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Cade supera barreira do serviço público para modernizar gestão de pessoas

Na sede do Cade, em Brasília, os servidores organizam seus próprios horários - Arquivo/Cade
Na sede do Cade, em Brasília, os servidores organizam seus próprios horários Imagem: Arquivo/Cade

Denyse Godoy

do UOL, em São Paulo

19/03/2021 04h00

O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), órgão ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública responsável por garantir a livre concorrência no país, foi a única empresa de governo a se classificar entre os 100 Lugares Incríveis Para Trabalhar na edição 2020 da premiação realizada pelo UOL junto com a Fundação Instituto de Administração (FIA). Não faltam relatos, nos órgãos da administração pública no Brasil, sobre as condições precárias de trabalho, a falta de transparência nas relações profissionais e a falta de perspectiva. Mas no Cade é diferente: com um sistema de comunicação eficaz e os benefícios adequados, consegue superar muitas organizações privadas em satisfação dos colaboradores.

O sistema de contratação de servidores é, em boa parte, a razão pela qual o Cade se esforça para em proporcionar um ambiente saudável e produtivo. Enquanto geralmente cada órgão público realiza o seu concurso e cria carreiras específicas para o funcionalismo, o órgão de defesa da concorrência não tem colaboradores próprios. Periodicamente, abre apenas para profissionais que já atuam no governo federal um processo de seleção de acordo com as necessidades dos projetos em andamento. Os interessados precisam mandar o seu currículo e passam por entrevistas com os gestores. Para conseguir atrair e reter talentos, o Cade precisa oferecer vantagens - e uma das principais é o ambiente de trabalho.

"Quem deixaria o seu departamento para trabalhar em outro igual, com as mesmas condições? Se o Cade quer ter em seus quadros os profissionais mais competentes, precisa ser o melhor lugar, precisa ser incrível", diz Cristina Portela, coordenadora de gestão de pessoas do órgão.

Cuidar do clima organizacional é difícil em empresas privadas e mais ainda no setor público, por causa das regras rígidas de administração. O Cade não pode, por exemplo, contratar um prestador de serviço para implantar novos processos ou sistemas. Tem que desenvolver tudo internamente.

Em janeiro, um desses projetos criados totalmente pelos servidores do Cade entrou em operação. É o novo programa de gestão, que, aproveitando as experiências da pandemia do novo coronavírus, modernizou a gestão de pessoas na empresa.

Uma das mudanças diz respeito à organização da jornada e à medição de desempenho. Antes, havia alguns funcionários que trabalhavam de casa, com atuação medida pelos resultados entregues, e os que iam à sede do órgão, em Brasília, batendo ponto. Percebendo que não fazia sentido usar dois sistemas diferentes, o Cade passou a avaliar todos os colaboradores apenas pelos resultados, dando-lhes liberdade para organizar seus horários. É um modelo usado bastante em organizações privadas e quase inexistente no setor público. "O mundo do trabalho nunca mais vai ser o mesmo. Precisamos acompanhar as transformações", diz Portela.

Ao colocar os cerca de 420 funcionários em casa nos últimos meses, o Cade se preocupou com a estrutura do home office de cada colaborador. Como várias companhias privadas fizeram, permitiu que os servidores levassem para casa monitores de computador e cadeiras, organizando a retirada como drive through. Deu ainda um aviso personalizado com o nome de cada funcionário para pendurar na porta fechada da sala ou do quarto da casa nos momentos de reunião.

O órgão precisou também aprimorar a comunicação interna e encontrar maneiras de manter a equipe afinada mesmo sem poder juntar os servidores presencialmente. Fez festa junina e celebração do final de ano - a chamada FestCade - virtuais. No Dia dos Pais, mandou mudas de árvores para as famílias plantarem. "Esses cuidados fazem diferença", diz Portela. "Reunir na mesma organização pessoas de origens e experiências muito diferentes tinha tudo para dar errado. Mas valorizamos o melhor de cada um, trazemos o que falta, e assim cumprimos bem nosso papel para a sociedade."

Ferramenta para os gestores

Conhecer bem os funcionários e compreender as suas necessidades é essencial para construir uma boa política de gestão de pessoas. A participação no ano passado na pesquisa FIA Employee Experience (FEEx), que serve de base para a premiação Lugares Incríveis, ajudou o Cade a aprimorar suas práticas, segundo Portela.

"Aprendemos muito sobre nós mesmos", afirma a coordenadora. "Algumas coisas que imaginávamos pudemos comprovar. Sempre pensamos que o Cade atrai pessoas interessadas em estudar e aprender, e isso ficou claro na pesquisa. Avançando no seu desenvolvimento profissional no órgão, a maior parte das pessoas que sai vai atender um convite para assumir uma posição mais alta na carreira."

Atendendo o anseio dos colaboradores em se desenvolver, o Cade concede, como benefício, bolsas de ensino para cursos de pós-graduação, especialização e idiomas - qualquer língua que o colaborador queira aprender.

Por outro lado, na pesquisa também ficou clara a necessidade de disseminar mais a importância do feedback. "Fizemos um treinamento em comunicação não-violenta, e, pelo sucesso, vamos abrir uma segunda turma. Não basta a liderança saber dar feedback - o liderado precisa saber receber", diz Portela.

Para a servidora, a empresa que participa da pesquisa também precisa saber como usar as informações que recebe no final. "A pesquisa não serve apenas para buscar o prêmio. Estamos trabalhando com os resultados que recebemos para entender quais são os nossos desafios", afirma a coordenadora. "Só de preencher os questionários temos muitos insights."

Ao implementar inovações na gestão, o Cade espera também inspirar outros órgãos públicos. "Cumprimos a lei com muito rigor, mas queremos mostrar que não é preciso olhar só para as amarras, dá para enxergar as possibilidades", afirma Portela. "Fortalecer a cultura organizacional ajuda a dar continuidade às boas práticas mesmo com as mudanças periódicas de gestão no setor público."


O Prêmio Lugares Incríveis Para Trabalhar é uma iniciativa do UOL e da FIA para reconhecer as empresas que têm as melhores práticas em gestão de pessoas. Os vencedores são definidos a partir da pesquisa FIA Employee Experience (FEEx), que mede a qualidade do ambiente de trabalho, a solidez da cultura organizacional, o estilo de atuação da liderança e a satisfação com os serviços de RH. As inscrições para a edição 2021 estão abertas e vão até 15 de junho.