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Banco Central fez tudo o que podia ou tem culpa na alta do dólar?

Presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto - ADRIANO MACHADO
Presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto Imagem: ADRIANO MACHADO

João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

23/10/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Alta do dólar é apontada por economistas como maior causa da inflação no Brasil
  • Para alguns analistas, Banco Central poderia ter segurado em parte a valorização do dólar
  • Segundo outros especialistas, o BC está usando os instrumentos na medida certa
  • Vender dólar à vista ou contratos financeiros são alguns meios que BC tem para influenciar câmbio

A valorização do dólar em relação ao real é apontada por economistas como o principal motivo de a inflação no Brasil neste ano ser uma das mais elevadas entre as principais economias do mundo. Conter a alta da moeda americana é então um dos remédios que o governo tem para reduzir o impacto desse problema sobre toda a economia.

Segundo uma parte de profissionais de mercado, o Banco Central tem falhado, pois deveria ter atuado para suavizar a alta da moeda americana. Para outra corrente, o BC está usando os instrumentos que tem na forma e na medida corretas.

Como o Banco Central pode influenciar o dólar

Se o Banco Central faz alguma operação que representa aumento da oferta de dólar para o mercado, isso ajuda a segurar ou a reduzir a cotação da moeda americana. Ao contrário, se a operação do BC retira dólares do mercado, o preço sobe.

O BC tem diferentes instrumentos para atuar no mercado de câmbio. Veja três dos principais.

  • Mercado à vista: O BC pode vender dólares em operações realizadas no dia, sem prazo de vencimento. É como se estivesse vendendo moeda americana na Bolsa.
  • Linha com recompra: Funciona como um empréstimo em dólares: o BC vende o dólar à vista com o compromisso de recomprar a mesma moeda por um preço combinado depois de um certo tempo.
  • Swap cambial: Vende contratos com vencimento no futuro que funcionam como um seguro contra a alta do dólar. Quem compra esse contrato recebe a variação da moeda americana no período.

Atuações do BC no mercado de câmbio

Dados do Banco Central mostram que a gestão do atual presidente da instituição, Roberto Campos Neto, está operando no mercado de câmbio mais que o antecessor imediato, Ilan Goldfajn, que presidiu o BC no governo de Michel Temer (2016 a 2019), mas menos que o Banco Central de Alexandre Tombini, do governo Dilma Rousseff (2010 a 2016).

Veja abaixo esses dois gráficos que refletem duas ferramentas usadas pelo Banco Central no mercado de câmbio.

Reservas: As reservas cambiais funcionam como uma poupança em moeda estrangeira do país. É daqui que o governo pega o dinheiro quando o Banco Central vende dólares ao mercado. Quando o volume de reservas cai, isso quer dizer que o Banco Central atuou mais.

Dólares vendidos pelo BC no mercado à vista

  • 2014 a 2018: 0
  • 2019: US$ 36,9 bilhões
  • 2020: US$ 24,8 bilhões
  • 2021: US$ 6,7 bilhões

Swap Cambial: Esse segundo gráfico mostra a posição líquida do Banco Central (o que tem a receber versus o que tem a pagar) em relação aos swaps cambiais. Quanto mais negativo o número, maior foi a atuação do Banco Central no mercado oferecendo esse contrato equivalente a dólar.

BC fez bastante coisa, mas foi o suficiente?

O economista André Roncaglia, professor da Unifesp (Universidade de Federal de São Paulo) aponta que em março deste ano, por exemplo, o BC fez vendas de dólar no mercado à vista.

Naquele momento, o dólar estava acelerando a alta, subindo de R$ 5,42, em 24 fevereiro, para R$ 5,78, em 9 de março, para depois recuar a R$ 5,49, em 19 de março, e então voltar a subir até R$ 5,77, no dia 29 do mesmo mês. Foi um período de instabilidade no câmbio.

Outras atuações mais constantes com swap cambial também se intensificaram neste ano, em especial em momentos de maior variação, como no dia 8 de setembro último, após falas de caráter golpista do presidente Jair Bolsonaro.

E o BC ainda colocou mais de US$ 12,2 bilhões em linhas com recompra desde 2019, ante US$ 4,7 bilhões que foram colocados pelas direções anteriores do BC, de 2014 a 2018.

Olhando os dados, acho que o BC fez muita coisa. A questão é saber se deveria ter feito mais.
André Roncaglia, Unifesp

BC está fazendo pouco

Críticos do Banco Central dizem que o momento pede maior presença do órgão porque a economia mundial atravessa desequilíbrios desde o início da pandemia. É um ambiente que exige governos mais atuantes -inclusive no mercado de câmbio.

Para agravar a situação no caso brasileiro, dizem, a instabilidade do dólar é amplificada pelas dúvidas que existem em relação ao compromisso do atual governo com o teto de gastos e com o controle do Orçamento.

O câmbio está mais ligado às incertezas do que a outros fatores. Por isso, o Banco Central deveria atuar mais no câmbio para reduzir a volatilidade e evitar que o preço oscile tanto.
Nelson Marconi, economista e professor da FGV

Para Marconi, coordenador executivo do Centro de Estudos do Novo Desenvolvimentismo da Fundação Getulio Vargas, o Banco Central deveria atuar mais em especial no mercado à vista.

Banda cambial móvel

Essa também é a opinião do economista especialista em sistemas bancários Roberto Troster, ex-economista-chefe da Febraban (Federação Brasileira de Bancos).

Segundo ele, o Banco Central deveria usar as reservas para vender dólar no mercado à vista sempre que a cotação da moeda americana batesse um certo limite. Esse teto seria ajustado conforme uma média das cotações recentes.

Assim, afirma Troster, o Banco Central não estaria criando uma tendência artificial, mas suavizando o movimento de alta.

No atual governo, a variação entre a mínima e a máxima do dólar chegou a 62%. Isso mostra que o Brasil não tem câmbio flutuante, mas um câmbio volátil porque o Banco Central atua de forma desorganizada.
Roberto Troster, Troster & Associado

Falta clareza na atuação do BC

Para o economista especialista em câmbio Sidnei Nehme, não há país no mundo que deixe esse mercado correr solto. Ele destaca que a atuação do Banco Central da forma como vem sendo feita sinaliza falta de plano estratégico.

Quando um diretor do BC diz que não vai interferir e depois o órgão começa a atuar mais, a leitura que fica é que tiveram a constatação de que não atuaram com eficácia e pontualidade.
Sidnei Nehme, diretor executivo da NGO Corretora

Intervenção não funciona

Segundo o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, a valorização e volatilidade do dólar estão mais ligadas às incertezas políticas do atual governo do que a outros fatores. E, por isso, não adianta o BC tentar aumentar as intervenções no mercado.

Além disso, diz o economista, que é sócio da consultoria Tendências, segurar o preço do dólar de forma artificial pode atrapalhar os negócios da economia real.

No câmbio flutuante, uma política que já está consolidada no Brasil, as intervenções do Banco Central não são feitas para alterar tendência porque isso afetaria diferentes mercados, como exportação, por exemplo. A atuação deve buscar apenas reduzir excessiva volatilidade quando ela aparece. E isso tem sido feito.
Mailson da Nóbrega, Tendências Consultoria

O presidente do Banco Central cita exatamente essa tese sempre que é questionado sobre o assunto. Segundo Roberto Campos Neto, o órgão só atua quando acontece o que ele chama de disfuncionalidade - como, por exemplo, faltar dólares para uma empresa que precisa pagar uma importação ou dívida em moeda estrangeira.

Procurado pelo UOL para falar sobre as críticas, o Banco Central não fez comentários.

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