IPCA
0.01 Jun.2019
Topo

Coluna

Reinaldo Polito


Bolsonaro não comprometeu em Davos, mas precisa de treino para falar bem

Fabrice COFFRINI / AFP
22.jan.2019 - Presidente Jair Bolsonaro discursa durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça Imagem: Fabrice COFFRINI / AFP
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

2019-01-23T13:11:02

23/01/2019 13h11

Eu poderia, e talvez até devesse, analisar a estrutura do discurso de Bolsonaro em Davos. Afinal, a análise do discurso é um dos aspectos mais importantes do estudo da oratória.

Seria possível dissecar cada um dos pontos abordados pelo presidente em seu curto discurso de seis minutos. De maneira geral, era sabido quais temas que seriam tratados.

Ou será que alguém se surpreendeu pelo fato de ele falar sobre as reformas que pretende implementar, do combate à corrupção e ao crime organizado, do meio ambiente?

De certa forma, quase todas as pessoas aguardavam que o presidente desenvolvesse essas matérias. Houve quem criticasse a falta de profundidade e abrangência em um ou outro item, mas nada que fugisse desse roteiro.

Bolsonaro foi a esse encontro para se apresentar à comunidade internacional e expor alguns de seus projetos. Os bolsonaristas comemoraram o resultado de seu discurso, enquanto que a oposição não perdeu a oportunidade para criticar.

O que eu quero comentar especificamente é a respeito do seu desempenho como orador. Para essa análise, é interessante levar em conta o desconforto natural de uma estreia tão importante.

Bolsonaro já se saiu melhor discursando em outros momentos. Em Davos não chegou a comprometer, mas podia ter se apresentado com mais competência. Teve tempo suficiente para ensaiar a fala.

Seu ponto forte foi a objetividade

Não é fácil fazer um discurso completo com começo, meio e fim em escassos seis minutos. Bolsonaro conseguiu. Ele mesmo teve a humildade de revelar que várias mãos participaram da produção do texto. Assim, ele foi lá e disse tudo o que era preciso dizer. Os detalhes ficariam para as conversas reservadas por conta de cada um de seus ministros.

A linguagem universal foi outro ponto positivo

Bolsonaro teve o cuidado de usar uma linguagem que transita em qualquer cultura sem necessidade de explicações. Em situações como essa, é uma preocupação importante, pois não pode haver risco de equívoco de interpretação.

Dividiu os holofotes na medida certa

Como o objetivo era apresentar um novo Brasil para o mundo, havia necessidade de mostrar quem eram os responsáveis pela condução dessa mudança. Citou seus ministros, mas sem exagero. Demonstrando dessa forma que o leme do barco está em suas mãos.

Brigou com o teleprompter

A impressão é a de que ele não está familiarizado com o aparelho. Teve problemas para fazer a leitura no teleprompter. Demonstrou dificuldade para encontrar as frases que deveria ler. Os olhos estavam sem saber onde se fixar. Um bom treinamento resolveria essa questão.

Ah, um ponto importante na comunicação do Bolsonaro. Ele tem dificuldade para pronunciar palavras com mais de três sílabas. Quem escreve seus discursos deveria se preocupar em substituir esses vocábulos por outros mais simples de serem lidos.

Expressão corporal 

Bolsonaro ficou duro na tribuna. Uma rigidez muito acima da que tem demonstrado em outras situações. Do início ao fim não fez nenhum gesto e permaneceu com o semblante fechado.

Truncou as frases

Boa parte do tempo truncou as frases. Essas pausas inadequadas, em alguns momentos, quase prejudicaram a compreensão da mensagem.
Estreias em eventos importantes podem gerar nervosismo no orador. Certamente foi o que aconteceu com ele. E, talvez, esse tenha sido o seu maior problema. Nas próximas vezes deverá se mostrar mais à vontade.

Trocou de ambiente e melhorou a comunicação 

Seu desempenho foi outro, muito melhor, entretanto, ao se apresentar ali mesmo em Davos num jantar que lhe foi oferecido por um grupo de empresários. Estava mais solto, simpático e comunicativo. 

Brincou com o público, descontraiu os ouvintes, gesticulou com desenvoltura e teve calma e tranquilidade para aguardar a tradução de suas palavras. Nesse ambiente se apresentou com a competência que se esperava dele.

Como eu disse, Bolsonaro não comprometeu em Davos, cumpriu bem o seu papel, mas, para corresponder ao que se esperava dele, vai precisar de bastante treino e muitos eventos.

Superdicas da semana:

  • Uma boa leitura exige de dez a 15 ensaios
  • É conveniente colocar um traço vertical onde pretende fazer a pausa
  • Para usar bem o teleptompter, é preciso treinar a leitura sem mover os olhos
  • Ao usar o teleptompter, não é preciso correr. O assistente moverá o texto de acordo com a velocidade da leitura

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

Siga no Instagram - @reinaldo_polito 
Siga pelo Facebook - facebook.com/reinaldopolito 
Pergunte para saber mais contatos@polito.com.br