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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Brasil pode ter mais inflação e menos crescimento com o conflito na Ucrânia

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito ?Jornalista Econômico de 2015? pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

24/02/2022 13h05Atualizada em 24/02/2022 17h17

Dimensionar as consequências mais amplas do conflito no Leste Europeu para a economia brasileira dependerá dos desdobramentos dos ataques russos e da reação dos aliados liderados pelos Estados Unidos. Mas não há dúvida de que o roteiro já está estabelecido.

Altas já estão ocorrendo nas cotações internacionais de petróleo, grãos e fertilizantes, e esses aumentos pressionarão a inflação no Brasil, movimento potencializado pela tendência de desvalorização do real ante o dólar. Diante de novas pressões inflacionárias, o Banco Central terá de reagir elevando a taxa básica de juros (taxa Selic). Juros mais altos tornarão o crédito mais caro e mais escasso.

O resultado final será um freio na atividade econômica, dificultando o crescimento. No fim do processo, emprego e renda tenderão a encolher.

As cotações de petróleo saltavam mais de 8%, na manhã desta quinta-feira (24), negociadas a US$ 100 por barril. A Rússia, vale lembrar, é o segundo maior exportador mundial, pouco atrás da Arábia Saudita, com 12,5% do mercado.

Mas também as cotações de trigo e milho, cereais dos quais Rússia e Ucrânia estão entre os maiores produtores e exportadores, davam pulos e subiam 3%, na manhã de terça-feira. O Brasil é grande importador de trigo, assim como de derivados de petróleo e de fertilizantes.

No mercado cambial, as cotações do dólar ante o real também reagiam ao início da guerra aberta na Ucrânia. A moeda americana subia quase 3%, cotada a R$ 5,13, no início da tarde. Na Bolsa, o Ibovespa recuava quase 2%, acompanhando todas as praças internacionais.

Na parte da tarde, depois do pronunciamento do presidente americano Joe Biden, os mercadores baixaram um pouco a temperatura. As bolsas, inclusive a brasileira, reduziram os recuos para perto de 1%, enquanto a cotação do dólar recuava para R$ 5,09. No mercado internacional de petróleo, o preço do barril descia para US$ 95.

Biden anunciou o reforço de sanções econômicas à Rússia, com ênfase no bloqueio de recursos de bancos russos nos Estados Unidos, prometeu apoiar o aumento da produção de petróleo no país e, principalmente, assegurou que os Estados Unidos não se envolveriam militarmente no conflito.

Aumentos nas cotações internacionais de petróleo sempre afetam os preços dos combustíveis no Brasil. É grande sua disseminação pela cadeias de produção e comercialização de bens e serviços. A política de preços da Petrobras, que prevê repasse quase automático das cotações internacionais de petróleo para os preços de venda de combustíveis no mercado interno, potencializa altas de custos e, em consequência, impulsionam pressões inflacionárias.

Movimentos semelhantes podem ser descritos no caso dos fertilizantes. O Brasil importa mais de 40 milhões de toneladas de fertilizantes por ano e um quinto dessas importações vêm da Rússia. Sem contar as compras externas de potássio, dos quais Belarus, a república pró-Rússia vizinha da Ucrânia, é importante fornecedor.

Quando os preços internacionais de cereais e fertilizantes sobem, os custos da produção agrícola brasileira sobem. Daí resultam pressões sobre a inflação de alimentos, item com grande peso nos índices de preços e no bolso dos consumidores, em especial os de renda mais baixa.

Outra fonte de pressão inflacionária pode vir da taxa de câmbio. Os primeiros momentos da escalada russa na Ucrânia, como esperado, movimentou os mercados de moedas. Nas horas de incertezas e inseguranças, como a do momento atual, há um voo dos capitais que circulam pelo mundo em busca de oportunidades e rendimentos mais altos para o mercado americano, fortalecendo o dólar contra as demais moedas. Por natureza, as moedas de economias emergentes são as mais afetadas pelas oscilações.

Não é certo que a tendência inicial de desvalorização do real, depois que os desdobramentos do conflito no leste europeu fiquem mais claros, se consolide. Mas essa é, sem dúvida, uma tendência fortemente possível e esperada.

Tudo considerado, a guerra na Ucrânia reúne todos os elementos para impulsionar ainda mais a inflação no Brasil. Com o detalhe de que, como já tem ocorrido desde 2021, a origem das pressões inflacionárias se localiza nos custos de produção - não diretamente por movimentos de demanda.

Isso significa que elevações nas taxas básicas de juros tenham de ser mais fortes para conter as altas de preços. Isso porque a política de juros, ao atuar como freio da atividade econômica, opera com mais eficiência sobre pressões de demanda, pois esta tende a recuar com cortes no crescimento da economia, com reflexo negativo no emprego e na renda, impulsionadores da demanda.

A mais de dez mil quilômetros de Brasília, as consequências para a economia brasileira do conflito entre Rússia e Ucrânia, sem considerar futuros e ainda imprevisíveis desdobramentos geopolíticos e diplomáticos, tende a ser mais inflação e menos crescimento.