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Reinaldo Polito


Maluf, Ciro, Marta, Bolsonaro: uma frase infeliz pode marcar pela vida toda

Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

05/11/2019 04h00

A ironia atinge apenas a inteligência. Inútil desperdiçá-la com os que estão longe do seu alcance. Contra estes ainda não se conseguiu inventar nenhuma arma. A burrice é invencível.
Mário Quintana

Hoje vou mexer num vespeiro. Para dar exemplos, vou ter de mencionar nomes de políticos que, por serem polêmicos, podem despertar amor e ódio na população. Quem, entretanto, sem o calor da paixão, conseguir analisar os casos relatados como oportunidade de reflexão, talvez aproveite para aprender e não cometer os mesmos equívocos.

Quem fala muito —por exemplo, quem faz palestras de uma ou duas horas, concede entrevistas longas ou conversa demais— corre o risco de, em certos momentos, sem pensar, dizer o que não deveria ter dito. Em determinadas circunstâncias, depois que a palavra saiu, não tem jeito, a desgraça está feita. Dependendo do que falou, vai carregar as consequências pela vida toda.

De maneira geral, políticos falam bastante. Por isso, ao lado de palestrantes, pregadores, professores e advogados, são as pessoas que mais correm o risco de meter os pés pelas mãos. Sem contar que, pelo fato de serem muito visados, estão o tempo todo sendo gravados pela imprensa, por correligionários e pelos adversários.

Nessas situações, uma frase tirada de contexto pode ser suficiente para comprometer a campanha ou até a carreira inteira do incauto. Os desafetos costumam guardar pacientemente a gravação até que surja a oportunidade mais conveniente. Depois de divulgada a informação, ela fica perambulando eternamente pela internet.

Para iniciar a nossa conversa, é preciso enfatizar bem uma premissa: diante de pessoas com dificuldade de entendimento, de desafetos e de jornalistas, não se deve usar ironia, frases subentendidas ou que provoquem dupla interpretação. Se pegarem a palavra ao pé da letra, você não poderá dizer que não disse, e esse pessoal talvez não tenha a boa vontade de interpretar exatamente o que pretendeu dizer.

Paulo Maluf e o estupro

Em 1989, quando Maluf fazia uma palestra na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais para médicos e estudantes de medicina, pronunciou uma frase infeliz. Disse o seguinte: "Se está com desejo sexual, estupra, mas não mata". Ocorre que Maluf estava naquele evento para defender a ideia de que estupro é crime hediondo e que, se seguido de morte, deveria ser punido com pena capital.

Qual o quê! Boa parte da imprensa e seus adversários aproveitaram o descuido e o taxaram de defensor de estupradores. Maluf se defendeu, explicou, deu entrevista com todas as mulheres da sua família ao lado, perguntando se alguém achava que ele gostaria que elas fossem estupradas, mas não adiantou.

Com quase 90 anos de idade, ainda hoje recebe críticas dos seus opositores, que repetem a mesma frase como se fosse um bordão: quer estuprar, estupra, mas não mata. Maluf já disse várias vezes que se arrependeu por ter proferido a frase infeliz, que foi mal interpretada e serviu de arma para seus adversários.

Ciro Gomes e a posição da mulher

Essa história, trágica para Ciro Gomes, ocorreu em 2002. Ciro tinha como mulher uma das atrizes mais conhecidas e admiradas do país, Patrícia Pillar. Mulher inteligente, engajada e bastante politizada, sempre acompanhava Ciro em suas andanças políticas. A imprensa insistia sempre na mesma questão: qual o papel da Patrícia?

Lógico que a intenção dos jornalistas era cutucar o político muito conhecido por ter pavio curto e não levar desaforo para casa. Nessa questão, estava embutida a crítica de que ele se valia da fama dela para aumentar sua simpatia e aceitação política. Depois de esclarecer dezenas de vezes que sua mulher tinha preocupações sociais e bastante sensibilidade política, um dia resolveu brincar.

Como resposta, ele disse: "A minha companheira tem um dos papéis mais importantes, que é dormir comigo. Dormir comigo é fundamental". Em seguida, percebendo que a brincadeira poderia ser mal interpretada, acrescentou: "Evidentemente que estou brincando".

Tarde demais. O estrago já estava feito. A informação de que Ciro disse que a mulher tinha o papel de dormir com ele se alastrou como rastilho de pólvora e chegou a todos os cantos do país. O político perdeu parte importante de seu eleitorado, especialmente as mulheres, e, até hoje, vira e mexe, precisa explicar nas entrevistas que o que disse há tantos anos foi só uma brincadeira.

Ciro Gomes também já comentou inúmeras vezes que se arrependeu do que falou. Confessa que esse talvez tenha sido o maior erro que cometeu na vida. Brincou de maneira equivocada, no momento inadequado, com um assunto delicado. Por isso, carrega até hoje o peso dessa escorregadela.

Marta Suplicy e a pérola da sexóloga

Quem acompanha a ex-prefeita e ex-ministra Marta Suplicy sabe que essa política transmite mensagens de forma clara e direta. Desde a época em que fazia programa na TV Globo, falava de sexo com muita naturalidade. Talvez tenha sido das primeiras pessoas a usar linguagem tão sem censura na televisão brasileira.

É possível que essa descontração tenha ajudado a armar uma grave armadilha em sua vida. Em 2007, o Brasil sofria com terríveis problemas enfrentados pelos passageiros nos aeroportos do país. Os voos eram adiados e cancelados desde manhã até a noite. Muitos perdiam compromissos e arcavam com prejuízos em seus negócios.

Não é difícil deduzir que todos aqueles que precisavam viajar viviam nervosos e muito estressados. Alguns perdiam a paciência e se tornavam agressivos com os profissionais que os atendiam. Um verdadeiro caos. Marta era a Ministra do Turismo e resolveu acalmar o pessoal.

Para se mostrar bem à vontade e se aproximar mais das pessoas, sem que a vissem apenas como uma ministra, Marta pediu que se mantivessem mais tranquilos e soltou a pérola de sexóloga: "Relaxa e goza, porque você vai esquecer dos transtornos".

Pronto, sua vida se transformou num inferno. Foi acusada de ser insensível, de não levar em consideração a gravidade dos problemas enfrentados pela população e de não usar o poder do seu cargo para resolver a situação.

Marta explicou que foi só uma força de expressão para ajudar a contornar os inconvenientes dos atrasos e cancelamentos, mas não adiantou. Os passageiros, adversários e boa parte da imprensa não perdoaram o deslize e massacraram a ministra.

Marta não só se arrependeu do que falou, mas afirmou também que ficou triste e arrasada por ter proferido aquela frase infeliz. Também nesse caso, sempre tem alguém se lembrando do que disse.

Bolsonaro e sua "fraquejada"

As frases do presidente Jair Bolsonaro poderiam servir de exemplo para muitos textos como este. Todos sabem que ele é muito brincalhão e meio sem filtro. De vez em quando, solta umas frases que provocam indignação e fazem a alegria dos adversários.

Uma de suas brincadeiras que serviu de munição para alguns órgãos de imprensa e seus desafetos, ainda quando era deputado federal, ocorreu em palestra que proferiu na Hebraica, no Rio de Janeiro, em 2017. Ao fazer referência aos seus filhos, fez o seguinte comentário infeliz: "Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher".

Na hora, já tinha gente revoltada com aquela informação. Durante toda a campanha presidencial teve de explicar que não era misógino.

Não é preciso ter muita boa vontade para interpretar que Bolsonaro fez apenas uma brincadeira, mas uma brincadeira infeliz, e com um tema sempre muito polêmico. Quem vê o relacionamento dele com a filha percebe o amor que um tem pelo outro. Ficou, entretanto, para os opositores, o carimbo de quem tem repulsa pelas mulheres.

É melhor prevenir...

Esses são apenas alguns exemplos de personalidades que estão à nossa frente, que desempenham ou desempenharam funções políticas importantes, acostumadas a se apresentar em público, mas que, por um descuido, acabaram dizendo o que não sentiam, e passam boa parte do tempo tendo de dar explicações sobre esses deslizes.

Por isso, não custa nada ficar precavido e pensar bem antes de fazer uma brincadeira ou usar mensagens que possam ser mal interpretadas. Mesmo que o ambiente seja amistoso e receptivo, lembre-se de que sempre poderá ter alguém gravando —para o bem ou para o mal— o que você estiver dizendo.

Superdicas da semana

  • Use a ironia fina como meio de comunicação. Demonstra inteligência
  • Evite o uso de ironia fina quando estiver diante de desafetos
  • Se tiver de explicar que o que disse foi uma brincadeira, significa que o tom foi inadequado
  • Em caso de dúvida sobre a conveniência de brincar, evite fazer brincadeiras

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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