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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

FMI vê guerra na Ucrânia cortar crescimento mundial e favorecer o Brasil

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito ?Jornalista Econômico de 2015? pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

21/04/2022 04h00

A guerra na Ucrânia, amplificada pelas sanções econômicas aplicadas à Rússia pelos Estados Unidos e aliados na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), levou o FMI (Fundo Monetário Internacional) a promover um corte pesado nas suas projeções para o crescimento da economia mundial em 2022 e anos seguintes. No mais recente relatório "Perspectivas da Economia Mundial", a publicação quadrimestral divulgada nesta terça-feira (19), o FMI projeta expansão econômica global de 3,6%, recuo de 0,8 ponto percentual em relação à previsão de janeiro, de crescimento de 4,4% para o conjunto das economias.

No quadro traçado pelo FMI para sustentar as novas projeções, dois fatores se combinam. O primeiro é o das altas em cotações internacionais de commodities energéticas e alimentícias. Essa elevação nos preços impacta negativamente a demanda e a atividade econômica nos países importadores.

O outro fator são os problemas de logística, com origem nos desarranjos causados pela pandemia, que acarretam falta de suprimentos nas cadeias de produção, contraindo a oferta de bens manufaturados, o que é potencializado pela política chinesa de covid-19 zero, que torna mais frequente e rígida a adoção de lockdowns.

Ambos contribuem tanto para a retração do crescimento nas economias ao redor do mundo quanto para intensificar pressões inflacionárias na maioria dos países.

Esses mesmos elementos produziriam efeito em direções opostas na economia brasileira. A alta das commodities teria, na avaliação do FMI, efeitos líquidos positivos na atividade econômica, e, ao mesmo tempo, ampliará as pressões inflacionárias vigentes.

Nas novas projeções do FMI, a economia brasileira avançará 0,8%, em 2022, bem acima da projeção de crescimento de 0,3%, divulgada em janeiro, mas quase metade do previsto no relatório de outubro de 2021. Ainda assim seria uma expansão modesta, abaixo da prevista para o resto do mundo e mesmo para a América Latina.

A aceleração do ritmo previsto de crescimento seria insuficiente, por exemplo, para absorver volume animador de mão de obra desocupada e preencher capacidade de produção ociosa. O ligeiro crescimento maior viria acompanhado de alta na inflação, que iria a 8,2% em 2022, acima dos 7,5% ainda esperado pelos analistas brasileiros, ao mesmo tempo em que o desemprego resistiria na faixa de 13% da força de trabalho.

O Brasil ocupa posição de destaque no topo da lista dos maiores exportadores de commodities alimentícias (e também de petróleo e metais), e, nessa direção, tem sido beneficiado pela alta nas cotações. As vendas brasileiras do agronegócio ao exterior, em março, por exemplo, foram recordes — subiram 30% em relação a março de 2021.

No outro lado da moeda da alta nas cotações de commodities estão as pressões inflacionárias, derivadas diretamente dos aumentos internacionais nos preços dos grãos e do petróleo, mas também de causas internas, como a política de preços da Petrobras, atrelada aos preços externos e ao dólar. Além disso, a inexistência de políticas de estoques e regulação de mercado de alimentos e a desarticulação da estrutura de apoio à agricultura familiar também impactam negativamente os índices de inflação. Estimativas de que o Banco Central eleve a taxa básica nominal de juros acima de 13%, em 2022 — mantendo-a em cerca de 7% em termos reais — contribuem para limitar o efeito positivo das altas das commodities.

O FMI cortou suas projeções para o crescimento, em 2022, da maior parte dos países, em relação às previsões de janeiro. Para os Estados Unidos, os economistas do Fundo reduziram a estimativa de crescimento econômico em 0,3 ponto percentual, para 3,7%. No caso da China, o corte foi de 0,4 ponto, o que trouxe a expectativa de expansão da atividade para 4,4.

O maior impacto negativo, compreensivelmente, ficou com a Rússia. Na visão do FMI, a economia russa deve mergulhar 8,5% este ano, amargando inflação acima de 20% este ano e ainda cair mais 2,3% em 2023.

Poucos países, além do Brasil, tiveram projeções melhoradas, no relatório de abril, em comparação com os números de janeiro. Foi o caso das previsões do FMI para a América Latina e Caribe, que agora são de crescimento médio regional de 2,5%, em 2022, 0,1 ponto acima do previsto em janeiro. Também países da pobre África Subsaariana cresceriam 0,1 ponto acima do antes estimado, com avanço de 3,8%, neste ano.

Não por coincidência, e mostrando o peso emprestado à questão do fornecimento de petróleo e gás, o maior crescimento em 2002 previsto para um país pelo FMI, na comparação com as previsões do começo do ano, seria alcançado pela Arábia Saudita. Nas projeções do FMI, a economia saudita, um dos maiores produtores e exportadores de petróleo, crescerá 7,6% em 2022, 2,8 pontos acima do estimado em janeiro.