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Mercado ama Lula 1, desconfia de Lula 2 e odeia Dilma, dizem economistas

Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, que governaram o Brasil entre 2003 e 2016 - Reprodução
Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, que governaram o Brasil entre 2003 e 2016 Imagem: Reprodução

João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

20/03/2021 04h00

Resumo da notícia

  • É verdade que o mercado tem medo da volta do PT ao poder? Veja o que dizem economistas de universidades
  • Mercado prefere programas do governo Lula no 1º mandato, que adotou políticas econômicas do antecessor FHC, avaliam especialistas
  • Descuido com gastos públicos é o que mais preocupa mercado e ficaram evidentes nos mandatos de Dilma, segundo economista

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a ocupar a atenção dos mercados depois que o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Edson Fachin anulou condenações julgadas na 13ª Vara Federal de Curitiba e enviou todos os processos à Justiça Federal no Distrito Federal. Depois de uma reação negativa de investidores no primeiro momento, Bolsa e real reagiram na sequência. Afinal, considerando apenas os indicadores da economia, o mercado tem ou não motivos para temer a volta de um governo do PT?

Segundo economistas de diferentes formações ouvidos pelo UOL, o mercado tem motivos para gostar dos governos do PT assim como razões para ficar desconfortável com essa possibilidade. Tudo vai depender de qual versão do Partido dos Trabalhadores entraria em cena em 2023.

Antes de responder se o mercado tem ou não razão para ter reservas com relação a Lula, é preciso ver sobre qual governo do PT estamos falando. Porque o primeiro governo Lula foi uma continuidade do governo FHC, e esse foi um dos motivos que levaram aos bons resultados da economia. Agora, se for um governo como o que vimos a partir da segunda metade do mandato de Lula e durante o governo Dilma, mais populista, com irresponsabilidade fiscal e a criatividade contábil, então imagino que seja disso que o mercado tenha receio.
Ulisses Ruiz de Gamboa, professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica

A economia nos anos do PT: Veja abaixo seis indicadores que mostram o desempenho econômico do Brasil entre 2003 e 2020.

Lula 1 (2003/06) manteve políticas de FHC

Antes mesmo de assumir, o então presidente eleito Lula assumiu o compromisso de manter o tripé da política econômica que tinha sido construída nos oito anos de governo do PSDB de FHC: metas de inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal.

O Banco Central comandado pelo ex-banqueiro e deputado federal eleito pelo PSDB em Goiás, Henrique Meirelles, assumiu o compromisso de domar a inflação, mesmo com juros mais altos, e deixando o dólar flutuar. Os gastos públicos foram controlados, o PIB (Produto Interno Bruto) cresceu cerca de 3,5% em média ao ano, enquanto a inflação caiu de 9,3%, em 2003, para 3,14%, em 2006. Nos mercados financeiros, a Bolsa subiu 447% entre 2003 e 2006.

Lula 2 (2007/10) aumenta investimento público e enfrenta crise global

O começo do segundo mandato do presidente Lula surfa na onda internacional favorável. As commodities se valorizam graças às compras cada vez maiores da China, destacam economistas. O Brasil vende mais, com melhores preços, itens como minério de ferro e soja. Entram mais dólares no país.

Com esse capital, o governo consegue ampliar investimentos em programas de transferência de renda -via aumento do salário mínimo e dos programas sociais, por exemplo- e infraestrutura, caso do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O PIB cresce sem provocar inflação, a renda da população melhora e a pobreza diminui.

Mas no fim de 2008 vem a crise financeira global provocada pela quebra do mercado imobiliário dos Estados Unidos. O mundo entra em recessão. Para responder à crise, o governo mantém investimentos públicos.

Entre medidas adotadas pelo governo Lula que tiveram aprovação do mercado, economistas lembram que em 2009 e 2010 houve redução dos depósitos compulsórios dos bancos, corte da taxa básica de juros, criação de linhas especiais de empréstimos das reservas internacionais, expansão do crédito direcionado via BNDES, desonerações tributárias temporárias e aumento do investimento público, sobretudo em habitação, com o programa Minha Casa Minha Vida.

Mas, passados os efeitos mais agudos da crise, em 2011, o governo voltou a controlar os gastos públicos para evitar o crescimento da dívida pública em relação ao PIB. Também corrigiu a política monetária, diminuindo parte dos estímulos com crédito e juros concedidos nos anos anteriores.

Os indicadores econômicos de Lula foram melhores, com mais crescimento econômico, mais investimentos, menor desemprego e inflação controlada. Mas também temos que considerar o contexto, de 2003 a 2007, quando o mundo viveu o boom das commodities e isso favoreceu muito o Brasil. No entanto, vale dizer, o crescimento brasileiro não ocorreria com a mesma dimensão se não fossem as políticas econômicas adotadas domesticamente, na sua maioria corretas. Penso, no entanto, que foi um erro deixar o real se apreciar com tanta intensidade, gerando desindustrialização. Depois, a partir de 2008, o governo Lula soube responder bem à crise subprime norte-americana e seus impactos. De novo corretamente acionou o Estado como efeito contracíclico [medidas de combate] à queda da demanda privada.
Antonio Corrêa de Lacerda, professor-doutor, diretor da FEA-PUC-SP e presidente do Cofecon (Conselho Federal de Economia)

Governos Dilma (2011/16): piora do cenário externo e descontrole de gastos

Segundo economistas, a pior versão do PT para os agentes de mercado é aquela em que Dilma Rousseff governou, quando os gastos públicos saíram de controle. No cenário externo, ainda havia efeitos da crise financeira americana, de um lado, e o início do ciclo de desvalorização das commodities, de outro.

Para tentar manter a economia rodando, o governo passou a intervir ainda mais, com redução de impostos para alguns setores privados e o incremento de investimentos públicos em projetos de infraestrutura, como oss relacionados a megaeventos esportivos (Copa do Mundo 2014 e Jogos Olímpicos Rio 2016).

O PIB perde força, a inflação começa a subir e o desemprego passa a ganhar terreno.

O governo Dilma tentou ajustar a rota a partir de 2015, com corte de gastos e aumento de juros, por exemplo. Mas, no meio da tentativa, os preços das commodities recuam ainda mais no exterior e, no ambiente doméstico, a Operação Lava Jato afeta investimentos privados e o emprego.

Uma análise objetiva dos números da economia brasileira revela que, diferentemente da percepção geral dos críticos do PT, a perda de qualidade da política econômica não ocorreu após 2006 ou 2009. Os maiores problemas ocorreram entre 2012 e 2014, mas começaram a ser corrigidos a partir de 2015, ainda sob o governo do PT, primeiro com um ajuste recessivo, depois via flexibilização fiscal e propostas de reformas do longo prazo, que é a fase gradualista em que nos encontramos desde 2016.
Nelson Barbosa, professor titular da EESP/FGV e pesquisador do IBRE/FGV, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento no governo Dilma (2014 a 2016)

Qual seria a versão do governo do PT em 2023?

Para economistas ouvidos pelo UOL, o mercado tende a reagir pior se o ex-presidente Lula enviar sinais de que pode adotar políticas mais parecidas com os últimos mandatos do governo do PT. Mas isso vale para qualquer outro candidato.

Não há dúvida em dizer que o mercado tem reservas e preocupações com o retorno de um governo do PT. Os partidos mais à esquerda tendem a ser estatizantes, enquanto a economia moderna prega o liberalismo. Também preocupa ao mercado o loteamento ideológico das instituições e a irresponsabilidade fiscal. Mas também existe o mesmo temor se o atual presidente Bolsonaro for por essa linha. E parece que ele já se empolgou com a percepção de que ganha popularidade com o programa do auxílio emergencial. Otton Nogami, professor de economia do Insper,