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Reinaldo Polito


Como MC Gui lidou com a raiva de seus críticos

MC Gui de férias nos Estados Unidos  - Instagram/Reprodução
MC Gui de férias nos Estados Unidos Imagem: Instagram/Reprodução
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

26/11/2019 04h00

O remorso é uma impotência, ele voltará a cometer o mesmo pecado. Apenas o arrependimento é uma força que põe termo a tudo.
Honoré de Balzac

MC Gui é o nome artístico de Guilherme Kaue Castanheira Alves. Destacou-se nacionalmente como cantor e compositor do estilo Funk Ostentação. Por onde circula está sempre cercado de uma legião de fãs. Conquistou a incrível marca de cerca de oito milhões de seguidores no Instagram. É um fenômeno dos novos tempos.

No dia 21 de outubro sua vida virou um verdadeiro inferno. Ele postou nas redes sociais um vídeo que gravou com seu celular quando passeava pelo parque da Disney, nos Estados Unidos. Enquanto se dirigia por transporte coletivo do estacionamento para a entrada do parque, de maneira infeliz, gravou uma família que se vestia como os personagens do filme Monstros S.A.

Ocorre que fazia parte da família uma menina com jeito tímido e dando a impressão de usar peruca. Além de filmar a menina, ele e seus amigos começaram a rir dela de maneira debochada. Sem se dar conta da besteira que fazia, postou o vídeo em suas redes sociais. Em pouco tempo viu o mundo desabar. As pessoas começaram a criticar sua atitude de maneira virulenta.

Ao perceber que havia entrado numa encrenca sem precedentes, realizou outra gravação tentando explicar os motivos que o levaram a fazer aqueles registros e qual sua intenção em postar o vídeo, afirmando que para ele tudo parecia muito natural. A consequência foi ainda mais desastrosa, pois as críticas passaram a ser mais ferozes.

E não parou por aí. As empresas que o haviam contratado começaram a cancelar os contratos dos shows, e seus agentes resolveram também suspender todos os compromissos assumidos. Era o indício de que sua carreira poderia desmoronar.

Para piorar a situação, artistas famosos se juntaram aos críticos e também passaram a censurar sua atitude. Por isso, MC Gui se afastou das redes sociais, dos amigos, dos fãs e se recolheu para pensar no que deveria fazer da vida. Disse que foi a pior situação que já enfrentou.

Como reverter essa situação?

Na sua obra "Arte retórica", Aristóteles descreve com clareza como surge o sentimento de cólera e o de calma. Diz o pensador grego que estar encolerizado é o contrário de estar calmo, e que a cólera é igualmente o contrário da calma de espírito.

MC Gui precisava, portanto, agir para que o sentimento de cólera que havia tomado conta de seus acusadores fosse atenuado e, quem sabe, até se transformasse em calma de espírito. Seguir as orientações de Aristóteles seria o único caminho.

Há dois ensinamentos em suas lições que cabem perfeitamente no drama vivido pelo funkeiro: tratar os outros como tratamos a nós próprios, "porque, segundo parece, ninguém se desdenha a si próprio". Passamos a ser calmos "com aqueles que confessam suas faltas e as deploram, como se fossem punidos pelo pesar que sentem de seus atos, com esses pomos um termo à nossa cólera". Ou seja, voltar o chicote contra as próprias costas.

Esse período de afastamento foi, assim, importante para que MC Gui refletisse a respeito de tudo o que havia feito. Avaliou as críticas, a repercussão e, principalmente, procurou descobrir porque estava se sentindo tão triste, tão arrasado, impotente e abalado. Comentou que perdera a vontade de subir nos palcos, e não sentia coragem de enfrentar os fãs.

O arrependimento

Ao conceder para Leo Dias, do UOL, a primeira entrevista depois de muitos dias longe de tudo e de todos, agiu, a partir dos conceitos aristotélicos, de forma correta para neutralizar a raiva daqueles que o atacavam com tanta veemência. Ele se colocou no lugar dos críticos e fez uma autoanálise ainda mais severa que as ofensas dos seus agressores.

Demonstrando tristeza e arrependimento e dizendo que havia refletido bastante sobre toda a situação, foi didático em suas explicações. Como se fosse o pior crítico que poderia encontrar, censurou cada uma de suas atitudes, desde o momento da primeira gravação.

Falou que não deveria ter feito aquela gravação, já que não conhecia as pessoas e não tinha sido autorizado para filmá-las. Disse que foi um grande imbecil com esse procedimento. Afirmou que não havia justificativa para rir naquela situação. Que esse foi um comportamento que não admite explicações. Censurou o fato de ter postado o vídeo. Uma brincadeira boba como aquela jamais deveria ter sido divulgada. Merecia todas as críticas que recebeu. Finalmente, que não deveria ter tentado explicar em outra gravação suas ações inconsequentes.

Depois dessas explicações, falou de como estava arrependido e arrasado com tudo o que aconteceu. Disse que estava tão triste que não conseguia ter coragem de subir ao palco e cantar. Via na sua atividade artística um meio de se divertir e levar alegria aos fãs, mas com a tristeza que havia tomado conta dele sabia que não conseguiria ser feliz, nem proporcionar felicidade aos outros.

A cólera dos críticos arrefeceu

Conforme previsto por Aristóteles, a partir desse depoimento, em que deixou transparecer muita sinceridade, muitas pessoas recolheram as armas e passaram a tratá-lo com certa piedade e consideração. Afinal, se ele mesmo estava reconhecendo os erros que cometeu, por que alguém haveria de continuar criticando suas ações?

Outro que se comportou da mesma maneira e conseguiu superar as adversidades que enfrentava foi Ronaldo Fenômeno. Depois de ser gravado com alguns travestis, diante de repercussão extremamente negativa, concedeu entrevista para a jornalista Patrícia Poeta, da Rede Globo, e mostrou toda sua tristeza e arrependimento. Foi tão feliz com essa iniciativa que afastou as críticas mais contundentes, preservou a imagem e a carreira, e hoje praticamente ninguém mais fala nesse assunto.

Superdicas da semana

  • Se errar e receber críticas por isso, não tente se justificar
  • A melhor atitude é não cometer erros, mas se errar, seja seu maior crítico
  • Um certo afastamento faz com que o tempo ajude a serenar as críticas
  • Seremos perdoados mais depressa quando outra pessoa é criticada por erro maior

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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Reinaldo Polito