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Ao defender Temer, Mariz fala bem demais e cria problema para os advogados

Reinaldo Polito

Reinaldo Polito

  • Nelson Júnior/STF

    O criminalista Antonio Claudio Mariz de Oliveira

    O criminalista Antonio Claudio Mariz de Oliveira

O advogado Antônio Claudio Mariz de Oliveira fez a defesa de Temer nessa segunda-feira, 10, na sessão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e arrumou problemas para os advogados. Como? Mas ele não se saiu bem com sua oratória? Sim, foi impecável. Mas essa é a questão. Sua eloquência tem consequências para a imagem dos advogados.

O desempenho de Mariz reforça a crença que permeia o imaginário popular. É quase consenso que advogado fala bem. Alguns falam muito bem, sim. Tanto os que atuam na defesa, quanto os que militam na acusação. São modelos de boa oratória, por exemplo, Luiz Flávio Borges D"Urso, Edilson Mougenot Bonfim e o inesquecível Waldir Troncoso Peres, o Príncipe dos Advogados, que tanta saudade deixou nas tribunas do júri.

Vendo o desempenho desses advogados na tribuna, as pessoas imaginam que o dom da palavra é um atributo natural desses profissionais. Basta conquistar a carteira da OAB que uma centelha tocará o advogado transformando-o em orador eloquente. Essa é, de maneira geral, a expectativa que temos quando eles se dirigem à tribuna para falar.

Os próprios advogados são responsáveis por essa fama que pesa sobre seus ombros. Quando escrevi o livro "Oratória para advogados" fiz questão de destacar esse fato. Citei trecho de uma fala do professor Ernesto Leme, quando proferiu conferência na Sala do Estudante da Faculdade de Direito de São Paulo sobre "As velhas tradições da Academia":

"Esta escola sempre foi um berço de oradores. Tivemo-los no passado, e os temos no presente, entre seus mestres e entre seus discípulos.

Da eloquência dos lentes de outrora, invocarei apenas um exemplo: José Bonifácio. Mais próximos de nós, ostentou a Congregação os vultos de João Monteiro, Brasílio Machado e Reynaldo Porchat. Entre os discípulos, resumiremos a oratória acadêmica em três figuras: Martim Cabral, Martinho de Andrade e César Bierrenbach.

Isso para não falarmos de Castro Alves, de Rui Barbosa, de Joaquim Nabuco, irmãos na campanha pela redenção dos cativos e os dois últimos na luta em prol da Federação das Províncias. Nada direi quanto aos oradores do meu tempo, nem do vosso. Eu os conheci e os conheço. E podemos proclamar com orgulho, que esta Casa mantém inalterável a sua velha tradição de eloquência".

Essa é, portanto, a imagem que se criou e que se continua criando da capacidade de falar em público dos advogados. Quem os vê tomando a palavra num tribunal ou assomando a tribuna tem a certeza de que estará diante de uma comunicação persuasiva, eloquente e arrebatadora. Se não corresponder a essa expectativa, haverá decepção.

Os deuses da palavra

Por isso, Mariz é culpado. Falou bem demais. Com seu exemplo, mais uma vez contou que são os advogados os deuses da palavra. Só que o advogado passa pela vida acadêmica quase sempre sem nenhuma orientação de como se expressar em público. E passam a existência defendendo a imagem de quem fala bem, sem terem se preparado para isso.

Mariz foi eloquente. Foi cirúrgico com sua argumentação. Deu ênfase aos pontos em que a acusação se mostrou desatenta. Foi veemente, por exemplo, quanto questionou onde estavam as provas de que Temer havia recebido R$ 500 mil: "Quando? Onde? De quem? Em que circunstância? Em São Paulo ou em Pirituba?" Ele sabia que a acusação não havia mostrado essa prova. Era o ponto vulnerável que deveria ser atacado.

Talvez tenha sido ainda mais veemente quando atacou o Ministério Público, acusando-o de ter sido seletivo na apresentação das provas que deveriam compor o processo: "Uma prática horrorosa, em que eu só ponho nos autos aquilo que me interessa". A dedução seria lógica – se provas foram suprimidas, a defesa foi prejudicada.

Eloquência e capacidade de argumentação

Mariz sabe, com sua vasta experiência, que um julgamento se faz do choque da tese e da síntese. A tese se vale de seus argumentos, assim como a antítese. Os argumentos que não forem destruídos desse confronto valerão para a síntese, para o julgamento. O argumento de Mariz continua pairando no ar sem contestação consistente. Esse é o seu trunfo.

Se ele vai ou não ter sucesso nessa sua empreitada, não sabemos. Que usou toda sua eloquência e capacidade de argumentação, não há dúvida. Sua própria figura é carismática. O ar de um quase vovô, com as sobrancelhas esbranquiçadas que lhe atribuem a imagem de alguém confiável, que merece ser ouvido e admirado. Tudo comunica.

Depois dessa aula prática de como falar em público, a responsabilidade dos advogados como oradores aumentou. E põe responsabilidade nisso!

Superdicas da semana

  • Sua reputação precede sua apresentação diante do público
  • Tudo o que fez ou deixou de fazer será considerado antes mesmo que pronuncie a primeira palavra
  • Por isso, se construiu uma imagem positiva com sua oratória, corresponda a essa expectativa
  • Se você for advogado, redobre seu cuidado com a oratória. Todos esperam que seja um grande orador

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas", "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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Reinaldo Polito

Autor de 25 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

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