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FHC ainda pedirá que esqueçam do que falou

Fernando Henrique Cardoso durante palestra, em 2018 - Felipe Rau/Estadão Conteúdo
Fernando Henrique Cardoso durante palestra, em 2018 Imagem: Felipe Rau/Estadão Conteúdo
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

04/02/2020 04h00

As opiniões defendidas apaixonadamente são aquelas para as quais não há boas justificativas
Bertrand Russell

Analiso a comunicação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso há muitos anos. Escrevo sobre sua maneira de se expressar em público, só aqui no UOL, há 13 anos. Sempre elogiando. Tirando seu pequeno problema de dicção, pois quando acelera a fala costuma embolar algumas sílabas e certas palavras chegam a ser quase incompreensíveis, sua comunicação tem ótima qualidade. A dicção não chega a ser problema porque, como sua linha de raciocínio é lógica, se torna possível entender o que ele diz com facilidade dentro do contexto.

É um orador elegante, com postura impecável, vocabulário amplo e pronto para vestir seus pensamentos. Os gestos estão sempre em harmonia com o ritmo e cadência da fala. Os temas que aborda são elevados, tratados com a profundidade exigida e permitida pelo perfil dos ouvintes a quem se dirige. Não exagera na emoção, mas nunca deixa de mostrar indignação quando trata de problemas importantes, nem de vibrar nos momentos em que se refere às conquistas.

FHC tem humor fino e inteligente

Uma das características mais admiráveis de FHC é o seu humor fino, irônico, inteligente. Não leva piadas prontas para suas palestras e entrevistas. As tiradas espirituosas são provenientes da sua sagacidade. Ele as cria ali diante da plateia, apenas com a observação dos fatos que ocorrem no ambiente, ou que surgem no contexto da sua exposição. Prepara apenas algumas linhas para organizar o pensamento e deixa que as palavras brotem livres durante o discurso.

Já tive a oportunidade de vê-lo assomando à tribuna várias vezes. Sempre me encanto. Ninguém sai de suas apresentações do mesmo tamanho. Sua cultura profunda permite que transite de um tema para outro mantendo a ligação perfeita das ideias. História, geografia, política, sociologia, antropologia, psicologia, enfim, qualquer que seja a matéria, participará da sua mensagem de maneira natural, como se fizesse parte espontânea do discurso.

Mesmo quando era criticado por Lula, seu "aparente" adversário de todos os momentos, comportava-se de maneira admirável, rebatendo as agressões com humor, compreensão e bastante leveza. Na época em que Lula estava no auge, com mais de 80% de aceitação popular, FHC postado na oposição reconheceu a importância daquele que estava nas trincheiras inimigas. Disse o líder tucano que seu maior mérito político havia sido o de vencer Lula, um líder carismático.

Mudança de padrão com Bolsonaro

Demonstrou ponderação, também, quando avaliava a situação de Dilma Rousseff. Fez a defesa da ex-presidente ao perceber que a situação caminhava de forma inevitável para o impeachment. Em suas entrevistas dizia que não era bom para o país passar novamente por momentos traumáticos próprios da retirada de um governo do poder. Acima de tudo, independentemente de posição política, ele colocava o bem-estar do país.

Essa posição, tão ferrenhamente defendida ao longo dos anos, não se manteve, entretanto, quando o atual presidente assumiu seu cargo. Em um processo inicial, a crítica ao candidato Bolsonaro seria natural e esperada. Afinal, era o mais duro adversário que o seu partido poderia encontrar.

Assim que as urnas revelaram que o atual presidente havia vencido as eleições, seguindo a tradição de seu comportamento, querendo que o Brasil estivesse acima de qualquer desavença partidária, era de se esperar que seu discurso fosse também de compreensão e torcida para que tudo desse certo na nova administração.

Que nada! Incoerência, discrepâncias e uma atitude clara de oposição marcaram suas falas atuais quando comparadas aos pronunciamentos que fez ao longo das últimas décadas. Já no primeiro momento passou a criticar não o que Bolsonaro havia feito, mas sim o que ele poderia fazer.

Tentou adivinhar o futuro para criticar o presente

Ao analisar o que poderia ocorrer com o governo que se instalava, não poupou críticas. Falou mal do jeito como o presidente se comunicava, dizendo que só se expressava com frases curtas, de forma interrompida. Que conseguia falar apenas para o homem comum. E, por isso, duvidava se ele seria capaz de se comunicar com a nação.

Não poupou críticas também à formação do governo, antevendo ali muita confusão, pois o presidente se dizia liberal na economia, se mostrava retrógrado nos costumes e estava cercado de muitos militares, o que indicava crise da democracia representativa.

FHC, entretanto, não esperava ser contestado como foi por Diogo Mainardi. Assim que completou suas críticas, o jornalista fez um contraponto rápido e cirúrgico nas contradições do ex-presidente:

"A sua visão sobre o momento presente me parece totalmente sombria diante de uma revolução espetacular democrática que ocorreu no Brasil. Não é o caudilho que se impõe, foi o seu povo que tem uma tradição secular de bovinismo, que saiu do lugar, foi para as ruas, garantiu a prisão do Lula, que está preso até agora. O presidente do seu partido, Aécio Neves, vai ser preso em breve."

"Houve uma devastação do sistema político brasileiro pelo voto, pelo voto intransigente, pelo voto rebelde de uma população que não tem esse hábito. Isso tudo deveria dar uma linfa de otimismo com relação ao presente, com relação ao futuro, que eu não vejo na sua análise. Como é que o senhor consegue ficar insensível a essa transformação, ao efeito benéfico dessa destruição de um passado apodrecido?". Fernando Henrique ficou sem palavras.

A crítica constante

De lá para cá, o ex-presidente não vê uma única razão para cumprimentar o governo atual. Sempre que faz um pronunciamento é para criticar. Não tem a mesma benevolência que teve com os governantes anteriores, ainda que fosse injustamente criticado por eles. É claro que pode e deve fazer críticas. Tem autoridade para isso. Mas só ver defeitos não está de acordo com a história das suas exposições patrióticas.

Na semana passada, Fernando Henrique voltou a atacar o governo Bolsonaro. Ao analisar o seu discurso, percebe-se uma lógica enviesada na argumentação. Ele se vale de premissas infundadas para induzir às conclusões que deseja estabelecer.

Acusou o governo de ser atrasado, criacionista —como se esse modo de pensar fosse um defeito na gestão de um país. De terraplanista —ainda que ninguém no governo tenha defendido essa ideia. De não dar atenção à base científico-tecnológica requerida para o desenvolvimento de um país moderno. Ora, quando Gilberto Kassab era o ministro dessa pasta, ele nunca se manifestou; agora que o ministério é ocupado por alguém efetivamente do ramo, faz crítica?!

Suas palavras não são as de alguém interessado nos rumos do país. Ele sabe como é difícil governar uma nação. Como é quase impossível ter o domínio de todas as áreas. Por que não elogiar os feitos, e criticar, até com severidade, os problemas autênticos que enfrentamos?

Enquanto a ideologia fizer parte da agenda escondida de quem elogia ou critica um governo, será preciso tirar os escombros para avaliar quais são as suas verdadeiras intenções. Eu, que sempre o elogiei, como a coerência é aspecto essencial da comunicação, sou obrigado a questioná-lo agora, por causa de seu comportamento. A pergunta que fica: será que mudou, ou as garras estavam apenas escondidas? Será que amanhã vai pedir também para que "esqueçam do que falou"?

Superdicas da semana

  • É incoerente quem defende uma ideia hoje, mas que, por conveniência, muda amanhã
  • A análise do discurso nos ensina a descobrir o que está por trás das palavras
  • Antes de aceitar uma conclusão verifique se as premissas são verdadeiras
  • A crítica não é boa ou má até que se mostre ser verdadeira ou não

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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Reinaldo Polito