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Por que mesmo reaberto comércio fica mais vazio em cidades com mais mortes?

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

14/07/2020 04h00

Mesmo em cidades e estados em que as curvas de contágio continuam em alta, o comércio, gradativamente, reabriu as portas. Pelo menos dois entre cada três shoppings centers já estão funcionando no país. No estado de São Paulo, São mais de uma centena, instalados em mais de 40 cidades, em funcionamento. Mas as lojas estão vazias.

De acordo com reportagem publicada nesta segunda-feira (13) pelo jornal "O Estado de S. Paulo", os comerciantes, de uma forma geral, comentam que a falta de clientes é uma constante em todo o país. Na cidade de São Paulo, bares e restaurantes também relatam baixo movimento. Proprietários alegam que, entre outras, as restrições de horário inviabilizam a retomada. Os protocolos oficiais ainda vedam o funcionamento depois das 17 horas.

Mesmo em outros segmentos do comércio, os clientes estão arredios. Também em São Paulo, estabelecimentos do comércio em geral, ainda que obrigados a adotar medidas de segurança sanitária, já podem operar há um mês e desde a semana passada o tempo de abertura das lojas subiu de quatro para seis horas diárias.

Empresários, porém, reclamam da perda de faturamento, com muitos casos de vendas diárias praticamente nulas. Queixam-se até mesmo da ampliação do horário de funcionamento. Ficar aberto mais tempo não resultou em aumento no fluxo de clientes, mas acabou implicando em elevação de custos.

Sem dúvida, em tempos de pandemia, apesar do aumento do desemprego e de outros motivos de redução de renda, como a redução ou suspensão de jornadas de trabalho, o isolamento social é o maior entrave à atividade econômica. Mas, embora ainda não seja possível concluir com absoluta certeza, já é possível reunir sinais de que não estão sendo as medidas de restrição à circulação de pessoas impostas por autoridades as causas primárias da queda na atividade econômica.

Testes estatísticos ajudam a mostrar que, muito mais do que as limitações impostas por governadores e prefeitos, o medo do contágio tem levado as pessoas, espontaneamente, a conter a movimentação social, interferindo no ritmo de atividades. Em outras palavras, diferentemente do que muitos imaginaram, pressionando pela reabertura precoce do comércio e dos serviços não essenciais, como forma de impulsionar a economia, é a própria disseminação do vírus — ou a falta de seu controle — que tem derrubado os negócios.

Procurando entender se o afastamento social se dava por imposição das autoridades ou por ação espontânea das pessoas, atemorizadas pelo risco de contágio de Covid-19, o experiente economista Affonso Celso Pastore, referência brasileira em análise de conjuntura econômica, analisou os dados de movimentação na cidade de São Paulo. O acompanhamento da evolução diária do percentual de movimentação não revelou evidências de que as medidas de restrição ou relaxamento, determinadas pelo governo, alteraram os números dessa movimentação.

Em boletim enviado a clientes de sua consultoria, Pastore mostra gráficos em que é possível observar que a movimentação em São Paulo sofre um mergulho ainda em março, antes do primeiro fechamento oficial, seguindo-se apenas pequenas elevações na movimentação com a reabertura gradativa dos negócios. A conclusão é a de que as pessoas escolheram se isolar antes das medidas de fechamento e se mantêm recolhidas com a abertura.

Pastore fez outro teste, buscando, desta vez, correlações entre as vendas reais do varejo ampliado, por Estados, com as médias estaduais de mortes por Covid-19. Os testes estatísticos indicaram correlação negativa entre as variáveis pesquisadas. Ou seja, vendas aumentam onde ocorrem menos mortes.

"Como sabemos, correlação não significa 'causalidade', porém podemos excluir o caso absurdo de maiores vendas causarem mais mortes, ficando com a conclusão de que os Estados que reagiram melhor à pandemia, reduzindo as mortes, permitiram melhor desempenho das vendas", explica o economista. Trocando em miúdos, quanto mais mortes por perto, mais cresce o medo de contágio, levando as pessoas a escolherem se manter em isolamento.

Para Pastore, há consequências diretas dessas conclusões para o desempenho da economia. Uma delas é a de que, por expressar uma ação mais dos indivíduos do que ação de governos, os exercícios de projeção sobre as variáveis da atividade se tornam muito mais incertos. A outra é a de que uma recuperação econômica mais consistente dependerá do controle da pandemia.

Como, na visão do economista, o que tem sido feito para controlar a pandemia se mostra insuficiente, até que seja possível elaborar análises mais bem fundamentadas em dados mais abundantes, não haveria razão para maior otimismo com os dados das vendas reais em maio. Pastore, por isso, ainda não vê razão para alterar sua previsão de uma contração da economia de 7,5%, em 2020.

José Paulo Kupfer