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Por falta de emprego formal e estudo, eles trabalham há 20 anos na rua

Gabriela Fujita

Do UOL, em São Paulo

  • Simon Plestenjak/UOL

    Raimundo Francisco Santos Paulo, o Maguila, em um dos semáforos em São Paulo

    Raimundo Francisco Santos Paulo, o Maguila, em um dos semáforos em São Paulo

Quem passa por eles na rua talvez não imagine há quanto tempo estão ali. São 12 horas por dia na atividade que virou uma profissão: a de vendedor ambulante. Seis dias por semana, eles vêm ao semáforo de um cruzamento no Jardim América, em São Paulo, bairro de classe alta. Já são conhecidos de muitos motoristas, dos vizinhos, e é nas calçadas e entre os carros que eles fizeram carreira.

Faltou, para eles, a chance de estudar. Sobrou a responsabilidade de ajudar, desde a infância, os pais a sustentar os irmãos. Três "profissionais do semáforo" contam à reportagem do UOL que encontraram na rua a solução para o desemprego.

Um dos mais antigos no ponto é o Maguila, apelido do baiano Raimundo Francisco Santos Paulo, 56. "Só nesse pedaço aqui, nesse quarteirão da rua, eu tenho 25 anos", ele diz.

Garrafa de água mineral e refrigerante em lata, tudo geladinho, e também acessórios para celular é o que ele oferece aos clientes. A venda deve ser feita em 1 minuto e 30 segundos, intervalo durante o qual os veículos ficam parados. A espera para a próxima venda é de 25 segundos de sinal aberto. E já não tem mais espaço para outros vendedores, além dos sete que estão no local.

"Ainda tem mais duas meninas entregando jornal. Nesse farol aqui, a gente trabalhava em três ou quatro pessoas. Já está o dobro", ele afirma.

Simon Plestenjak/UOL
Rapaz faz demonstração com esferas de metal antes de "passar o chapéu"

De acordo com a Prefeitura de São Paulo, o número de licenças para ambulantes formais não é ampliado desde 2011: são 2.460. A emissão de TPUs (Termo de Permissão de Uso) está suspensa desde então. A prefeitura não estima quantos ambulantes trabalham sem licença na cidade.

"Em São Paulo, o campo está invadido [de vendedores]. De três anos para cá, a coisa ficou feia. Não melhorou, não. A gente vende menos porque o país está quebrado, ninguém tem dinheiro. Eu cheguei a vender água a R$ 3 aqui, ou duas por R$ 5. Agora, ninguém paga mais do que R$ 2", Maguila conta.

O rico tem dinheiro, mas está com medo de a coisa apertar lá na frente. Se o rico não solta o dinheiro, como é que o pobre vai ter?

Raimundo Francisco Santos Paulo, vendedor ambulante

Desemprego subiu em relação ao mesmo período do ano passado

Pelos dados mais recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o desemprego no Brasil ficou em 12,6%, em média, no trimestre junho-agosto. A taxa caiu em relação ao trimestre anterior (13,3%), mas subiu na comparação com igual período em 2016 (11,8%).

O número de desempregados no país de junho a agosto foi de 13,1 milhões de pessoas, o que representa uma melhora em relação ao trimestre anterior (13,8 milhões). Na comparação com igual período em 2016, porém, são 1,1 milhão a mais de pessoas sem emprego, um aumento de 9,1%.

Para o economista e pesquisador Márcio Pochmann, os números estão de acordo com uma situação conjuntural cíclica, que prevê redução da taxa de desemprego no segundo semestre. O ciclo de produção nacional geralmente tem movimento maior de contratações temporárias para as atividades de fim de ano, reposição de estoques no setor produtivo e mais compras por parte dos consumidores.

"Alguns analistas têm visto sinais de recuperação. Para mim, isso ainda não é muito claro", diz Pochmann, "embora o mercado de trabalho não esteja tão ruim como esteve no ano passado".

Se verifica, na verdade, uma elevação do nível de ocupação muito mais por estratégia de sobrevivência do que por uma demanda favorável das atividades econômicas em geral

Márcio Pochmann, economista

Segundo o IBGE, o aumento da informalidade foi o fator responsável pela queda na taxa de desemprego entre junho e agosto. Em relação ao mesmo trimestre de 2016, foram menos 800 mil postos de trabalho com carteira assinada.

"Como o IBGE utiliza como referência na medida do desemprego as pessoas que procuram trabalho na semana e que exercem alguma jornada superior a duas horas semanais, se a pessoa está na rua vendendo bala, lavando carro e isso ocupa mais de duas horas na semana, ela passa a ser considerada ocupada", afirma o pesquisador. "Isso não é necessariamente um sinal de que o mercado de trabalho está pujante, porque as pessoas estão tentando gerar alguma renda", avalia.

Simon Plestenjak/UOL
Maguila leva na roupa os acessórios que vende no semáforo

"Estudava ou trabalhava, um dos dois"

Filho de um casal com nove crianças, desde cedo Maguila teve a responsabilidade de ajudar os pais. Quando tinha seis anos de idade, a família se mudou da Bahia para São Paulo. Ele estudou dois anos, parou na terceira série e nunca mais voltou para a escola.

"A gente era em família grande, tudo pequeno. Eu sou o mais velho de casa, era quem ajudava meu pai e minha mãe, então eu não tinha condições de estudar. Estudava ou trabalhava, um dos dois", ele conta. "Quem mora em periferia ganha muito pouco. Minha mãe não tinha estudo, só meu pai trabalhava, era carpinteiro."

Nessa trajetória de vida, ele teve alguns empregos formais, num total de dez anos, mas já trabalhou mais na rua do que com carteira assinada: na feira, fazendo carreto, vendendo rosas até mesmo quando estava contratado, para completar a renda.

Meu último emprego com carteira assinada foi em 1983, quando eu trabalhei em uma ótica

Raimundo Francisco Santos Paulo, vendedor ambulante

Maguila mora com a mulher no Jardim Ângela (extremo da zona sul de São Paulo), a 20 km do ponto onde é ambulante, em um imóvel que ela obteve num programa de moradia popular. Ela tem experiência de 28 anos na área de limpeza, mas desenvolveu um problema de coluna e há um ano e meio não consegue trabalhar.

De vez em quando, ele faz um bico de jardinagem nas mansões do Jardim América, mas a renda vem mesmo é do semáforo. "Se eu pudesse, teria outro trabalho, mas eu nem procuro mais emprego, porque não adianta. Não tenho estudo, não tenho profissão. Tenho que ser meu patrão mesmo, trabalhar na rua. Levantar cedo, arregaçar a manga da camisa e ir pra luta."

O vendedor não gosta de falar muito sobre maus-tratos que ocorrem por parte dos motoristas, mas diz que há quem feche o vidro na cara, que responda com arrogância: "Isso aí a gente tira de letra. Um camelô de rua tem que superar tudo isso".

A marmita que ele traz de casa é esquentada em cima de uma bandeja com água, apoiada em latas de sardinha usadas. Coloca-se álcool dentro das latinhas e acende-se o líquido para fazer a água ferver, em algum canto de calçada.

O banheiro, quando necessário, é o da padaria ou do posto de combustíveis ali próximo.

As mercadorias são armazenadas em um tipo de depósito, a 1 km, e são trazidas a pé, dentro do isopor com gelo, em um carrinho.

"Tem gente que me fala: 'Você poderia arrumar um serviço, hein'. Mas vê se essa pessoa quer arrumar um serviço para mim? Quer nada! Quer que você fique lascado na beira da sarjeta. Muitos são assim", critica a falta de simpatia pelo seu ganha-pão.

Simon Plestenjak/UOL
Rubens da Silva usa um pedaço de pano para proteger o pescoço do peso do mostruário

"Nunca tive um trabalho fora da rua"

O paulistano Rubens Neves da Silva, 42, trabalha no mesmo semáforo que Maguila faz mais de 20 anos. Começou na infância, aos 7, na alameda Casa Branca, no vizinho Jardim Paulista, de classe média alta.

"Sempre vendi biju [biscoito doce], carregador de celular, prendedor de cinto de segurança, e hoje tenho spinners [brinquedo], os cavalinhos [bonecos personagens do 'Fantástico'], tento me virar conforme as coisas vão andando."

A preocupação dele é com o bem-estar das três filhas: "Vitória Luísa, Estela Maria e Alice Cristina. Minha mulher está desempregada, sou eu que sustento a casa".

Com pouco estudo, cursado apenas até a terceira série, ele vem de família pobre e foi criado na Capela do Socorro (zona sul de São Paulo).

Meu pai teve oito filhos, a gente teve que ralar. Virei homem através do trabalho na rua

Rubens Neves da Silva, vendedor ambulante

Rubens nunca teve emprego formal, mas há dez anos começou a pagar a taxa do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

"Nunca tive um trabalho fora da rua, nunca fui registrado, pago meu INSS por fora. Deus me livre se um carro me atropela e eu morro, minhas filhas têm um seguro para receber", afirma.

Simon Plestenjak/UOL
Rubens mostra o almoço trazido de casa: a marmita é aquecida na rua mesmo

"Uma mulher me perguntou: 'E aí, você cheirou?'"

Morador do Campo Limpo (zona sul), a 15 km do semáforo, ele fala sobre as "humilhações" que já enfrentou. Uma motorista deu a entender que ele tinha usado drogas porque achou o produto caro, ele conta.

"Com todo o respeito, tem muitas pessoas 'filha da puta', tem bastante", ele reage. "Uma vez uma mulher me perguntou: 'E aí, você cheirou, você fumou?'. E eu falei: 'Mas por quê?' E ela: 'Está pedindo R$ 3 no biju'."

Ele também já ouviu reclamações por fazer vendas na calçada e entre os carros.

"Uma mulher, com placa de Brasília, baixou o vidro e me falou: 'Essa calçada aqui é minha'. E eu disse: 'Eu pago imposto também'. Tudo o que a gente compra, gás, [farinha de] trigo, tudo é caro. Ela se achou no direito, por ser uma mulher rica, me falou um monte e achou que eu ficar calado. Eu falei para ela a verdade."

A gente precisa engolir sapo. Eles acham que têm o poder de fazer isso, é a reação deles

Rubens Neves da Silva, vendedor ambulante

"É um trabalho muito discriminado"

Só no Jardim América, o paulistano Marcos Alves, 55, já está faz 15 anos. Ele é mais um de muitos que começaram a trabalhar na rua ainda na infância para ajudar em casa, onde moravam os pais e oito filhos.

Simon Plestenjak/UOL
Marcos Alves, vendedor ambulante no Jardim América, em São Paulo

Marcos estudou até a quinta série e passou cerca de 20 anos fora da rua, como cozinheiro de restaurante, mas acabou voltando para o semáforo. Com salário baixo na cozinha, ele diz que não teve oportunidade de se formar, de se especializar, e foi ficando mais difícil conseguir outro tipo de emprego.

Na rua, pago as contas com dificuldade, mas consigo, tem que trabalhar bastante

Marcos Alves, vendedor ambulante

Casado duas vezes, hoje ele mora no Jardim Catanduva (zona sul de São Paulo), a 15 km de onde trabalha. Os dois filhos, do primeiro relacionamento, estão bem, ele diz.

"Meu filho tem 24 anos, é terceiro sargento do Exército, mora com a mãe. Minha filha tem 25 anos, é publicitária, pagou a faculdade com o suor dela e é casada", ele fala com orgulho.

A atual mulher tem emprego formal de vendedora, mas recebe menos do que ele. Mas o trabalho na rua não é para gente jovem, ele avisa.

Simon Plestenjak/UOL
Marcos trabalhou por 20 anos como cozinheiro, mas precisou voltar para a rua

"Quando eu falo que não é um trabalho para jovem, é porque não é um trabalho muito chegado na sociedade. É muito discriminado", critica. "Muitas vezes, as pessoas acham que o vendedor é o 'cobaia' [a isca] de pessoas que roubam no trânsito. Já presenciei cenas de assalto sem poder fazer nada, sem poder apontar [o assaltante]."

O vendedor ambulante oferece aos motoristas acessórios para celular, que ele exibe pendurados na roupa, pelo corpo. Diz que nunca foi diretamente desrespeitado, com xingamentos, por exemplo, mas se incomoda quando alguém "finge que não está vendo".

"Quando a pessoa vê você de longe, ela já fecha o vidro. Você oferece [o produto] para ela, e ela nem olha para os lados. Nem fala 'obrigado', nem fala nada. Só isso deixa a gente chateado. Quando as pessoas fingem que não estão te vendo, a gente se sente lá embaixo, se sente humilhado. Mas releva..."

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