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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Economia mundial se recupera em 2021, mas com desequilíbrios e incertezas

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

30/12/2021 04h00

Novas ondas e novas variantes de covid-19 atrapalharam uma retomada mais ampla, na economia mundial, em 2021. A atividade econômica, impulsionada pela injeção de grossos volumes de recursos destinados a sustentar a travessia dos tempos de pandemia por pessoas e empresas, foi dificultada por incertezas e vaivéns de lockdowns, principalmente na Europa, mas também na Ásia e Estados Unidos.

Recuperação cíclica e desigual, gangorra nos preços de commodities, impondo mudanças bruscas nos custos de produção, e escaladas inflacionárias resumem as principais marcas da economia global no ano que está terminando. As economias que foram mais ágeis na adoção de medidas de distanciamento e destinaram maior volume de recursos à sustentação da atividade econômica registraram retomadas mais rápidas e expressivas.

Mas a forte retomada que tomou corpo no segundo semestre de 2020 —e avançou com a vacinação em 2021— perdeu um pouco do impulso com resistências à vacina e com novas ondas de covid. Depois de um recuo de 3,5%, em 2020, a economia mundial, de todo modo, deverá crescer perto de 6%, em 2021.

Essa recuperação, porém, não tem sido homogênea. Economias avançadas e alguns emergentes devem voltar aos níveis de atividade pré-pandemia em 2023, enquanto países de renda mais baixa demorarão ainda um bom tempo para completar a recuperação. Na maioria dos casos, a retomada tem sido acompanhada de aumento da inflação e da dívida pública.

Inflação e endividamento público são consequências diretas do enfrentamento da pandemia. No caso da inflação, a origem se localiza no desarranjo promovido pela pandemia nas cadeias de produção. Quanto à alta do endividamento, é resultado da massa de recursos despejada por governos na economia, como forma de contornar o colapso da atividade.

Nos países de economia madura, prevaleceu, de modo geral, o princípio de que o colapso simultâneo, inesperado e abrupto, tanto da produção quanto do consumo, teria de ser enfrentado com recursos públicos. Em resposta à pandemia, ao longo dos últimos dois anos, ganhou espaço uma importante revisão nas políticas de austeridade fiscal predominantes e no papel dos governos no impulso às economias.

A expressão mais concreta dessa revisão é o conjunto de programas sociais, ambientais e de infraestrutura, proposto pelo novo presidente americano, Joe Biden, nos primeiros meses de 2021, logo no início do governo, conhecido como Bidenomics. Mais de US$ 3 trilhões já foram aprovados, e um programa de investimento em "infraestrutura humana", prevendo inversões de US$ 1,8 trilhão, está em discussão no Congresso. Se aprovado nesse montante, serão injetados na economia, em dez anos, cerca de US$ 5 trilhões, o equivalente a 25% do PIB americano.

Na China, o risco de quebra de gigantes da construção civil deitou sombras sobre a capacidade de reação da economia, uma preocupação global, dada a crescente inserção econômica chinesa em todo o mundo. A quebra da líder Evergrande, com repercussão em todo o setor da construção, afetando fornecedores de uma multiplicidade de países, também marcou a economia em 2021.

Pressões inflacionárias foram outra marca da economia mundial em 2021. Essas pressões vieram, na maior parte, de choques de oferta, como os causados pela escassez de suprimentos para a indústria e as elevações nas cotações de commodities, que impactaram os preços de combustíveis, energia e alimentos.

No terceiro trimestre, as projeções sinalizavam que a inflação, na economia mundial como um todo, avançaria para 5% em 2021, um número alto em relação aos índices de anos anteriores. Nos Estados Unidos, por exemplo, em novembro, a inflação acumulada em 12 meses bateu em 6,8%, o índice mais alto em quase 40 anos.

Melhor exemplo da forte gangorra observada nas cotações de commodities é o do mercado de petróleo. No auge da primeira onda de covid-19, no segundo trimestre de 2020, os preços chegaram a recuar para menos de US$ 15 dólares por barril, e houve momentos em que as cotações desceram a impensáveis valores negativos. Já em outubro de 2021, as cotações de petróleo alcançaram US$ 85, alta de quase 60%, no período.

As cotações das commodities alimentícias também subiram intensamente. Em novembro de 2021, o índice do Banco Mundial de commodities agrícolas se encontrava em nível 40% acima do registrado em maio de 2020.

Baseadas no livre fluxo de produtos, com o mínimo de estoques possíveis, as cadeias de produção global sofreram pesados desarranjos com os bloqueios de circulação de pessoas e mercadorias determinados pelo combate ao contágio na pandemia. A retomada se deu de forma desequilibrada, acrescida de aumentos nos custos de transporte, resultando numa combinação adversa de preços impulsionados por custos mais elevados e menor oferta.

Tais dificuldades persistem na virada de 2021 para 2022. É de se prever demora no retorno à normalidade pré-pandemia. Ainda mais que, para combater a inflação, os bancos centrais devem acelerar o ritmo do enxugamento da imensa liquidez financeira criada a partir da crise de 2008 e potencializada com a pandemia de covid-19.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL