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Fundo pode perder seu dinheiro por emprestar a empresa em crise; que fazer?

João José Oliveira

do UOL, em São Paulo

14/05/2020 04h00Atualizada em 23/07/2020 15h36

Resumo da notícia

  • Crise atinge fundos que aplicam em debêntures e outros títulos de empresas privadas
  • Regras diferentes em fundos de crédito privado podem esconder perdas de cotas
  • Profissionais de mercado mostram como checar se você está perdendo nos fundos de crédito privado

A pandemia do novo coronavírus provocou uma onda de saques nos fundos de investimento, com pessoas assustadas com as perdas da cota, ou que ficaram sem renda e tiveram que fazer caixa para os compromissos do dia a dia. Esse movimento atingiu as carteiras de renda fixa de crédito privado, que aplicam em títulos de empresas, como debêntures, notas promissórias, LCIs e CDBs, provocando rendimentos negativos de vários produtos.

E quando o cotista de um fundo pede para resgatar dinheiro, o gestor tem que ir a mercado vender parte dos ativos que estão nessa carteira para fazer caixa. Quando muita gente do mercado faz isso ao mesmo tempo, aquele ativo acaba se desvalorizando. E, conforme regra de mercado, o administrador do fundo tem que atualizar os valores dos ativos que estão na carteira pelo preço corrente - é a chamada marcação a mercado.

Para se ter uma ideia, dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) mostram que os fundos de renda fixa crédito livre - que aplicam em títulos de empresas - perderam R$ 19 bilhões este ano em saques líquidos.

Veja esses números abaixo:

No caso de um fundo de renda fixa que tem títulos do governo, essa atualização é bem transparente porque existe um volume gigantesco de negócios com os títulos do governo e os preços de cada papel são conhecidos - basta entrar no site do Tesouro Direto e ver.

Marcação a mercado mais difícil

Mas quando um fundo tem títulos privados, como debêntures, a história é diferente. Primeiro, porque a quantidade de negócios no mercado é bem menor que o volume de transações com títulos do Tesouro. E isso já dificulta a atualização dos valores das cotas nos fundos de crédito privado.

No caso das debêntures, o mercado segue regras da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) para a maior parte desse tipo de ativo. O problema é que a marcação a mercado não é feita diariamente. No caso de outros títulos, como as notas promissórias ou LCIs, não existe regra geral para todos - e cada gestor faz a marcação a mercado do seu jeito.

Por isso, é difícil comparar o desempenho dos fundos de renda fixa que aplicam em crédito privado, afirma Helio Pio, sócio-diretor comercial da Devant Asset, uma gestora de recursos especializada em crédito privado. "Alguns fundos estão apresentando uma performance inferior a outros, mas não significa que os ativos dessa carteira sejam piores", diz.

Susto na hora de sacar

Os gestores dizem que o investidor só tem a perda na aplicação se sacar o dinheiro antes do vencimento do papel. Por exemplo: se um fundo tem uma debênture que vence em 2022, o rendimento pago por ele será o combinado no dia da aplicação, mesmo que durante o correr do período o valor desse ativo varie no mercado secundário. Por isso, quanto mais tempo a pessoa deixar o dinheiro aplicado, melhor.

Mas o mais comum é o investidor precisar sacar o dinheiro quando nem todos os títulos chegaram ao vencimento - até porque cada fundo tem dezenas de papéis com prazos diferentes.

Além disso, destaca Alejandro Schiuma, sócio responsável pela área de crédito privado da Mauá Capital, existe um descasamento entre os prazos desses tipos de ativos, com vencimentos acima de um ano, e as regras de muitos fundos, que permitem ao aplicador sacar o dinheiro após apenas um mês de aplicação, por exemplo.

Se um gestor não faz a marcação a mercado, quando o aplicador for sacar o dinheiro pode ser que o preço obtido seja bem menor do que o que estava aparecendo na cota. Conforme explica Pierre Jadoul, gestor de crédito privado da empresa de investimentos ARX, o cotista do fundo poderá ter uma rentabilidade bem menor quando for sacar.

Risco de calote

Além da marcação a mercado, outro problema que pode afetar os fundos de renda fixa crédito privado é que empresas estão ficando com menos caixa porque estão vendendo menos em meio à pandemia. Se a crise continuar, algumas companhias poderão ter dificuldades para honrar pagamentos - incluindo os fundos que compraram debêntures ou notas promissórias.

Para o fundador e CEO da gestora de recursos Valora Investimentos, Daniel Pegorini, medidas como renegociação de crédito nos bancos e liberação de recursos por parte do governo podem diminuir esse risco. Mas ainda assim, diz, haverá casos pontuais de calote, especialmente entre empresas de setores mais atingidos pela crise, como turismo, vestuário e transportes.

O que fazer

De qualquer forma, profissionais de mercado dizem que o mais prudente é checar quais são os títulos de empresas que estão na carteira. Afinal, alguns setores da economia estão sofrendo mais que outros.

Outra recomendação é checar o percentual que o gestor tem em caixa. Todos os fundos de investimento têm um percentual da carteira que é aplicado em título do governo ou caixa mesmo, exatamente para fazer frente a resgates.

Quanto mais conservador um fundo, mais dinheiro o gestor deve deixar separado para atender clientes que peçam para sacar dinheiro sem realizar perdas. Se começar a perceber que o caixa caiu, enquanto a fatia de (títulos de) crédito cresceu, é sinal de que a parte do fundo que representa mais risco cresceu,
Helio Pio, da Devant Asset.

Segundo Pio, o investidor deve comparar a lâmina de março do fundo (relatório que o gestor divulga) com os dados de dezembro e de setembro de 2019 para avaliar isso.

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