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Todos a Bordo

Pilotos e aviões têm regras especiais para voltar a voar após a pandemia

Alexandre Saconi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

16/08/2020 04h00

A pandemia do novo coronavírus deixou aviões e pilotos sem voar. Quais são os cuidados que os equipamentos e os profissionais exigem durante esse afastamento? Como tem sido o preparo para que todos voltem ao ar em segurança quando houver uma retomada?

Um carro não precisa seguir normas rígidas para ficar parado, e o motorista não necessita passar por novo treinamento após ficar meses sem dirigir, mas na aviação é diferente. Os aviões têm de passar por procedimentos especiais durante o tempo em que estão parados (como fechar todos os orifícios, para não entrar insetos ou água) e no seu retorno. Os pilotos têm de treinar de tempos em tempos.

Pilotos precisam ter voado nos últimos 90 dias

Normas da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) definem que o piloto comercial deve ter experiência recente para poder voar. O piloto precisa ter feito pousos e decolagens em até 90 dias antes do retorno ao trabalho. Tem de ser no mesmo tipo de avião em que vai trabalhar. Isso ficou inviável em diversos casos durante a pandemia.

Muitos pilotos acabam passando um período maior sem conseguir alcançar essa exigência de prática recente, e teriam de passar por uma espécie de nova certificação para poder voltar a voar. Para viabilizar o retorno das atividades, desde junho, a Anac flexibilizou essa regra, permitindo que pilotos sem essa vivência recente possam voar, desde que junto a pilotos que cumpram as exigências de experiência recente.

Essa regulamentação é inédita e está de acordo com padrões de segurança de órgãos internacionais, segundo a Anac. Ela vale apenas enquanto durar o estado de emergência de saúde pública da pandemia. Além disso, algumas empresas ainda oferecem treinamentos específicos de diversas manobras em simuladores para manter o treinamento das tripulações em dia.

Aviões podem ter de "hibernar"

De acordo com Danilo Andrade, diretor de Segurança Operacional da Gol, existem dois tipos de preservação de um avião para que ele fique por um certo tempo sem voar: uma é a ativa, onde o avião ficará um tempo sem voar, mas costuma ser acionado de tempos em tempos para permanecer operacional; a outra é um tipo de hibernação, que ocorre quando o avião precisa ficar longos períodos sem voar.

"A Gol chegou a ter 92 aviões parados em 11 aeroportos em todo o Brasil e teve de gerenciar os dois tipos de preservação", disse Andrade.

Para voar de novo, não é só dar a partida

Para voltar a voar, a aeronave passa pela "despreservação", procedimento que segue etapas descritas no manual do fabricante e varia de acordo com o modelo. Segundo Miguel Angelo Rodeguero, diretor de Segurança Operacional da Aopa Brasil (Associação de Pilotos e Proprietários de Aeronaves), "para reativar o avião, não é só reabastecer e dar a partida. Há um programa de checagem antes da nova partida".

Em linhas gerais, são abertos todos os orifícios do avião que estavam cobertos para evitar a entrada de água, insetos, animais e sujeiras. Seria o equivalente a tirar a capa do carro. "A partir daí, uma série de testes dos sistemas e dos mecanismos são feitos, visando a garantia da segurança e da aeronavegabilidade", afirmou Rodeguero.

Na sequência, a parte elétrica é reativada, o avião é abastecido com combustível (caso necessário) e os níveis de óleo são completados. Esses procedimentos variam de acordo com cada avião, mas, em linhas gerais, essas são as etapas que costumam ser cumpridas.

Outras checagens por sete dias

As empresas ainda podem adotar medidas adicionais. "Mesmo após a liberação para voltar ao voo, feita por equipes treinadas pelo fabricante do avião, são feitos monitoramentos adicionais por mais sete dias", disse Andrade.

Nesse momento, é observada qualquer pequena variação que a aeronave possa apresentar em relação aos parâmetros antes do processo de preservação, como pressão no motor, fluxo de combustível, oscilação na voltagem etc.

"Em todo o pernoite, um grupo de profissionais da empresa realiza uma série de ações e verificações adicionais para garantir a segurança e que os parâmetros de voo estejam de acordo com os padrões estabelecidos", afirmou Andrade.

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