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Reinaldo Polito


Joaquim Nabuco já foi embaixador nos EUA; o que esperar de E. Bolsonaro?

O cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos, vago desde abril, deve ser ocupado por Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República - Paola De Orte/Agência Brasil
O cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos, vago desde abril, deve ser ocupado por Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República Imagem: Paola De Orte/Agência Brasil
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

23/07/2019 04h00Atualizada em 23/07/2019 10h30

Como boa parte dos brasileiros, soube com surpresa e até decepção da notícia sobre a possibilidade de indicação de Eduardo Bolsonaro para ocupar o cargo de embaixador em Washington. A primeira impressão que me veio à mente era o fato de se tratar de evidente nepotismo, sendo que desvios de conduta foram sempre combatidos com veemência pelo presidente desde a época de campanha.

Alguns ponderaram, entretanto, que o cargo de embaixador é político, o que descaracterizaria o ato de nepotismo, e de confiança de quem ocupa a presidência, por isso não precisaria estar atrelado à carreira diplomática, embora fosse desejável.

Segundo François de Callières, que atuou na França como secretário de gabinete de Luís 14, na obra "Negociar, a mais útil das artes", ao escolher um embaixador, este é um dos requisitos essenciais:

"Não basta escolher uma pessoa hábil e esclarecida para encarregá-la da condução de um negócio e suas consequências (atividade do embaixador). É preciso ainda escolhê-la como autêntica e de reconhecida probidade se o intuito for assegurar os interesses a ela confiados".

Se Eduardo efetivamente se tornar embaixador em Washington, como brasileiro que amo o meu país, e imagino que isso deva acontecer com a maioria, desejo que ele se saia muito bem para benefício do Brasil. Não dá para supor que alguém que queira um futuro melhor para nós torça pelo "quanto pior, melhor".

Nessa função, especialmente em Washington, considerado como o centro de negociação política internacional mais importante, o embaixador terá entre suas atribuições evitar ou amenizar conflitos, conquistar vantagens para o país que representa e projetar positivamente a imagem do governo de que faz parte.

O caminho para ser embaixador

Para que a vontade do presidente se concretize, alguns passos ainda devem ser dados. A indicação, e Bolsonaro já disse que vai mesmo indicar o filho. A aprovação do ministro das Relações Exteriores, dispensa comentários. A aceitação do convite, e Eduardo já afirmou que aceita. A aprovação da Comissão de Relações Exteriores do Senado, e o indicado já recebeu sinal verde do presidente dessa comissão. Passar por uma sabatina no Senado. A aprovação do governo americano.

Pelo andar da carruagem, a não ser que algo muito grave ocorra no trajeto, Eduardo Bolsonaro já pode se considerar embaixador nos Estados Unidos. A questão é esta: como ele se comportará nessa função de tamanha responsabilidade? Que desempenho podemos esperar desse deputado federal, que acaba de completar 35 anos, idade mínima para o cargo?

A defesa da indicação

Temos acompanhado os argumentos utilizados pelo governo para defender essa indicação. O ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, alega que "durante o período eleitoral muitos diplomatas prestaram um desserviço ao país. Se vocês andarem pela Europa, vão ver quanto o nosso país foi achincalhado (...) Eu já fiz três entrevistas para desfazer as mentiras que foram construídas na Europa sobre o nosso país". Portanto, seria preciso alguém de confiança para que a imagem do Brasil fosse resgatada e preservada.

Ao defender o nome do filho para ser o embaixador, o presidente Bolsonaro fez comparações com outros que desempenharam funções no exterior em nome do Brasil, mais especificamente o ex-ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira, que atuou como motorista do terrorista Marighella.

Independentemente de você gostar ou não do ex-ministro das Relações Exteriores, ou daqueles que ocuparam o cargo de embaixador nos Estados Unidos, a verdade é que a régua para essa função já esteve em patamares bem mais elevados. Só para dar uma ideia de quem esteve por lá, basta citar três nomes: Joaquim Nabuco, Oswaldo Aranha e Roberto Campos.

Para ser bem-sucedido, Eduardo Bolsonaro precisará se dedicar com afinco, disciplina e inteligência na tentativa de se aproximar da envergadura desses nomes. Visando melhor compreensão, vamos nos ater a este que parece ter sido o grande expoente da embaixada brasileira em Washington, Joaquim Nabuco.

Joaquim Nabuco orador

Ao começar pela oratória, a comparação chega a ser covardia. Pela descrição que Afonso Celso fez em sua obra "Oito anos de parlamento", Joaquim Nabuco dever ter sido o melhor orador brasileiro de todos os tempos. Era um verdadeiro sedutor de plateias:

"A figura de Nabuco formava por si só o melhor dos exórdios. Bastava assomar à tribuna para empolgar a atenção e a simpatia. Muito alto, bem-proporcionado, a cabeça e o rosto de uma pureza de linhas escultural, olhos magníficos, expressão a um tempo meiga e viril, nobre conjunto de força e de graça, delicado gigante, Nabuco sobressaía em qualquer turba, tipo de eleição, desses que a natureza parece fabricar para modelo, com cuidado e amor.

Nabuco, demais, sempre escolhia para tema assuntos levantados, problemas sociais, filosóficos e religiosos, de alcance universal. Fugia às polêmicas individuais, às intrigas da politiquice. Não se submetia à disciplina e às conveniências partidárias; desconhecia chefe.

Acorria gente de todas as condições, numerosas senhoras para vê-lo e ouvi-lo. As galerias o aclamavam. Mal o presidente proferia a frase regimental: tem a palavra o senhor Joaquim Nabuco, corria um calafrio pela assistência excitada; eletrizava-se a atmosfera.

Mal descerrava os lábios, restaurava-se o silêncio. Nem era possível detê-lo. Continuasse o ruído, e a portentosa voz, a vertiginosa dicção de Nabuco prestes o abafariam. As perorações, de ingente sopro lírico, eram cuidadosa e habilmente preparadas. Para aí a imagem mais pomposa, a declaração de maior alcance, o gesto mais teatral provocava estrepitosas ovações nas galerias."

Nem será preciso dizer que Eduardo Bolsonaro, embora seja articulado e comunicativo, jamais será capaz de eletrizar a atmosfera pela força e competência de seus discursos. Poderá usar Nabuco como modelo, mas sabendo de antemão que nunca será possível se aproximar da oratória desse admirável abolicionista.

O relacionamento e o humor de Nabuco

A inteligência, a importância e a beleza de Nabuco não o afastavam das pessoas; ao contrário, sabia como conquistá-las, envolvê-las e seduzi-las. Conta-se que chegou a ser considerado o homem mais bonito de Washington, a tal ponto de as mulheres passarem em frente à sua casa na esperança de vê-lo.

Conseguia como ninguém fazer uso de uma tirada bem-humorada, extrair do próprio ambiente o motivo para uma ironia fina, sutil. Ao proferir discurso em homenagem ao Gridiron Club do Rio de Janeiro, aproveitou a presença dos jornalistas e brincou com o jantar que estava sendo servido:

"Senhores, bem pouco são os que sabem quão difícil fora a tarefa da diplomacia se a imprensa não trabalhasse com tanto afinco às horas da noite para nos trazer notícias (risos). Nem posso até conceber como teríamos que obter a nossa provisão de notícias, não fora a vossa diligência em no-las trazer duas vezes ao dia.

Por essa razão, ao agradecer a vossa presença aqui, quero exprimir a esperança de que jantar fora não virá a ser a principal função do vosso ofício, como, graças a vós, tornou-se a nossa [risos e aplausos]."

Eduardo não é feio, mas duvido que as mulheres façam romaria em frente à sua casa na esperança de encontrá-lo. Até que ele chega a ser espirituoso, mas esse comportamento agregador de Nabuco, desenvolvido e cultivado por décadas de contatos, debates e negociações diplomáticas se constituirá em longo e desafiador processo de aprendizado desse que acaba de colocar os pés nessa nova estrada.

O preparo intelectual

Nabuco foi fundador da Academia Brasileira de Letras. Escreveu "Minha formação", "O abolicionismo" e se dedicou na elaboração de uma das mais relevantes obras sobre a história do período do Império "Um estadista do Império", que relata a trajetória de seu pai. Os livros de sua autoria são considerados tão importantes que até hoje são publicados e estudados.

Não vejo Eduardo Bolsonaro se dedicando com tanto entusiasmo à literatura. Quem sabe, todavia, com o passar dos anos, com o acúmulo de experiência, o deputado não consiga também deixar alguma obra como legado dos trabalhos que realizou. Mais um ponto favorável a Nabuco.

O embaixador experiente

Como embaixador, Joaquim Nabuco teve atuação exemplar. Antes de ser nomeado embaixador em Washington, a convite do presidente Campos Sales, chefiou a delegação brasileira em Londres. Sua tarefa foi a de defender o Brasil na causa dos limites da Guiana Inglesa. Foi nomeado embaixador nos Estados Unidos em 1905.

Como grande tribuno, aproveitou suas habilidades oratórias para proferir importantes conferências nas universidades americanas, para falar de Camões, e, principalmente, enaltecer a cultura brasileira. Suas atividades foram facilitadas pelo fato de ter se tornado amigo pessoal do presidente Theodore Roosevelt. Dá para imaginar como Nabuco resolvia os problemas com muito mais tranquilidade sendo amigo do presidente.

Embora consiga se comunicar bem, vai levar um tempinho até que Eduardo acerte de vez o seu inglês. A convivência com os americanos fará esse aperfeiçoamento. Suponho que aí ele comece a fazer palestras para os americanos, falando sobre as virtudes do nosso país. Com relação à amizade com o presidente, esse será um ponto forte em seu trabalho, já que Trump demonstrou em público sua simpatia por ele. Um honroso empate com Nabuco.

É evidente que fazer a comparação de Eduardo Bolsonaro, que ainda nem foi efetivado no cargo de embaixador, com Joaquim Nabuco, considerado um dos mais importantes nomes da diplomacia da história brasileira, foi erguer demais o sarrafo. Por outro lado, são esses parâmetros que nos devem nortear.

Temos de considerar também que os tempos são outros, a realidade é bastante distinta, a cultura em que vivemos está totalmente transformada. Mais de um século nos separa de Nabuco. Nessa época de vida mais prática, mais objetiva, de competição mais acirrada, quem pode dizer que Deus não está escrevendo certo por linhas tortas. Só o futuro dirá. Tomara que o diga bem.

Superdicas da semana:

  • Desenvolva suas atividades tendo como parâmetro o que existe de melhor
  • O ideal é estar pronto e preparado para enfrentar os desafios
  • Há situações, entretanto, em que o aprendizado acontece no fazer
  • Em todas as atividades, a oratória será uma das competências mais importantes

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado no oitavo e no 25º parágrafos deste texto, Eduardo Bolsonaro é deputado federal, e não senador. O erro foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Reinaldo Polito