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Entrou na crise do coronavírus com dívidas? Veja como lidar melhor com elas

Claudia Varella

Colaboração para o UOL, em São Paulo

03/05/2020 04h00

Pagar ou não pagar? Este pode estar sendo o dilema de pessoas que já estavam no vermelho quando a crise do coronavírus começou e desde então vêm se enrolando cada vez mais com dívidas e contas atrasadas. O que é melhor fazer agora?

O UOL ouviu especialistas em finanças pessoais sobre como fazer para renegociar suas dívidas e colocar suas finanças em ordem.

"Seja qual for a sua situação, se antecipar pode fazer toda a diferença. Negociar é a palavra de ordem no momento", afirmou Luciana Ikedo, assessora de investimentos e planejadora financeira.

Eliane Tanabe, planejadora financeira pela Planejar, diz que é preciso fazer uma análise bastante criteriosa do orçamento pessoal e familiar para entender quais contas aumentaram ou reduziram com a quarentena e avaliar quais são essenciais e os gastos possíveis de serem cortados, mesmo que temporariamente.

Vale trocar dívida cara por outra mais barata?

Essa troca é válida, desde que seja vantajosa. "Você poderá avaliar os empréstimos bancários e de outras financeiras. Avalie e compare criteriosamente as condições apresentadas e evite a decisão por impulso. Se preciso, peça ajuda de um planejador financeiro, pois uma decisão precipitada e mal planejada pode levá-lo a um endividamento por um longo período", declarou Eliane.

Mas, antes, liste todos os empréstimos e os financiamentos, como o imobiliário e o do veículo, e as condições em que eles se encontram.

"Nesta etapa, é preciso avaliar o que pode ser feito contrato por contrato, como a prorrogação das parcelas dos contratos adimplentes por 60 dias [caso do Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander] ou 90 dias [caso de contratos na Caixa], a possibilidade de renegociação das taxas de juros menores e consequente redução no valor das parcelas ou ainda a portabilidade de crédito, entre outras medidas", afirmou.

Segundo Luciana Ikedo, para as dívidas mais caras, como cartões de crédito, cheque especial e crédito pessoal parcelado, procure a instituição financeira e tente concentrar tudo em uma só, mais prolongada, com uma taxa de juros menor e com uma parcela que caiba no orçamento atual.

"É preciso tomar muito cuidado com a taxa de juros, com o Custo Efetivo Total [CET], que pode incluir outros custos que precisam ser considerados, e também com o valor da parcela contratada, que precisa caber no bolso", disse Luciana.

Segundo ela, muitos contratos de empréstimos, principalmente pessoais, possuem cláusula de seguro sobre desemprego que pode prever a quitação de algumas parcelas e amenizar o orçamento do momento, se for o caso.

Caso não consiga renegociar suas dívidas, outra saída é vender algum bem para liquidá-las. A reserva de emergência, caso tenha, também pode ser utilizada.

Para o consultor financeiro Adriano Gomes, professor de finanças da ESPM e sócio-diretor da Méthode Consultoria, em última instância, caso não ocorra sucesso na renegociação com os credores, deve-se buscar medidas judiciais.

"O consumidor ou o tomador de um crédito são considerados o elo mais fraco do processo. Em uma eventual discussão no âmbito da Justiça, isso é levado em conta pelo juiz ao julgar. Ou seja, a parte mais forte não pode impor, por exemplo, regras abusivas que, muitas vezes, pego em despreparo ou desespero, o tomador aceita para tentar driblar um problema", declarou.

Medidas ajudam o orçamento

Em São Paulo, algumas medidas favoreceram o orçamento doméstico temporariamente, o que representa um alívio nas contas dos meses em quarentena. Eliane Tanabe cita exemplos:

  • Energia elétrica: Isenção para consumidor de baixa renda pelo prazo de 90 dias com consumo abaixo de 220 kWh.
  • Água: Isenção para todos os clientes cadastrados na tarifa residencial social e residencial favela, independente da data de concessão do benefício para as contas emitidas no período de 1º de abril a 30 de junho de 2020, automaticamente.

Gomes diz que há despesas que podem ser eliminadas, prorrogadas ou renegociadas. "O problema é que lá na frente as dívidas prorrogadas deverão ser pagas, com os incidentes do período. Por isso é importante fazer esse cálculo e prever o fluxo de caixa."

A inadimplência pode gerar problemas quando a crise passar, como a negativação do nome e impossibilidade de obter acesso a linhas de crédito no futuro. "As famílias devem priorizar o ajuste orçamentário, cortando tudo aquilo que for supérfluo neste momento, e tentar negociar ao máximo os compromissos financeiros assumidos antes da crise", afirmou Luciana.

Para quem paga aluguel, alguns locatários estão concedendo descontos. "O importante é procurá-los para negociar. Essa sugestão vale também para pequenos empresários e autônomos", disse Luciana.

Vale a pena parar de pagar a previdência privada?

Ana Rita Petraroli, sócia-fundadora do Petraroli Advogados e especialista em previdência privada, afirma que quem tem um plano de previdência privada precisa ser prudente, já que esse é um investimento pensado para longo prazo. "A recomendação é manter o foco no planejamento feito para o futuro e procurar manter os pagamentos."

Caso a pessoa tenha dívidas, é possível fazer um resgate parcial ou total do valor aplicado. "Mas é preciso analisar se isso é imprescindível agora, pois outras medidas podem ser tomadas para reduzir gastos, sem precisar mexer no valor já contribuído."

Ela diz, no entanto, que é preciso ficar atento ao valor de Imposto de Renda a ser pago, no momento do resgate, pois isso varia de um plano para outro (VGBL e PGBL) e de um regime tributário para outro (regime compensável e regime regressivo).

Uma alternativa é fazer a portabilidade do plano para uma operadora com tarifas mais baixas e melhor performance nos fundos. "Mas atenção: a transferência de reserva pode ser realizada somente entre planos com a mesma característica e de uma tabela regressiva para uma progressiva, não o contrário; de um PGBL para outro PGBL; e de um VGBL para outro VGBL. Nesse caso, um profissional da própria operadora pode auxiliar e esclarecer as dúvidas sobre essas informações mais técnicas", disse.

Outra possibilidade é reduzir o aporte mensal ou, em casos mais extremos, suspender a contribuição e retomar quando for viável. "Isso é melhor do que fazer um resgate, pois a aplicação continua rendendo, mesmo durante o período em que a contribuição periódica estiver suspensa."

Onde cortar gastos?

Para Gomes, o corte de gastos deve ser personalizado. "O que é supérfluo para um pode ser essencial para outro. Não há uma regra geral, que pode ser aplicada indistintamente. Na verdade, a única regra geral é que o ato de rever despesas deve ser incorporado às boas práticas de gestão dos lares", declarou.

É preciso tomar muito cuidado com os pagamentos recorrentes que são pagos mensalmente, como assinaturas (revistas, jornais etc), serviços de streaming e academia, entre outros. "Apesar de parecerem pequenos, quando somados, podem representar um nível elevado de comprometimento do orçamento. Analise este tipo de serviço e cancele imediatamente os contratos", afirmou Luciana.

Eliane Tanabe diz que, para reduzir as preocupações e a ansiedade, vale analisar item a item dos gastos que podem ser adiados. "As emoções também podem levar as pessoas ao consumo por impulso nas compras online. São pontos de atenção, pois nesse momento de crise global, todo rigor na vida financeira é de grande relevância."

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