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Luxemburgo chamou Moro de assassino? Não leve tudo tão ao pé da letra

MAURíCIO RUMMENS/AGÊNCIA O DIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO
Imagem: MAURíCIO RUMMENS/AGÊNCIA O DIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

26/12/2019 12h22Atualizada em 27/12/2019 12h06

A vida é muito importante para ser levada a sério.
Oscar Wilde

De repente, comecei a receber de diversas fontes a informação de que o novo técnico do Palmeiras, Wanderley Luxemburgo, havia acusado o ministro da Justiça e Segurança Pública, ex-juiz federal Sérgio Moro, de ser assassino. Independentemente de alguém gostar ou não de Moro, chamá-lo de assassino ultrapassa todos os limites do bom senso.

Como ando meio desconfiado de tudo o que vejo na internet, resolvi fazer uma busca para verificar o que realmente havia acontecido. Localizei o vídeo original onde Luxemburgo faz referências a Moro. Nessa entrevista, o técnico de futebol fala a respeito de sua ideologia política.

Explicou que é de esquerda, porque o nome da mãe é Rosa Luxemburgo da Silva em homenagem à economista marxista polaco-alemã Rosa Luxemburgo. Que o avô pertencera ao sindicato dos ferroviários, foragido. Que o pai era gráfico, foragido, na época da ditadura. E que é de esquerda porque acha que a democracia deve prevalecer.

Até aí, tudo bem. Cada um defende a ideologia que julgar mais conveniente. Afinal, esse é o princípio da liberdade democrática.

A partir desse momento, ele faz referências críticas a Sérgio Moro. O que também não é nenhum problema, pois ninguém é obrigado a gostar ou desgostar de uma pessoa.

O ataque a Moro

Diz Luxemburgo: "O juiz Sérgio Moro está sendo tido como o grande mocinho do Brasil, o Durango Kid [personagem cowboy que protagonizou filmes e revistas em quadrinhos a partir dos anos 1940], o National Kid [famoso personagem de seriado japonês dos anos 1960]". Nada de grave até aqui.

A partir dessa parte da entrevista, Luxemburgo dá início a uma crítica contundente a Moro: "Pera aí. Um juiz de primeira instância que pegou a nossa Constituição e jogou no lixo".

E segue, de forma veemente, na defesa daquilo que considera fundamental e que acaba se constituindo em grande polêmica que viralizou nas redes sociais: "Mandou prender, mandou matar, mandou fazer não sei o quê, passando por cima da Constituição, passando por cima de todo mundo, tá certo? Trazendo uma parte policial para dentro de uma parte política. E o Brasil, nós estamos há três anos à deriva. O que é o Brasil hoje? Um país sem respeito".

Na sequência, volta a falar de Moro: "Ah, o Moro é um grande juiz? Não quero saber da competência dele. Podia ter feito tudo o que ele fez, mas não atropelar a Constituição, como ele fez. Então, são pensamentos meus, como ideologia. E continuo sendo Lula, porque vou sempre defender, porque eu conheço."

Uma provocação?

Principalmente bolsonaristas, defensores e simpatizantes de Moro ficaram revoltados. Onde já se viu ter a petulância de chamar o nosso herói de "assassino"? Ah, ele vai ter de pagar por essa insolência. Vai ter de provar que "Moro é um assassino". Isso não pode ser deixado de lado.

Por essas e outras, a vida está ficando chata demais. De uns tempos para cá, parece que algumas pessoas não sabem distinguir uma informação real de outra, dita apenas em sentido figurado. Se fôssemos levar tudo a ferro e fogo, teríamos mais gente dentro da cadeia que fora.

Considere comigo, por exemplo, quantas mães irritadas com as peraltices dos filhos já disseram: Ah, seu moleque, a próxima vez que fizer isso, vou matar você. Eu não me lembro de nenhum caso de uma mãe que tenha cumprido essa ameaça.

Da mesma forma, desde menino ouço dizerem: ele manda prender e manda soltar. Toda vez que alguém queria definir a importância de uma pessoa, usava essa expressão para deixar claro que se tratava mesmo de um indivíduo bastante poderoso. Tão poderoso que decidia o que bem entendesse.

Essa modalidade de comunicação —o sentido figurado— extrapola o sentido literal e amplia o significado original da palavra ou expressão. É um recurso corriqueiro em nossa linguagem, e serve, principalmente, para dar maior expressividade à nossa fala ou criar sentidos distintos.

No caso de Luxemburgo não foi diferente. Ele estava, de maneira irônica, dizendo que Moro se encheu de importância e poder, de tal forma que podia mandar prender e soltar. "Mandar matar" entrou em substituição a "mandar soltar" como um deslize próprio de quem se expressa de improviso, ainda mais quando deseja ser veemente.

As frases perdem o sentido original

Com o tempo, algumas frases acabam perdendo o sentido original e vão se esvaziando, de tal sorte que passam a ser utilizadas mais como força de expressão. É o caso de irmãos que brigam, e um chama o outro de "fdp". Será que ele estava mesmo querendo se referir à mãe dessa maneira? Assim como não será impossível ouvir um ateu aliviado dizendo: graças a Deus!

Por isso, cuidado com o mimimi. As pessoas se enchem de razão, pegam as palavras ao pé da letra e saem por aí tentando jogar os desafetos na guilhotina. Ah, jogar na guilhotina é apenas uma força de expressão.

Superdicas da semana

  • Nem todas as frases devem ser levadas ao pé da letra
  • Há xingamentos que se valem de frases apenas como força de expressão
  • Nem tudo o que lemos ou ouvimos na internet pode ser levado a sério
  • Cuidado com as expressões que usa. Alguém poderá não perceber que se tratou apenas de uma ironia

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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Reinaldo Polito