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Todo mundo pode ser milionário em 20 anos, diz CEO de corretora

Tito Gusmão, CEO da Warren: brasileiros precisam fugir de quem promete rentabilidade - Divulgação
Tito Gusmão, CEO da Warren: brasileiros precisam fugir de quem promete rentabilidade Imagem: Divulgação
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Camila Mendonça

Do UOL, em São Paulo

27/03/2021 04h00

Já faz tempo que Tito Gusmão recebeu a ligação de um cliente da corretora onde trabalhava: ele queria ajuda para voltar para casa e contar para a esposa que havia perdido todo o dinheiro que tinha na corretora e os dois cafés dos quais era dono. A história marcou o analista e mostrou, na prática, o que ele já sabia: o brasileiro não pensa no longo prazo, acredita em operações financeiras milagrosas e perde dinheiro com isso.

Depois de oito anos na XP Investimentos, Gusmão fundou a Warren, em 2014. Hoje, a corretora tem 200 mil clientes e em torno de R$ 5 bilhões sob custódia. A empresa recebeu R$ 120 milhões de aporte ano passado e deve receber ainda mais investimentos, afirmou Gusmão ao UOL. Nos planos, também há a intenção de fazer aquisições.

Em entrevista, Gusmão contou como avalia os investimentos em renda fixa e variável, falou sobre o comportamento dos investidores iniciantes e mostrou que é possível ficar milionário em 20 anos. "Não tem milagre", afirma. Confira a entrevista abaixo.

A Bolsa registrou número recorde de IPOs e de novos investidores em 2020. Como você avalia esse momento do mercado?
Esse é o reflexo da taxa de juros baixa e por mais que ela suba, vai continuar muito baixa. Há cinco anos, com taxa de juros a 14% ao ano, você podia deixar o seu dinheiro parado em um CBD ou um título, que ele renderia, mas hoje ele não rende mais. Esse dinheiro todo que está investido em produtos ruins agora está migrando para melhores soluções. O investidor precisa procurar novas alternativas. Ele está saindo de produtos "meia-boca" dos bancos e indo para a Bolsa. Isso oxigena o mercado como um todo. Então é um ciclo positivo que tem como pilar fundamental a taxa de juros baixa.

Com esse início de ciclo de alta da taxa básica de juros, você acredita em uma migração de pequenos investidores saindo da incerteza da Bolsa para voltar para a renda fixa?
Não, porque mesmo a taxa de juros chegando a 4%, 4,5% ao ano, ela ainda está baixa e há a necessidade de quem quer rentabilizar o patrimônio e diversificar melhor. Estamos em um momento difícil, mas a poupança tem mais de R$ 1 trilhão em investimentos. Já existe um dinheiro que está empacado em produtos ruins. Minha tese é que entramos em um patamar de juros saudáveis, porque 14% não é saudável para ninguém, nem para a economia, nem para a dívida do Brasil. Mesmo que a gente tenha uns ajustes na taxa, é normal ver oscilações de mercado, mas não é isso que vai fazer com que o brasileiro mude. Vai continuar acontecendo o oposto: esse R$ 1 trilhão da poupança vai procurar melhores retornos.

Em meio a uma crise sanitária, com boa parte da população dependendo de auxílio emergencial para viver, é possível acreditar que o mercado terá novos e mais investidores neste ano?
Eles deveriam entrar. Foi exatamente o que eu falei quando a gente teve os circuit breakers ano passado e a Bolsa caiu a 60 mil pontos. Aquele era o melhor momento do mundo para investir, o momento em que todo mundo está desesperado e achando que o mundo vai acabar. O mundo não vai acabar. Estamos passando por uma crise séria, com o governo batendo cabeça com a questão da vacina. Teremos mais um ano difícil, mas quando você investe em empresas, você não está investindo para 2021 ou 2022. Você vai investir para os próximos cinco, 10, 15, 20 anos. O resultado de um ou dois anos, em 20 anos, sai na urina e pouco importa. O que o brasileiro tem que aprender é não ter pensamento de curto prazo. Ele precisa parar de olhar o patrimônio em reais. Se você investiu R$ 100 mil, o que você comprou com isso? Eu comprei 10 mil ações ou 10 mil cotas de fundos. Se cair a ação no dia seguinte, você continua com as 10 mil ações. Se você tiver ainda mais dinheiro para o longo prazo, compra mais, porque assim você vai aumentar ainda mais a quantidade de ações que tem ou de cotas de fundos de investimentos. Quando você pensa assim, passa a torcer para que a Bolsa caia. É assim que os bilionários investem. Tem a velha frase do Warren Buffet que é: "compre ao som dos canhões".

O brasileiro não pensa no longo prazo. O que pode ajudá-lo a virar essa chave?
A gente é muito imediatista e olhamos para o dinheiro com uma relação mais emocional do que racional. Estou deprimido, então vou comprar alguma coisa. Isso é uma realização de curto prazo. Planejar 20 anos é chato. Mas é esse longo prazo que é importante. Pensar em 20 anos é colocar um tijolo de cada vez. Quando você começa a investir, no primeiro mês é muito pouco, no segundo também, mas quando você começa a dar um zoom, você já construiu um muro. Em algum momento o juro sobre o valor que você investe já é maior que o esforço mensal. O início é chato porque parece que não faz diferença alguma. O segredo para você acumular patrimônio e ser milionário é tempo, valor e onde você investe. Às vezes é mais importante a disciplina de investir mensalmente do que colocar um caminhão de dinheiro de uma vez. Se você investir R$ 20 mil de uma vez só, com um retorno de 8% ao ano, que seria um mix de ações e renda fixa, por 25 anos, você vai ter perto de R$ 150 mil. Se você investir R$ 500 todos os meses, por 25 anos, no mesmo portfólio, você vai ter próximo de R$ 500 mil. Então, todo mundo pode ser milionário em 20, 25 anos, dependendo de quanto aplica e de onde aplica.

O único caminho para conseguir investimentos com bons retornos no Brasil no curto e longo prazo é a Bolsa?
Não, o caminho é o mix da renda variável e da renda fixa. A Bolsa não é, nunca foi e nunca deve ser para competir com o curto prazo. Pode ser que dê certo, mas a regra da Bolsa é virar sócio de boas empresas e boas empresas no longo prazo entregam resultado. No curto prazo, pode ser que elas passem por momentos ruins, mas esses momentos ruins se dissipam no longo prazo. Curtíssimo prazo é pós-fixado, CDB de banco médio e Tesouro Selic. Para médio prazo, existem boas oportunidades de crédito privado. Não tem milagre.

Você comentou em alguns momentos ano passado que a renda fixa voltaria. Estamos vivendo esse retorno agora?
A renda fixa não morreu e vai renascer das cinzas como uma fênix. Se você olha para o mercado americano, onde a taxa de juros é praticamente zero há muito tempo, o mercado de renda fixa é maior que o mercado de ações. O que vai acontecer é que o brasileiro vai acessar cada vez mais bons produtos de renda fixa e melhores produtos de crédito privado. O mercado vai se sofisticar cada vez mais.

Quais são as pegadinhas que os investidores iniciantes insistem em cair, na sua avaliação?
Serem iludidos nas promessas de "transforme R$ 100 reais em R$ 1 milhão em uma semana". Eu sei que essa mensagem é muito mais sexy do que ficar rico no longo prazo, mas sinto muito. As pessoas eventualmente caem nessa ilusão por desespero ou ganância. Não caia nessas ofertas: 100% das pessoas que te prometem rendimento são picaretas. Você vai perder dinheiro. Ter pensamentos de curto prazo na hora de investir é outro erro.

Por que as pessoas ainda acreditam que é preciso muito dinheiro para investir?
O problema não é nem de investimentos. A gente tem uma cultura de novela no Brasil, em que o herói vive um dia após o outro, vive de bico e o vilão é o bem-sucedido. Temos no inconsciente que ser bem-sucedido é ruim. A explicação matemática é que sempre fomos o país da taxa de juros exorbitante e da inflação exorbitante. Então, esquece planejamento. Temos uma história recente de instabilidade de moeda e de como lidar com o dinheiro. A gente tem uma memória curta para pensar em planejamento. Você não precisa ser rico ou ter um patrimônio gigante agora para começar a investir. Quer ser milionário? Organize as contas de casa e faz sobrar pelo menos 10% do que você ganha. Investindo em bons produtos, você pode ficar milionário no longo prazo, mas não pode ficar postergando essa decisão.

O que falta para que o Brasil de fato cresça?
Vacinação e ajuste fiscal [contas públicas]. A gente precisa desinchar a máquina, precisa gastar menos e colocar as políticas que o próprio Paulo Guedes [ministro da Economia] prometeu e ainda não pegou, como desestatizar. Precisamos ser mais eficientes. Estamos vivendo um momento atípico, sou apartidário e todo esse extremismo não nos leva a lugar algum. Estamos tentando jogar o final do campeonato, mas o vestiário segue brigando. Desse jeito, claro que vamos perder o jogo. A gente precisa ter a vacinação em massa para virar a página e para a economia destravar.

Se você tivesse começando a investir hoje, o que faria?
Todo investidor precisa ter pelo menos duas caixinhas: a de curto prazo e a longo prazo. O longo prazo exige disciplina, um tijolinho de cada vez. Você precisa evitar investir em passivos. Brasileiro trabalha e junta uma grana por cinco anos para pagar o casamento ou comprar um carro - isso é passivo. Coloque o teu dinheiro em ativos e coisas que vão render mais dinheiro. Essas duas caixinhas precisam estar com bons produtos. Para a caixinha de curto prazo, entenda: é o que a renda fixa está pagando mesmo e é para emergência e não para rentabilizar.

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.

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