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Brasileiro revolucionário morto num vulcão, políticos corruptos e o futuro

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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

14/07/2020 04h00

Perdemos o apetite de viver quando nossas paixões são saciadas. Cícero

Você já deve ter ouvido esta ironia: o Brasil não tem desastres naturais, mas temos políticos. Aqui nós não temos tufões, terremotos, vulcões, mas temos "Suas Excelências" para infernizar a nossa vida.

Vez por outra, entretanto somos surpreendidos, e a vida nos prega uma peça. Vale a pena relembrar uma história muito curiosa envolvendo um evento natural e um político - na verdade, um ativista político - comprometido na conquista de um ideal de luta que acontecia no Brasil na época do Império.

Neste mês de julho, faz 129 anos que o Brasil perdeu um de seus vultos mais importantes, Silva Jardim, um homem que viveu intensamente todos os momentos de sua curta existência e que, movido pelo seu espírito revolucionário, se transformou em um dos mais destacados abolicionistas e entusiastas da causa republicana.

Um ativista beligerante

Antonio da Silva Jardim ficou para a história como Silva Jardim. Nasceu em Capivari, cidade que atualmente leva o seu nome, em 18 de agosto de 1860. Era filho de um professor que mantinha a família com certa dificuldade. Para ganhar a vida, lecionava no sítio onde moravam. Por isso, Silva Jardim teve de se virar cedo. Trabalhou no próprio externato onde estudava.

Com espírito aventureiro, assim que chegou a época de fazer o curso superior, saiu de Niterói e foi para São Paulo estudar na Faculdade de Direito de São Paulo. Não demorou muito para se envolver com as ideias abolicionistas e republicanas que movimentavam seus colegas estudantes e estavam presentes nos debates parlamentares do país.

Depois de formado, de comportamento irrequieto e espírito beligerante, não pensou duas vezes em vender sua parte da banca de advocacia e encerrar a sociedade que havia constituído com Martim Francisco. Foi um fervoroso revolucionário. Com o dinheiro conseguido na venda da sua parte do escritório, percorreu os estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro fazendo comícios. Era excelente orador. Dos melhores da nossa história.

Não tinha medo de morrer

Como defendia ideias que provocavam debates acalorados na população, por onde discursava era elogiado, criticado, perseguido e até apedrejado. Não se incomodava. Quando lhe diziam que os monarquistas, formados pela guarda negra, organizada por José do Patrocínio, poderiam agredi-lo fisicamente por causa de suas ideias republicanas, respondia: vamos ver quem tem mais coragem, se eu para morrer, ou essa gente para me matar.

Ele não estava para brincadeira não. Basta dizer que chegou a fazer discursos com a arma na cintura. Houve até uma vez, num momento de eloquência desmedida, em que brandiu o revólver para que todos pudessem vê-lo. Bem, para enfrentar o governo de turno, que era o do imperador D. Pedro II, precisava mesmo de muita paixão, coragem e determinação.

Proclamada a República, por ser muito radical, ficou de fora da turma que formava o novo governo. Não se deu por vencido, e no ano seguinte, em 1890, foi candidato às eleições constituintes, mas saiu derrotado. Frustrado, decepcionado e amargurado com os velhos companheiros da causa que havia abraçado com tanto fervor, resolveu passar um tempo na Europa para decidir o que fazer da vida.

No dia primeiro de julho de 1891, ao fazer uma excursão pelas encostas do vulcão Vesúvio nas imediações de Nápoles, na Itália, por não seguir as recomendações dos guias, caiu em uma fenda e desapareceu. Silva Jardim, portanto, foi protagonista de uma grande e surpreendente ironia. Como combatente ardoroso, correu todos os riscos de morrer nas mãos dos opositores políticos, mas sobreviveu. Morreu jovem, aos 30 anos, em terras estrangeiras, vítima de um vulcão inativo longe dos campos de batalha que havia frequentado com tanta disposição.

Idealismo e caráter

Essa demonstração de idealismo e caráter, tão rara nos dias de hoje, pode parecer até mesmo utópica diante da realidade política que vivenciamos. A falta de escrúpulos, a desonestidade e a ausência de comprometimento ético de alguns dos "representantes do povo" fazem mais mal à população que os estragos que poderiam ser provocados pelos desastres naturais.

Todos nós nos indignamos ao saber que o político de determinada região desviou para os próprios bolsos recursos que deveriam ser destinados à aquisição de remédios, à construção de hospitais, ou à compra de merendas escolares. Como podem ser tão insensíveis?!

Políticos corruptos, mal-intencionados, incompetentes, entretanto, não são "privilégio" do nosso país, pois vira e mexe chegam até nós notícias de outras nações, revelando que determinado gatuno político foi apanhado com a boca na botija. Tal fato, todavia, não nos serve de consolo.

Como o sociólogo norte-americano Richard Sennett bem define: "Caráter é o valor ético que atribuímos aos nossos próprios desejos e às nossas relações com os outros". Quando as relações sociais são marcadas pela ausência de caráter, a criação de laços duradouros de confiança, lealdade e compromisso mútuo ficam seriamente abaladas. E todos perdemos.

Superdicas da semana

  • Tenha uma causa para se entregar
  • Não importa que seja uma ideologia, um amor, uma carreira, ou uma paixão futebolística
  • Ainda que não consiga realizar seus sonhos, valerá a pena persegui-los
  • Nem sempre o exemplo está nos vencedores, mas sim nos lutadores

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Superdicas para escrever uma redação nota 1.000 no ENEM", "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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Reinaldo Polito