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Reinaldo Polito


Bolsonaro e Trump: o encontro dos presidentes tuiteiros

 MANDEL NGAN and Nelson ALMEIDA / AFP
Imagem: MANDEL NGAN and Nelson ALMEIDA / AFP
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

2019-03-12T04:00:00

12/03/2019 04h00

Está agendado para o dia 19 deste mês lá na terra do Tio Sam o encontro entre os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos. Jair Bolsonaro e Donald Trump têm algumas peculiaridades comuns como, por exemplo, usar o Twitter para comunicar suas decisões e enviar mensagens, e não serem lá muito afeitos às regras do politicamente correto. Comportamentos que, de vez em quando, os deixam numa saia justa.

As tuitadas de Bolsonaro são famosas por precisar de vez em quando de uma explicação. Na última semana, além do discurso controverso afirmando que a democracia só existe se as Forças Armadas quiserem, a sua mensagem revelando cenas pornográficas em um bloco carnavalesco também deu o que falar. De generais a simpatizantes, houve uma legião explicando o que ele pretendeu comunicar.

Bolsonaro sempre deixou clara sua simpatia por Trump, e este, de certa forma, tem retribuído a gentileza com comentários benevolentes ao presidente brasileiro. Chegaram mesmo a cogitar de o presidente americano comparecer à posse de Bolsonaro, mas por dificuldade de agenda sua vinda ao Brasil acabou não se concretizando.

No cardápio do encontro, além da situação preocupante da Venezuela, os acordos comerciais entre os dois países, certamente, terão papel de destaque. As expectativas são as melhores possíveis, já que, como todos sabemos, os Estados Unidos se constituem em um dos mais poderosos países de todo o mundo. Qualquer porta que se abra poderá representar negócios de milhões de dólares. 

Não há dúvida. Entre ser amigo dos americanos ou ter de enfrentá-los como desafetos, é preferível ser parceiro. É prudente lembrar, todavia, que os Estados Unidos também são nossos concorrentes diretos em vários produtos, especialmente aqueles ligados à agropecuária e, em escala menor, mas não menos importante, na disputa de venda de veículos, minérios, couro e calçados. 

Por isso nunca podemos nos esquecer das sábias palavras do ex-presidente Jânio Quadros: em política internacional não há amizade, mas sim conveniências. E a história mostra que ele tinha razão de sobra para pensar assim. Há uma infinidade de exemplos de países que viviam de amores e que, pelos mais diferentes motivos, se puseram de costas um para o outro.

Só para dar um exemplo recente. Os Estados Unidos chegaram a ser os grandes parceiros dos iraquianos. Os norte-americanos incentivaram o aumento na produção de petróleo no Iraque e deram importante auxílio militar e econômico ao país árabe. Passado um tempo, o que aconteceu?

Os Estados Unidos acusaram os iraquianos de estarem desenvolvendo e produzindo armas de destruição em massa e que Saddam Hussein estava colaborando com a Al-Qaeda, uma temível organização terrorista. A partir dessa desconfiança, invadiram o Iraque e eliminaram o ditador.

A comunicação proporcionou experiências nem sempre agradáveis em visitas de presidentes brasileiros aos Estados Unidos. Uma das mais marcantes ocorreu com o ex-presidente José Sarney. Em 1986, ao visitar os americanos, ele teve de superar um momento bastante delicado no relacionamento entre os dois países. O Brasil estava endividado e tentando superar problemas econômicos que nos deixavam de joelhos diante da grande potência.
 
Reagan era o presidente americano e foi muito descortês com Sarney. O presidente brasileiro havia preparado um discurso protocolar amável e simpático para conquistar os americanos. Ronald Reagan, entretanto, o recepcionou com grosseria, mostrando-se um anfitrião antipático e soberbo. Em seu discurso de recepção, ao invés de proferir palavras de boas-vindas a Sarney, disse o que jamais se deve dizer a um visitante: "Nenhum país pode continuar exportando para outros se seus mercados domésticos estão fechados para a concorrência estrangeira." 

E, se não bastasse essa afronta, em outro momento foi ainda mais agressivo dizendo que nenhum país deve crescer à custa dos outros.
 
Sarney ficou sem chão. Afinal, ele não estava preparado para ser recebido dessa forma, pois fazia uma visita com toda a boa vontade. O presidente brasileiro foi altivo. Ajeitou seu marcante jaquetão e, com classe, partiu para o revide. No primeiro discurso que teve a oportunidade de proferir ainda naquele dia afirmou:

"O presidente Reagan disse esta manhã que nenhum país pode crescer à custa dos outros, nós concordamos com isso. O Brasil sempre cresceu graças às suas potencialidades, através de seu trabalho e do sacrifício do povo." 

Touché! Sem parecer vingativo, já que precisava da colaboração dos americanos, lavou a alma dos brasileiros. Sarney foi habilidoso o tempo todo.

Em todas as suas manifestações procurava deixar claro que o Brasil vivia um momento especial da sua democracia. Falava das semelhanças dos ideais dos dois povos, de como nosso Congresso se parecia com o Congresso dos Estados Unidos. Dessa forma, não só procurava quebrar resistências, mas também mostrar que o Brasil havia se livrado da ditadura.

Diante de tantas adversidades, Sarney voltou dessa empreitada como vencedor. Defendendo causas tão antipáticas como a manutenção da reserva de mercado para a informática, quebra da taxação para facilitar a importação dos nossos produtos, não pagamento dos juros da dívida externa, etc., deu seu recado e retornou para casa com uma grande vitória diplomática. 

Bolsonaro precisa preparar muito bem os seus discursos. Ali não será possível fazer improvisações. Uma palavra fora de lugar e não terá o vice Mourão para dar uma ajeitada e dizer que o que foi dito não era bem o que foi falado. Tomara que possa voltar com boas notícias e com perspectivas de negócios que nos ajudem nestes momentos difíceis que enfrentamos.

Superdicas da semana:

  • Em momentos muito importantes é bom evitar improvisações
  • Quase sempre será preferível responder às agressões com diplomacia
  • Às vezes é difícil explicar que a mensagem não foi bem interpretada 
  • Nada substitui a força de uma comunicação frente a frente

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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