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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pessimismo sem motivo deu lugar a otimismo sem base na economia

14/06/2023 04h00

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A Bolsa sobe, caminha na direção dos 120 mil pontos e tem gente animada que já prevê chegar a 150 mil. O dólar está em baixa, furou a barreira dos R$ 5, roda há dias em torno de R$ 4,85, e já se vêem projeções de que baterá perto de R$ 4,50. O PIB (Produto Interno Bruto), que não cresceria nem 1% em 2023, segundo as estimativas do começo do ano, pode fechar 2023 com expansão de 2,5%. A inflação perde fôlego e, no Boletim Focus, a previsão para o ano, que recua há quatro semanas seguidas, desceu para menos de 5,5%.

Depois de um começo de mandato com perspectivas sombrias para a economia, o governo Lula parece viver uma virada positiva. Até a prevista recessão global não está se confirmando, e a expectativa é a de que, se houver, será suave. Em consequência, previsões de um saldo comercial recorde com o exterior, nas proximidades de US$ 70 bilhões em 2023, começam a aparecer.

A "virada" tem sido atribuída à sorte que acompanha Lula, fator ao qual muitos atribuem o relativo êxito de seus dois primeiros mandatos. Lula pode ser uma pessoa de sorte, mas não é só a sorte que explica os resultados de seus governos anteriores, assim como não é apenas o fator sorte que deve ser considerado na avaliação do atual momento da economia.

Na verdade, a explicação para a "surpresa" positiva com a economia, neste segundo trimestre do ano, é a seguinte: pessimismo sem motivo deu lugar a otimismo sem base na realidade.

O melhor, na economia, em 2023, considerando os grandes indicadores econômicos, já ficou para trás. O pico do impulso na atividade econômica ocorreu no primeiro trimestre. Também no caso da trajetória da inflação, o ponto mais baixo, em 2023, deve ser alcançado em junho. Ao longo do ano, daí para frente, embora longe da intensidade que o pessimismo anterior imaginava, os indicadores devem mostrar alguma piora.

No caso da inflação, as estimativas mais recentes apontam para moderação nos índices mensais, mas avanço nos acumulados em 12 meses, em razão da base de comparação do segundo semestre de 2022 menos favorável, depois dos esforços do governo Bolsonaro para conter a marcha inflacionária às vésperas das eleições presidenciais. As perspectivas mais otimistas são de que a inflação, depois de descer até 3,3% neste mês de junho, na beirada do centro da meta, termine o ano nas vizinhanças de 5%, ainda assim acima do teto do intervalo de tolerância do sistema de metas.

Quanto à atividade, as projeções para os demais trimestres do ano são de estagnação, depois do crescimento de 1,9% entre janeiro e março. As estimativas para a expansão da atividade ao longo do ano sinalizam que a herança de 2,4% não terá fôlego para garantir avanço do PIB pelo menos nessa mesma magnitude, sem um empurrão do governo. Sinal das dificuldades, o número de pedidos de recuperações judiciais disparou, nos primeiros meses de 2023, alcançando o maior volume em cinco anos, para o período.

Consumo e investimento continuam rateando

Pesquisas de mercado apontam dificuldades para expansão do consumo em 2023, a partir de restrições de crédito — seja por inadimplência ou taxas altas de juros —, produtos e serviços com preços elevados, mesmo crescendo em ritmo mais lento, e redução do estoque de poupança familiar. As expectativas são de crescimento insuficiente, inferior a 2% em termos reais sobre 2022, metade da expansão registrada em 2022.

O investimento também continua fazendo água. Medida do investimento no PIB, a FBCF (Formação Bruta de Capital Fixo), que reúne os gastos em máquinas e equipamentos, construção civil e obras de infraestruturas, entre outros fatores, recuou 3,4% no primeiro trimestre de 2023 sobre o último trimestre de 2022, no qual já tinha encolhido 1,1%, na comparação com o terceiro trimestre do ano passado. Com isso, a taxa de investimento, que relaciona a FBCF com o PIB, caiu para 17,7% do PIB, no período janeiro a março deste ano, marcando o menor ponto em três anos.

Governo corre para empurrar a economia

Lula e seu governo têm dado mostras de saber que, sem o impulso de programas oficiais, mais provável que a economia de fato ande de lado. Além da retomada do Bolsa Família e de outros programas de transferência de renda, diversas ações com o objetivo de empurrar a atividade econômica estão sendo concretizadas ou anunciadas para breve. Alguns exemplos:

Antecipação do pagamento do 13º salário dos aposentados e pensionistas do INSS para junho e julho, repetindo prática adotada pelo governo Bolsonaro. Serão cerca de R$ 60 bilhões movendo principalmente o consumo das famílias;

Antecipação do início do programa Desenrola, de renegociação de dívidas de inadimplentes até com renda até dois salários mínimos, do quarto trimestre para terceiro. Se der certo, o Desenrola abrirá espaço para aumento do consumo, via crediário, a pelo menos 40 milhões de pessoas hoje inadimplentes e sem acesso a crédito;

Programa de obras de infraestrutura, a partir de julho, e também uma ampliação do Minha Casa, Minha Vida para faixas de renda até 10 salários mínimos. Esses programas configuram forma clássica de incentivar a atividade econômica em amplo espectro, e seu objetivo é mover a construção civil, setor que impacta uma grande cadeia de produção e provê emprego para trabalhadores menos qualificados.

A moral resumida dessa história é a de que, se a situação da economia já foi pior, ainda está longe de ser boa. Lula não esconde que corre para empurrar a atividade econômica e tentar tirá-la do terreno movediço em que ainda está atolada.