abrindo aqui. Realmente espero que gere uma reflexão sobre o dinheiro comandar nossas escolhas e que você, que está lendo esse texto e passando por isso, saiba que não está sozinho.

*João é um nome fictício

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL