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Reinaldo Polito


A cadeia não tirou o poder de oratória de Lula

O ex-presidente Lula é cercado por apoiadores ao deixar a prisão em Curitiba - DENIS FERREIRA NETTO/ESTADÃO CONTEÚDO
O ex-presidente Lula é cercado por apoiadores ao deixar a prisão em Curitiba Imagem: DENIS FERREIRA NETTO/ESTADÃO CONTEÚDO
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

08/11/2019 22h51

As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras
Friedrich Nietzsche

Eu estava curioso para ver como Lula sairia da cadeia. Será que esse tempo todo de encarceramento havia minado sua reconhecida competência para falar com as massas? Será que a sua voz, apesar de nunca ter sido bonita, continuaria forte e eloquente como sempre foi? A minha aposta era a de que eu veria uma pessoa meio fragilizada, quase sem energia e ânimo. Ao vê-lo discursando, percebi que sua condição era outra.

Assista a íntegra do 1º discurso de Lula após sair da prisão

UOL Notícias

Sua postura diante do público foi a mesma da época em que subia no palanque para fazer seus discursos políticos. Você pode não gostar de Lula, pode até detestá-lo, mas há de concordar que o homem é muito bom na arte de falar em público. Ele sabe exatamente qual mensagem deve transmitir a cada tipo de plateia. Como nenhum outro político, tem a habilidade de adotar a forma de se comunicar.

Em pouco mais de dez minutos, Lula falou o que as pessoas que o esperavam em Curitiba gostariam de ouvir. Agradeceu o apoio que sempre recebeu dos correligionários, fez referência a todos os que estiveram ao seu lado nos momentos difíceis em que permaneceu na prisão e não perdeu a oportunidade de criticar duramente seus opositores.

Lula atirou para todos os lados

Usando a tática da preterição, ou seja, quando alguém afirma que não vai dizer, mas diz tudo o que deseja, atacou a Polícia Federal, o Ministério Público, a Força Tarefa, o ex-juiz Sérgio Moro, e não poupou nem os ministros do TRF4. Apontou a metralhadora verbal e atirou para todos os lados.

E, para não deixar o momento político atual de lado, criticou o "grosseiro Ministro da Educação" por ter destruído as universidades e o presidente Jair Bolsonaro por contar mentiras nas redes sociais.

Não deixou de citar o desemprego no país, as pessoas que estão sendo obrigadas a trabalhar de Uber, que precisam entregar pizza de bicicleta, e a piora na situação do Brasil.

Enfim, em poucos minutos, ele teve o cuidado de não deixar pedra sobre pedra. A cada pausa escolhia um tema novo, que esgotava em duas ou três frases. Sempre com tom de indignação e atitude acusatória.

A mensagem principal

Usou como mensagem principal o mesmo tema que havia usado na época em que foi preso: "Tentaram matar uma ideia, e uma ideia não se mata, não desaparece". E, para não parecer rancoroso, afirmou e repetiu que não tem raiva de ninguém.

Lula não se preocupou se o que dizia era verdade ou não. As palavras emocionadas, que foram apoiadas com o coro do público e com cartazes dizendo que é inocente e que houve injustiça, não consideraram que ele foi condenado em diversas instâncias em julgamentos justos, com todas as possibilidades de defesa.

Talvez não exista na história do país alguém que tenha tido mais chances de defesa que Lula. Assim que tinha um pedido derrotado, imediatamente tentava outras possibilidades.

Enquanto Lula estiver falando para aqueles que o idolatram, receberá aplausos e incentivos. Por outro lado, quando o público for composto de pessoas que apoiam o trabalho da Lava Jato, do Ministério Público, da Força Tarefa, da Polícia Federal, da Receita Federal e, principalmente, do ex-juiz e hoje ministro Sérgio Moro, a reação poderá ser outra.

Chegou o momento de convencer

Nos próximos dias, saberemos qual a verdade a respeito da opinião que as pessoas têm do ex-presidente. Uma coisa é falar para aqueles que sempre o endeusaram, não importando as provas que foram levantadas sobre os seus malfeitos. Outra, diferente, é discursar diante daqueles que não se envolvem apenas por discursos emocionados, sem argumentos sólidos e coerência entre as palavras e as ações.

Vamos ver se esses meses todos na cadeia, apesar de não terem mudado a eloquência do orador, que em certo momento chegou a ter mais de 80% de apoio popular, não mudaram também a opinião das pessoas que tiveram oportunidade de avaliar sua conduta, julgada e condenada pela justiça a partir das provas apresentadas.

Superdicas da semana

  • O bom orador sabe escolher a mensagem certa para o público certo
  • Se uma pessoa se sentir injustiçada, deve falar com indignação
  • As palavras precisam encontrar respaldo nas ações
  • A boa oratória pressupõe a verdade. Caso contrário, será apenas teatro

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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