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Reinaldo Polito


Há saída para os deputados do PSL criticados por irem à China?

Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

22/01/2019 04h00

Um dos argumentos mais instigantes e avassaladores na comunicação é o dilema, pois ele tem o poder de encurralar o oponente e deixá-lo sem opção de saída. Nas técnicas de debate, assemelha-se quase ao xeque-mate do jogo de xadrez.

Trata-se de um argumento que contém duas proposições contrárias, que se tornam condicionais e se juntam para chegar à conclusão pretendida.

Essa é a situação em que se encontram os deputados do PSL que viajaram à China para conhecer a tecnologia de reconhecimento facial desenvolvida pelos chineses.

Ocorre que essa decisão dos deputados foi duramente criticada por um dos mais destacados apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, tido como espécie de guru do atual governo: Olavo de Carvalho. Ele gravou um vídeo soltando cobras e lagartos. Xingou os deputados de "bando de palhaços", "imbecis", "analfabetos funcionais" e "caipiras". Essa manifestação de Carvalho pegou os deputados de surpresa e os deixou perplexos e indignados.

Afinal, o autor das críticas havia sido orientador e apoiador de alguns participantes do grupo. O fogo amigo, entretanto, não se limitou às palavras do autor de "O Imbecil Coletivo".

Outros se juntaram a ele, como, por exemplo, os filhos do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro, que ironizaram a viagem e debocharam dos deputados.

Diante desse ataque "na casa de Noca o pau comeu". Os deputados esbravejaram, mas sem saber bem como agir. A situação é mais ou menos esta: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Veja só o dilema dessa turma: se aceitarem calados as críticas que receberam, por se tratar do guru do governo, dos filhos do presidente e dos defensores da direita, à qual eles pertencem, parecerão frágeis diante de seu eleitorado. Mais ou menos como menininhos inexperientes que levaram um merecido puxão de orelhas.

Se, ao contrário, se rebelarem, como alguns que demonstraram a intenção de processar Olavo de Carvalho. Ou, levarem à frente a ameaça de não votar as reformas do governo, de certa forma estariam contrariando seu eleitorado, que os elegeu para isso. Um verdadeiro tiro no pé.

O problema é muito delicado, pois, como vimos, se transformou mesmo em um verdadeiro dilema. Como resolver uma questão dessa magnitude? Como as técnicas da comunicação podem ajudar a encontrar um caminho?

A situação deve ser resolvida na origem para que as premissas antagônicas deixem de existir. Só que nesse caso outro problema pode surgir. Vamos analisar.

Para que os deputados se sentissem amparados em suas ações, o próprio Olavo de Carvalho deveria dizer que se equivocou e que a viagem não representou nenhum risco ou consequência negativa para o país. Quem conhece um pouco o jeitão do Olavo de Carvalho sabe que é mais fácil o Vaccari fazer delação premiada do que ele tomar esse tipo de iniciativa.

A outra saída seria o próprio presidente Bolsonaro minimizar o estrago e dar um certo aval para essa viagem. Nesse caso, o presidente que ainda nem esquentou a cadeira já arrumaria encrenca com seu ídolo inspirador. 

A confusão está armada. A solução é extremamente delicada e perigosa, pois há muito em jogo de um lado e de outro. Será um bom teste de liderança para o presidente e uma boa queda de braços para os deputados.

E, mais uma vez, o sucesso do início desse governo depende da sua habilidade de comunicação. Vamos assistir e ver no que vai dar. 

Superdicas da semana:

  • Para combater um argumento, é preciso destruir ou enfraquecer suas premissas
  • Antes de tomar uma decisão, pondere bem sobre todas as consequências
  • Às vezes é mais fácil combater os inimigos que os aliados
  • Analise todos os argumentos e só use os que não possam ser refutados

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Reinaldo Polito