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José Paulo Kupfer

Não vamos sonhar que Brasil vai sair rápido da crise, diz ex-chefe do BC

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

26/07/2020 04h00

Poucos economistas brasileiros - pouquíssimos, na verdade - podem se equiparar, em sua trajetória profissional, a Affonso Celso Pastore. Ao longo de quase seis décadas de atividade, Pastore acumulou destaques como pesquisador, professor, consultor e servidor público.

O intelectual rigoroso, que contribuiu para o desenvolvimento teórico de sua especialidade, e o analista perspicaz da realidade brasileira, também ocupou cargos públicos de relevo. Primeiro, entre 1979 e 1983, como secretário de Fazenda de São Paulo, e depois, na presidência do Banco Central, entre 1983 e 1985.

No Banco Central, Pastore enfrentou uma das muitas crises da dívida externa pelas quais passou a economia brasileira, no caso, em consequência da elevação das taxas de juros internacionais, como resposta ao choque do petróleo, de fins dos anos 70. Também teve de combater as pressões inflacionárias do período, lidando com as frustrações causadas pela falta de instrumentos eficazes para a empreitada.

Professor na Faculdade de Economia da USP por quase 40 anos, e, depois, na Fundação Getúlio Vargas, a partir de 1999, Pastore é coordenador do Codace (Comitê de Datação dos Ciclos Econômicos), entidade hospedada no Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia), que avalia e determina os ciclos de recessão e crescimento da economia brasileira. Aos 81 anos, o economista é ativo participante do debate público da economia, mantendo coluna semanal no jornal "O Estado de S. Paulo".

Com organização do ex-presidente do BC Ilan Goldfajn e do jornalista Fernando Dantas, neste mês de julho, a editoria Portfolio-Penguin publicou "A economia com rigor". O livro, uma homenagem ao percurso profissional de Pastore, nasceu de um seminário, realizado em 2019, no Cdpp (Centro de Debate de Políticas Públicas), do qual Pastore é um dos fundadores, em comemoração aos 80 anos do economista. Com artigos de economistas expoentes da chamada linha ortodoxa, à qual Pastore se filia, a obra promove uma interessante resenha da evolução das pesquisas, do debate em torno das teorias e das políticas públicas, no Brasil dos anos 50 até os dias de hoje.

Nesta entrevista ao UOL, Affonso Celso Pastore conta como vê o futuro da economia brasileira em tempos de pandemia de Covid-19. O economista explica por que não acredita em recuperação rápida da atividade econômica. "Não vamos sonhar com recuperação em V, diz. "Essa recuperação só existe na cabeça de quem não para um minuto para raciocinar sobre a natureza do fenômeno".

Pastore também acusa o presidente Jair Bolsonaro - e seu modelo, o presidente americano Donald Trump - de não darem valor à vida e de apenas pensarem em seus futuros políticos. "Não há escolha entre salvar vidas ou a economia", assegura. "Presidente responsável precisa salvar vidas e a economia". Segundo ele, nesse contexto, falar em prejuízos à economia é "desculpa de mau vendedor".

UOL - Com que letra do alfabeto identificará melhor a marcha da economia brasileira na pós pandemia? Será com V, de uma recuperação muito rápida e muito vigorosa? Com U, em que vai haver recuperação, mas ela vai ser um pouco mais lenta? Com um W, que é uma recuperação com recidivas, com segundas ondas, com quedas em sequência e voltas também em sequência? É com L, uma situação pior que cai e não volta?

Affonso Celso Pastore - Eu gostaria de excluir duas letras dessa possibilidade: o V e o L. Eu acho que a economia se recupera numa certa hora. Em V, não tem essa hipótese na frente. Pode ser um U, com a parte de baixo um pouco mais longa, e talvez o lado direito um pouquinho mais curto do que o lado esquerdo. Pode ser um W.

Por que tem essa dúvida? Esta é uma recessão completamente diferente de todas as que a gente estudou na vida. Não tem nada a ver com aquelas depressões do tipo da de 1929. Ela não tem relação com a crise de 2008, que foi uma crise bancária, sistêmica, produzida pelo estouro de uma bolha, que era a bolha imobiliária, que todo mundo achava que não existia, que provocou no fundo uma forte contração, mas que foi rapidamente consertada. Foi arrumada, com um pouco de martelo a mais do que devia, mas a economia se recuperou. O Brasil teve uma recuperação em V em 2008.

Nós tivemos dois trimestres consecutivos de queda no PIB, naquela época. A maior foi no primeiro trimestre da recessão. O PIB deve ter caído a uma taxa anualizada de 15%. Na segunda, caiu a uma taxa anualizada metade daquela. Agora, no terceiro trimestre, nós já estávamos crescendo a uma taxa anualizada de 8%, e aí foi de 8% para 9%, de 9% para 10%. Entrou o ano de 2010, quando o PIB na média de 2010 sobre 2009, cresceu 7,5%, que são taxas no tempo do milagre brasileiro. Nós nunca mais vimos isso. Na crise de 2008, a recuperação foi muito rápida, o consumo das famílias praticamente não caiu. Nós tivemos um pequeno desemprego.

Primeira diferença. Quem nos impôs essa recessão foi um meteoro que caiu na Terra e pegou a Terra inteira, chamada pandemia. Você pode ter duas atitudes com relação à pandemia. A atitude da Idade Média, no qual você não faz nada - coitados! eles não tinham o que fazer quando teve a peste negra, quando teve a peste bubônica. Você não tinha ciência, você não tinha conhecimento. Quer dizer, aquilo determinava um número enorme de mortes.

Aqui no Brasil, nos temos um presidente que olha para isso, faz graça, etc. Mas não podemos deixar morrer, a vida humana tem um valor extraordinário e nós temos de dar valor à vida humana. Para evitar esse número enorme de mortes, é preciso adotar estratégias de afastamento social. Para isso, a melhor teoria conhecida é a de martelar e depois dançar. Primeiro, a martelada, fechar a economia, fazer um lockdown muito rígido para poder achatar o contágio.

No segundo momento, começa-se a dançar, no sentido de que, se o ritmo de contágio aumentar, reduz-se a atividade, se o ritmo de contágio cair, abre-se a economia um pouco mais. Quem usou essa estratégia do martelo foi a China e outros asiáticos. Eles tiveram mais sucesso do que a Europa, como foi o caso da Coreia do Sul e do Japão. Outros que conseguiram sucesso com essa estratégia foram a Austrália e a Nova Zelândia.

A Europa começou mais tarde. Eu estava na Itália, coincidentemente, em janeiro, quando a coisa começou. Logo no início, os italianos negaram o problema, mas logo quando descobriram a gravidade problema, fizeram um fechamento muito rígido. Para sair de casa, as pessoas precisavam de um atestado autodeclarando que tinha de ir ao supermercado, à farmácia, e logo voltariam para casa. Não se podia ir de uma cidade para outra. O mesmo aconteceu na França, na Alemanha.

Depois de o Boris Johnson cair em si, aconteceu também na Inglaterra. Hoje, as economias da Europa estão abrindo. Esses países não se livram do vírus, o que só vai ocorrer com as vacinas, que ainda não temos. Significa que nenhuma dessas economias poderá se recuperar rapidamente. Não é possível alimentar essa ilusão nem nos países que fizeram direito o distanciamento.

Como devemos encarar de fato essa realidade e quais seus efeitos sobre a economia? Trump e Bolsonaro têm alguma razão ao dizer que a cura da doença, com o fechamento da economia, pode matar mais do que a própria doença?

Vou dar a resposta contando histórias de como o mundo reagiu. A China fechou tudo e este ano a China cresce, depois de dois trimestres de queda. A Coreia do Sul fechou tudo, e a recuperação lá é muito mais rápida do que na Europa e nos Estados Unidos. A mesma coisa com a Austrália, fechou e agora se recupera mais rápido. O que, então, posso dizer é que tanto Trump quanto Bolsonaro pensaram no futuro político deles. Eles não dão valor à vida. E essa desculpa dos prejuízos à economia é uma desculpa de mau vendedor.

A Europa, coitada, se atrasou, fechou, e o ano que vem se recupera. Nenhum país da América Latina, das Américas de um modo geral, vai conseguir esse tipo de performance. Todos terão recessões mais fundas e mais tempo para recuperar, porque nenhum deles conseguiu segurar a curva de contágio. No Brasil, a curva de contágio agora se estabilizou. Ela vinha crescendo, crescendo, crescendo, mas ainda não começou a cair. No México, ela está subindo. No Chile, quando acelerou, o Chile fez um lockdown, e, aparentemente, segurou o contágio. Nós temos que ver como é que fica.

Em todos esses casos, nós teremos infelizmente segundas ondas de contágio. O Rio de janeiro abriu. É surpreendente o que aconteceu nos bares do Leblon no dia que abriu o Rio de Janeiro. É surpreendente o que acontece... você de fato comunica para a sociedade que há um perigo de contágio, o sujeito pode dizer: "eu sou um atleta", como disse o Bolsonaro. "Eu não tenho problema". Mas se ele estiver contaminado, ele está contaminando os outros. As pessoas têm que ter consciência disso.

Ainda que os governos ajam mal e não expliquem para a sociedade - que parte da liderança de um governante é fazer essa informação chegar à sociedade e, no fundo, orientar a sociedade, ainda que esse governante seja uma irresponsável, como é o caso do Bolsonaro, ou como é o caso do Trump, a sociedade não é irresponsável. A sociedade toma medidas espontâneas de isolamento.

Resumindo, não há uma escolha a fazer entre salvar vidas, com o isolamento, ou salvar a economia. Um presidente responsável tem que fazer as duas coisas.

É possível chamar essa retomada moderada em 2021, depois da queda forte que deve ocorrer em 2020, de recuperação, sem uma ressalva, sem aspas?

Vou pegar a projeção do Banco Central: 6,5% de queda este ano. A população cresce a 0,8%. Portanto, renda per capita cai 7,3%. Ela não tinha se recuperado no nível que estava antes da outra recessão, recessão de 2014. Ainda estávamos com a renda per capita 4,5% abaixo do pico de 2014. 4,5% com mais 7,3% dá 11,8%, 12% abaixo em renda per capita de onde nós estávamos em 2014. Suponha que a economia cresce 3,5% no ano que vem, vamos supor que cresça 4% no ano que vem. Tira 0,8% de população. Você caiu 12%, daquela base de 12% sobe 3%. Você ainda vai estar 9 pontos de porcentagem abaixo de onde estava lá atrás.

Por que estou chamando atenção para isso? Porque, na recessão de 2014, a força motriz da recuperação, a única, foi uma coisa chamada consumo das famílias. A taxa de investimento nunca se recuperou. O consumo do governo não podia se recuperar, porque a partir de 2016 nós estamos no teto de gastos. Então, estava congelado pelo teto de gastos. O governo não podia fazer política fiscal expansionista. Terminada a pandemia, a economia vai ter que voltar para o teto de gastos, porque não vai poder ficar gastando, porque o Brasil é um país frágil fiscalmente.

Será que o consumo seria agora a força motriz? Onde é que vai estar o desemprego no final deste ano? Estamos usando os dados da Pnad Contínua para poder começar a estimar... como ela é continua, de três meses, sai um mês, entra outro, tem sempre um trimestre contínuo, você tem de mensalizar o dado para saber direito aonde vai a taxa de desemprego, que estava em 12% antes de começar essa história inteira. Essa taxa de desemprego pode ir para 18%, pode ir para 19%, pode ir para 20%, pode ir para 21% no final deste ano. Você não vai conseguir reempregar esse pessoal todo, a não ser que a indústria volte a investir. A indústria está tomando um tombo daqueles assim de cair de cima do Himalaia para baixo. Quando eu olho para isso, eu penso, o consumo vai ter alguma recuperação, mas ele não pode ser uma força motriz.

Ah, o governo está transferindo R$ 600 por mês para as famílias desassistidas que, infelizmente, no Brasil são muitas. Eu não estou falando em dezenas, eu estou falando em milhões, dezenas de milhões de pessoas com 30, 40, 50 milhões de pobres desassistidos. Esse pessoal recebe os R$ 600 e consome tudo. Vai para o supermercado, compra comida e assim não morre de fome. Agora, na nossa sociedade, que tem uma distribuição de renda muito concentrada, infelizmente, o peso dessas 40 milhões ou 50 milhões de pessoas no consumo das famílias é muito pequeno. O dramático num país como o Brasil é que o consumo depende da classe média para cima. É lá que você compra um automóvel, que você compra roupa, que você compra sapato, que você compra bens e utensílios domésticos, compra panela, você compra tudo o que se compra.

Esse tipo de pessoa é uma pessoa que reage ao risco de uma pandemia de uma forma extremamente racional. Se você tiver um aumento de renda, ele vai inteirinho para aumento de poupança. Para você se garantir contra a próxima crise. Se você não tiver um aumento de renda, desculpa, você corta o seu consumo. Não tem maneira de o consumo das famílias ser a recuperação. Nós estávamos assim, 2010 e 2012, a taxa de investimento no Brasil foi entre 20% e 21% do PIB, ela estava entre 16% e 17%. A estimativa é que no final deste ano, ela está em 12%.

Nunca foi tão baixa.

Nunca foi tão baixa. Nós estamos vivendo a recessão mais profunda da história, que tem um risco de um vírus que não foi dominado, que indica que a recuperação será lenta. Então, não vamos sonhar com recuperação em V, que essa recuperação em V existe na cabeça de quem não parou um minuto para poder raciocinar sobre a natureza do fenômeno.

E de onde virá a recuperação, de onde virá o impulso para a atividade crescer? Se não é do consumo, pelo menos tão cedo, é do investimento, do gasto público, do setor externo? De onde virá?

Eu sei de onde ela não vem. Nós podemos até prorrogar esse orçamento de guerra. Eu acho que muito provavelmente vai ter que prorrogar esse orçamento de guerra, porque você não pode deixar morrer gente, não por causa da covid, mas se não morre de fome, é outra história. Nós estamos fazendo um déficit público este ano de 12% a 14% do PIB. A dívida pública bruta, que era de 78% em dezembro de 2019, salta para cento e poucos por cento, 100%, 101%, 102% no final deste ano. Você vai ter que continuar fazendo controle de gastos. Você vai ter que voltar ao controle de gastos. Então, o governo não tem forma de ele ser a força motriz.

Tem um instrumento que se chama política monetária. Não é por ligação com a casa, porque eu andei por lá, durante uma certa época da minha vida, que eu adquiri simpatia pelo Banco Central. Mas nem sempre eu tive simpatia. Depende de quem estivesse lá. Essa equipe que está lá está fazendo direito. Eles são à prova de qualquer tipo de erro? Ninguém é à prova de qualquer tipo de erro, todo o mundo comete um erro na vida, mas a massa de acertos é muito maior do que qualquer fração de erro que eles estejam cometendo. Eles estão proporcionando crédito para impedir que empresas quebrem. Por exemplo, você tem um crédito dado a pequenas e médias empresas, que têm que pagar a folha de pagamento e optam por não despedir os trabalhadores, na qual o governo entra com 85% do risco.

Mas parece que não está chegando ou que os bancos também não estão querendo arcar nem com 15% desse risco.

Eu vou dizer o seguinte: é difícil. Você faz uma primeira medida, não funciona, você tem que refazê-la, você tem que ver onde é que está o erro. Uma das vantagens dessa equipe - estou me referindo ao Banco Central, não estou me referindo ao resto do governo — eles reconhecem onde está a dificuldade, tentam, às vezes não encontram a solução, mas pelo menos tem uma tentativa. Se falha numa e tentaram dez, acertam oito e ficam devendo duas. Isso chega, esse crédito, e trouxeram a taxa de juros para baixo. Agora, a própria taxa de juro para baixo tem um limite.

Então, chega um certo momento em que até a política monetária tem o seu limite. Nós não podemos esperar que ela entregue mais do que ela pode entregar. Ela tem uma capacidade limitada de fazer a economia voltar. Você vai voltar devagar. Você vai dar um estímulo, o estímulo vai gerar um pequeno aumento de consumo. Você vai empregar uma pequena fração dos desempregados. Na hora em que você fizer isso, tem um setor que produz um certo tipo de bem que esses caras começam a consumir, que no fundo emprega um pouco mais de gente, que no fundo consome um pouco mais. Lentamente, a economia vai voltando.

Podia vir do setor externo, só que o mundo inteiro está em recessão. Não é só o Brasil. Tem uma recuperação da China. Ela vai crescer 1% este ano. O ano que vem talvez cresça 3%. A China costumava crescer 10%, 11%. Para ter aquela explosão de preços de commodities, só o Lula que teve sorte de ter aquilo em 2010, que aquilo foi um... assim, o [Edmar] Bacha costuma dizer que aquilo foi uma bonança externa, que, no fundo, fez o cara se beneficiar daquilo. Não tem essa bonança externa, porque a China não consegue reproduzir aquilo. Então, a recuperação não vem do lado de fora. Nós deixamos o nosso problema fiscal evoluir para um nível muito grave. Tanto que teve que botar uma emenda constitucional congelando gastos. Olha onde nós tivemos que chegar. Não vai ser fácil o caminho.

Até quanto pode cair a taxa básica de juros, para evitar todos esses problemas?

O Brasil é um país que tem um risco maior do que os outros. Se ele tem um risco maior do que os outros, a nossa taxa mínima de juros é maior do que a taxa mínima de juros de um país que não tem risco. Os Estados Unidos não têm risco. A Inglaterra tem toda uma história lá para trás, não tem risco. Você pode olhar para a Austrália e dizer que a Austrália não tem risco. Mas a América Latina inteira tem risco. A taxa de juros está bem baixa hoje. Se você olhar a taxa real no Brasil, ela já está em zero. Nós estamos com a Selic a 2,25%, mas estamos com inflação perto disso. Nós estamos com a taxa real em zero. Agora, se você for para a taxa nominal em zero, você vai ficar com a taxa real negativa. E você tem um prêmio de risco no Brasil que é positivo.

O Brasil é um país que tem um risco maior do que os outros. Se ele tem um risco maior do que os outros, a nossa taxa mínima de juros é maior do que a taxa mínima de juros de um país que não tem risco. Os Estados Unidos não têm risco. A Inglaterra tem toda uma história lá para trás, não tem risco. Você pode olhar para a Austrália e dizer que a Austrália não tem risco. Mas a América Latina inteira tem risco. Ela está bem baixa hoje. Se você olhar a taxa real no Brasil, ela já está em zero. Nós estamos com a Selic a 2,25%, mas estamos com inflação perto disso. Nós estamos com a taxa real em zero. Agora, se você for para a taxa nominal em zero, você vai ficar com a taxa real negativa. E você tem um prêmio de risco no Brasil que é positivo.

Mas uma taxa nominal de 1,5% é possível?

Isso nós vamos saber por tentativa e erro. Não tem ninguém que consiga, a priori, dizer se ela está mais próxima de 1,5%, se ela está mais próxima de 2%. O que o Banco Central tem comunicado é o seguinte: isso não está gravado em pedra, ninguém sabe exatamente qual é o tamanho dessa taxa mínima. Nós vamos ter que descobrir isso ao longo do tempo, sentindo as reações de mercado. Para você se sentir as reações de mercado, você não pode fazer movimentos bruscos, você tem que fazer movimentos suaves. O Banco Central fez dois movimentos bruscos, nos quais ele cortou 75 pontos em cada um deles. Nós estávamos desabados numa recessão, dá um movimento brusco, faz aquilo que a gente chama de um "front loading". Daqui para frente ele vai ou de 25 em 25, dá 25 e espera uma ou duas reuniões para um outro corte de 25. É como um jogador de bilhar que não conhece as leis da física. Mas ele tem que olhar exatamente onde tem de pegar na bola para jogar a bola na caçapa. Isso é uma questão de arte. O Banco Central vai ter que desenvolver essa arte, descobrir isso meio na tentativa e erro.

Como se harmoniza a necessidade de responsabilidade fiscal com a necessidade quase humanitária de suportar, sustentar, proteger essa quantidade que você mesmo falou, esses milhões, dezenas de milhões de brasileiros vulneráveis.

Primeiro lugar, não se pode viver num país no qual há uma desigualdade gigantesca. O país não é funcional, não é justo, não é passível de você viver. Em segundo lugar, você não pode excluir um sujeito que é uma criança que foi excluído porque não teve a comida, não se formou direito, e não foi para a escola. Esse cara não tem futuro. Então, tem que transferir dinheiro para esse tipo de família. O Bolsa Família foi uma solução para isso, e uma belíssima solução. O Brasil gasta com o Bolsa Família uma coisa com o retorno social absolutamente dantesco. Você está pegando crianças que iam ter um destino absolutamente incerto, colocando na escola, gerando comida. Dá um mínimo de renda para a mãe, e esse cara vira um cidadão que lá na frente vai ter uma profissão, ele vai crescer.

O Bolsa Família, no entanto, atingiu um pedaço da sociedade. Existem avaliações feitas no Brasil e no exterior que são excelentes avaliações da qualidade do programa. Todo mundo quer diferenciar o produto e quer ganhar o mérito político de ter inventado a solução da roda. A roda está inventada. Vamos pegar esse Bolsa Família e vamos alargar esse Bolsa Família. Vamos incluir mais gente no Bolsa Família. O Bolsa família é seletivo, ele seleciona um certo número de pessoas. Estão excluídos os informais, encontra um jeito de trazê-los para dentro.

Mas, quando você incluir os informais, vai ter que encontrar recurso a mais, porque essa conta tem que fechar. O recurso a mais está em algum desperdício que existe no governo. Vou dar dois exemplos de desperdício. O primeiro, de 2014 em diante, as renúncias fiscais. Elas já estavam num nível alto, de 2% do PIB de 2014, pularam para 4,5% do PIB e ficaram lá. Alguém se beneficiou disso, algum empresário se beneficiou disso. Você pode tirar essas renúncias e usar para distribuir.

Segundo lugar, existe um programa chamado Simples, inventado pelo Guilherme Afif, o assessor preferido do Guedes. Então, esquece, que ninguém vai mexer no Simples. Na Itália existe um sistema parecido com o Simples, beneficiada é a pequena empresa. A pequena empresa cresce, em vez de o sujeito crescer a empresa ele cria uma outra do lado, fica com duas pequenas empresas. Ela cresce, ele fica com três pequenas empresas, com quatro, com cinco, com seis. Totalmente ineficiente. Só para poder ganhar o tributo. Acaba o Simples e distribui a renda. Reduz o Imposto de Renda na Pessoa Jurídica para aumentar o investimento, e aumenta a taxação do dividendo, que vai para o dono da empresa. Nós temos que ter coragem de redistribuir renda.

Quer dizer, tem que mexer na carga tributária, e no sistema tributário.

Você pode mexer na formação dela, mas sem subir a carga. Por exemplo, você gera alguma coisa, que, no fundo, tira um privilégio que estava lá, que é uma isenção, põe aquilo na direção do outro...

Posso dar um exemplo. A carga está em 33%, 34% do PIB. No Simples, o cara paga 10%. Quer dizer, a carga dele não é essa tão alta. Muito pelo contrário, é quase 60% ou 70% menor do que isso. É disso que você está falando? Reequilibrar...

Essa é uma delas. A outra é a seguinte: o que tem de desperdício de gasto mal feito dentro do governo, eu começaria por aí. Quer dizer, não dá para mexer no Simples, começa a olhar o desperdício que está lá, o que é mal feito. E, no fundo, poupa dinheiro que você faz uma belíssima redistribuição de renda. Só que não pode ser um negócio assim, tem que ter alguma condicionalidade na renda. Bolsa família gera uma condicionalidade. Você tem que criar um cidadão que, daqui a 20 anos, vai ser um cidadão que vai contribuir para o país. Você não pode criar um vagabundo que, no fundo, nunca vai evoluir na vida. Você não pode ter aquilo sem nenhuma condicionalidade de educação, de melhora de vida, de melhora de hábitos de alimentação.

Você tem que pôr elementos que, no fundo, gerem um acesso do indivíduo à mobilidade social. Começa com dinheiro, mas vai com assumir responsabilidades que vão fazer desse indivíduo um cidadão respeitável lá na frente, que vai ser extremamente importante para fazer o país continuar a crescer. Temos que, sim, nós temos que fazer uma distribuição de renda e muito. O Brasil é muito desigual.

Para encerrar, abrindo para considerações finais, mas também condicionando. O que a gente não falou que você acha que era importante deixar como mensagem, em dois minutos?

Vou falar em um minuto. Nós estamos no meio de uma crise, mas as crises passam. A gente sai melhor, ou a gente sai pior, quanto mais racional a gente for em lidar com cada uma das crises. Claro que numa situação como essa você se queixa, põe a culpa aqui, põe a culpa ali. E claro que o governo está falhando miseravelmente nessa crise. Mas a sociedade tem canais através dos quais ela pode por pressão. Tem imprensa, que é livre. Olha que coisa maravilhosa! O Brasil tem imprensa livre. O jornal publica o que ele quiser. A televisão fala o que ela quiser. Na rede social, você se agrupa do jeito que você quiser. Não dá para ir para a rua porque tem isolamento social. Daqui a pouco vai poder ir. A sociedade tem que se manifestar. Ela não pode ser uma sociedade calada. Ver e se queixar, sentar na beira da calçada e dizer "olha que coisa infeliz, nós nascemos aqui, vamos morrer aqui". Nós temos uma obrigação de batalhar pelo país. A vacina vai chegar, a covid vai terminar e o nosso futuro quem vai fazer somos nós mesmos. Depende de como a gente se organizar para poder mudar o país, transformar do jeito que a gente quer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.