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José Paulo Kupfer

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Crescer é contratar mais gente, e isso não está acontecendo, diz economista

José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator - Divulgação
José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator Imagem: Divulgação
José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

02/06/2021 16h35

São muitos os pontos que, com a pandemia, deixaram de seguir velhos e conhecidos padrões históricos. Também na economia este é um fato. Os termômetros existentes parecem quebrados, não conseguindo dar conta de medir, corretamente, a temperatura da atividade econômica. Muito menos oferecer projeções confiáveis para o futuro próximo.

Nem depois de conhecido o retrato real do primeiro trimestre, com a divulgação pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) das informações sobre a variação do PIB (Produto Interno Bruto), nesta terça-feira (1º), divergências sobre a trajetória da economia foram aplacadas. Os analistas se dividiram entre os que avaliam se encontrar a atividade econômica em processo de recuperação robusta e os que ainda localizam muitas barreiras e restrições ao crescimento.

A maior parte dos economistas de bancos e consultorias financeiras, os chamados "analistas de mercado", alistou-se no primeiro grupo. O anúncio de que a atividade avançou 1,2% no primeiro trimestre de 2021, em relação ao último terço de 2020, quase o dobro do ritmo previsto, confirma, para eles, que a retomada ganhou consistência.

Não para José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator e professor aposentado da FEA-USP (Faculdade de Economia e Administração, da Universidade de São Paulo). Kiko Lima Gonçalves, como é conhecido, é, de fato, um "analista de mercado" que foge ao figurino de seus pares. Mais cético do que a média, Kiko também não reza pela cartilha ortodoxa de seus colegas.

"Estes dois primeiros trimestres do ano trazem dificuldade em separar o que é ajuste do que é crescimento mesmo", diz Kiko. "Crescimento é contratar mais gente, e isso não está acontecendo".

Ele também discorda de que reformas sejam pré-requisitos para o crescimento, um mantra no mercado financeiro, recitado também pelos economistas do governo Bolsonaro, a começar do ministro da Economia, Paulo Guedes. "Reformas são outra dimensão do problema econômico, devem correr em paralelo com as questões do crescimento", afirma.

Segundo ele, é ideológica, religiosa até, a ideia de que precisamos primeiro arrumar a casa e só depois pensar em crescer. "Não é assim que funciona, nunca aconteceu assim, não vai acontecer agora".

Neste entrevista, Kiko Lima Gonçalves defende também que, diferentemente da famosa observação do professor americano Milton Friedman, prêmio Nobel de Economia e ícone da escola de pensamento econômico ultraliberal, há, sim, em certas condições, almoço grátis. "Quando há muito desemprego e ociosidade na economia, quando só o governo compra o que ninguém quer comprar, o almoço é gratuito", garante.

Vai dar crescimento de 5% este ano?

Estou revendo. Meu número anterior era 2,5%, com viés de baixa. Agora é 3%, com viés para cima. Esse número mais alto agora é uma antecipação de 2022. Quanto mais se projeta crescimento para 2021, menor é a projeção para 2022.

A explicação simples é que, quando maior o avanço neste ano, maior será a base de comparação com o ano que vem. A realidade é que voltar ao nível anterior de atividade é uma coisa, crescer é outra.

Falando em explicações, como explicar essas previsões de crescimento de 5% ou mais para 2021?

Minha primeira explicação é a de que sempre erramos as previsões. Para mais ou para menos, em maior ou menor amplitude, sempre erramos. Economistas não têm o poder de prever o futuro. Sabem é dar chutes informados, chutes orientados.

Além disso, há, normalmente, dificuldades em projetar o resto do ano a partir do primeiro trimestre. Comparando com períodos fortemente afetados por uma pandemia, como foram os primeiros trimestres do ano passado, a dificuldade aumenta.

A indústria, por exemplo, ficou três meses com a produção interrompida em 2020. Os estoques encolheram, tanto os de matérias-primas quanto os de produtos prontos. É possível recuperar parte do que foi perdido produzindo agora mais do que produzia antes.

Nessa situação, se vou comparar os dois primeiros trimestres de 2021 com os dois primeiros do ano passado, quando a produção afundou, vai dar alta. Mesmo com a indústria demitindo ao longo do ano passado.

Aumentaram as horas trabalhadas para repor o que deixou de ser produzido lá atrás. Sem esse aumento de horas trabalhadas, a produção estaria limitada pelo nível mais baixo do emprego.

Resumindo, esses dois primeiros trimestres trazem dificuldade em separar o que é ajuste do que é crescimento mesmo. Crescimento é contratar mais gente, e isso não está acontecendo.

Esse aumento de produtividade não é positivo?

Produtividade todo mundo gosta, mas não deveria gostar quando reduz emprego num setor e não há absorção de emprego em outro. Não tem como aumentar a produtividade da economia sem investimento. Aliás, não tem como crescer sem investimento porque investir significa provocar um gasto que não existiria sem o dito investimento.

A propósito do aumento de gastos, por que o governo não pode dar um auxílio, uma renda básica, de R$ 600? Os argumentos de que aumentaria o risco fiscal, risco que já afetou, negativamente, a taxa de câmbio e a inflação, fazem sentido?

Sob certas condições, a frase atribuída ao pouco lido e muito citado Milton Friedman [economista e professor norte-americano, Prêmio Nobel de economia e expoente, na segunda metade do século 20, da escola de pensamento econômico ultraliberal], de que não há almoço grátis, não é verdadeira.

Isso pode chocar muitos economistas, mas, por exemplo, quando há muito desemprego e ociosidade na economia, o almoço pode ser de graça. O almoço grátis ocorre quando o governo vai ao mercado e compra o que ninguém quer comprar.

Assim, o governo transforma desemprego e ociosidade em produção e produto. O gasto público tem esse condão de aumentar a produção, reduzindo o desemprego e a ociosidade.

Se isso é verdade, se a economia cresce, de que maneira o aumento do gasto público, que levaria a esse "risco fiscal", entre aspas, poderia tornar o real menos atrativo? Tem mais produção, mais atividade, mais renda, mais arrecadação?

Tem também que gasto público aumenta a dívida pública, a nossa está perto de 100% do PIB, e aí temos traumas de uma história de calotes e moratórias de dívidas?

Quando o governo compra o que ninguém compra, acionando o mecanismo da produção, vai fazer o cidadão que passa a produzir ou aumenta a produção pagar tributos, a arrecadação pública aumenta. Se eu olhar o gasto pelo lado da atividade, é isso que vou ver. Diferentemente do gasto das pessoas, o governo, ao gastar, cria a sua própria arrecadação.

Quando alguém gasta, se afasta do seu dinheiro. Quando o governo gasta, ele não só não se afasta do dinheiro como cria condições para aumentar a receita fiscal. Sim, a dívida aumenta, mas também aumenta o produto. Se o que conta é a relação entre a dívida e o PIB, a relação melhora. O PIB também representa a capacidade de cobrar impostos.

Além do medo e dos traumas, as pessoas parecem não aceitar que o gasto público reduz o desemprego e, portanto, cria renda e arrecadação. Talvez a resposta para essa não aceitação venha do temor de que o governo mande na vida da gente. Não deixa de ser um temor legítimo, mas ideológico.

Por linhas tortas, porque a origem é a inflação, com a alta do PIB nominal, no momento, a relação dívida pública/PIB está em queda. O próprio governo está prevendo que encerrará 2021 em 85% do PIB. De todo modo, o fato deixa claro que, quando a economia cresce, a tendência é acalmar as pressões fiscais.

Sobre narrativas do mercado financeiro que não se confirmam: não houve problemas com a rolagem da dívida no primeiro quadrimestre do ano, como analista cansaram de prever, não é mesmo?

Exatamente. O pessoal do mercado chegou a colocar em dúvida a capacidade de o Tesouro Nacional lidar com os vencimentos até abril. O Tesouro teve de vir a público garantir que não faltaria dinheiro para rolar a dívida. Imagine o Tesouro ser obrigado a avisar à praça que não estava quebrado! Esse país aqui é muito complicado.

Mas o volume acumulado era alto mesmo?

O volume a ser rolado era elevado, mas o pessimismo, muito exagerado. O fato é que, apesar de expectativa tão ruim e da incompetência geral do governo, passou abril e não aconteceu nada. Uns R$ 600 bilhões, mais da metade disso só em abril, foram rolados, e ninguém lembrou de nada, nem uma palavra sobre todo o pessimismo anterior.

O que se pode concluir desse episódio é que há uma sensibilidade exagerada no mercado financeiro, em relação a essas questões da área fiscal, que encontra eco na imprensa, ajudando a piorar o ambiente. Não faz muito sentido falar em excesso de gastos, excesso de dívida, deixando de lado a arrecadação, numa recessão.

Existe um consenso, entre os economistas de mercado, também defendido ardorosamente pelos economistas do governo Bolsonaro, segundo o qual sem reformas não há crescimento.

Eu acho que essa é uma relação que vai ao encontro do senso comum, mas tecnicamente é muito mal colocada. É um sofisma achar que apenas reduzir o custo dos tributos para as empresas vai levar ao crescimento. Sim, com reformas, os custos dos impostos caem. E daí?

Isso vai se transformar, pura, simples e automaticamente, em mais produção? Ou precisa de mais alguma coisa? Reduzir custo da empresa não quer dizer que, inevitavelmente, ela vai passar a gastar mais. Sem gastar mais, a empresa não vai crescer. Se as empresas não crescerem, a economia não cresce.

Não se trata exatamente de fazer analogia com a antiga história de fazer o bolo crescer e depois distribuir, mas não faz sentido achar que reformas precedem o crescimento, que reformas são condição prévia do crescimento. Reformas são outra dimensão do problema econômico, devem correr em paralelo com as questões do crescimento.

Considerar primeiro isso ou aquilo, ainda que possa parecer uma maneira mais simples de encarar o problema, é uma forma muito ingênua. É algo ideológico, até religioso: primeiro, precisamos arrumar a casa e só depois podemos pensar em crescer. Não é assim que funciona. Nunca aconteceu assim, não vai acontecer agora.