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Reinaldo Polito

Bolsonaro fecha a boca, e a popularidade aumenta. Coincidência?

Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

28/07/2020 04h00

Nós não nos libertamos de um hábito atirando-o pela janela: é preciso fazê-lo descer a escada, degrau por degrau.
Mark Twain

Ficar na moita, ou simplesmente moita. Boca-de-siri. Fechar-se em copas. Essas são algumas expressões utilizadas para dizer que alguém fechou a boca e deixou de falar. Nada melhor que um vocabulário mais solto para definir um presidente que gosta de flertar com a popularidade. Bolsonaro não parou de falar, não se fechou em copas, mas deu uma bela recuada nas suas investidas verborrágicas. Ficou assim, como poderia dizer, meio boca-de-siri.

A impressão que dava era a de que o presidente levantava pela manhã, olhava no espelho e se perguntava: com quem será que vou brigar hoje? Dia sim, outro também Bolsonaro arrumava algum tipo de confusão com seus pronunciamentos. Se não tinha adversário para azucrinar, em suas reuniões pegava a primeira vítima que tivesse à frente. Basta ver as chicotadas que deu naquela famosa reunião que o STF exigiu que fosse exibida ao público.

Sobrava pra todo mundo

Num dia desancava a imprensa, noutro caía de pau nos adversários. E, em certas circunstâncias, sobrava pancadaria até para presidentes de outros países, como aconteceu, por exemplo, com Macron. E não adiantava ser alertado, pois havia decidido por essa forma de governar. Até os mais ferrenhos correligionários criticavam seu comportamento.

Era só pedir aos bolsonaristas que citassem defeitos do presidente, por mais apaixonados e simpatizantes que fossem, era quase unanimidade: o maior problema do presidente está na sua forma de falar. Essas informações chegavam até os ouvidos de Bolsonaro, mas ele não se emendava. Como resposta dizia: "sou assim mesmo e não vou mudar". E mais, complementava que se alguém não estivesse satisfeito que mudasse nas próximas eleições.

Flanco para os opositores

Os opositores, então, se deliciavam com essas atitudes de Bolsonaro. Assim que ouviam sobre uma conquista do governo, reagiam imediatamente: esse cara só fala besteira. E quem ousasse refutar com argumentos lógicos, ouvia como resposta a mesma frase: sei, mas ele só fala besteira. E logo em seguida vinha o pacote: seus filhos só atrapalham, ele é fascista, nazista, homofóbico, misógino. Bem, aí os apoiadores desistiam. Como discutir diante desse tipo de argumentação?

De uns tempos para cá, entretanto, Bolsonaro mudou. Fechou a matraca. Parou de cuspir fogo. Por que será que resolveu mudar o comportamento? O que será que aconteceu para que pudesse modificar um estilo tão enraizado em sua personalidade? Sim, esse jeitão beligerante o acompanha desde a época em que atuou como deputado. Sempre foi um briguento contumaz.

Alguns dizem que a mudança começou depois que o almirante Flávio Rocha assumiu a posição estratégica de secretário de Assuntos Especiais da Presidência da República. Ele é muito inteligente e bem-preparado. Basta dizer que fala fluentemente seis idiomas e tem extenso currículo de importantes atividades muito bem-sucedidas. Mais importante, diferentemente de algumas figuras pavio curto que cercam o chefe do executivo, Rochinha, como é tratado pelos mais próximos, devido a sua baixa estatura, é um apaziguador. Costuma tratar os assuntos até incendiários com serenidade.

Como tem convivido com Bolsonaro praticamente o tempo todo, provavelmente, deve ter dado alguns conselhos para que o presidente passasse a ter esse novo jeitão Jairzinho paz e amor. Esses bons exemplos costumam contagiar mesmo aqueles mais irredutíveis. Comentam até que alguns ministros também recorrem aos seus aconselhamentos.

Esse clima menos agitado poderá ser muito útil também ao general Otávio Rêgo Barros, porta-voz da presidência. Homem cordato, experiente, bastante articulado, desde o início era quem segurava, muitas vezes sozinho, as pontas para o presidente. Escancarou as portas do palácio aos jornalistas, para fornecer a eles sempre notícias atualizadas.

Em suas aparições, respondia a todas as questões formuladas com propriedade e de maneira bastante educada, ainda que as perguntas fossem disparadas com boa dose de veneno. Sem dúvida, esse comportamento mais equilibrado do presidente poderá dar ao seu porta-voz condições mais adequadas de trabalho.

Outros motivos plausíveis

Outro motivo aventado para a fase mais silenciosa de Bolsonaro foi o seu afastamento obrigatório depois de ter contraído o coronavírus. Pelo menos por duas semanas foi preciso se resguardar. Por mais que seu quadro de saúde tenha evoluído, o organismo fica debilitado e exige repouso. Falou um pouco aqui e ali, mas de leve, sem as costumeiras agressões verbais.

Consideram ainda que a pressão do STF, associada à prisão de Queiroz e à delicada situação do filho Flávio o incentivaram a agir com maior prudência. O ensinamento é antigo e sábio: "em boca fechada não entra mosquito". Ou, outro que segue mais ou menos na mesma linha: "quem fala muito acaba dando bom dia a cavalo".

Seja por um ou outro motivo. Por iniciativa própria, de livre e espontânea vontade. Seja por exigências das circunstâncias, a verdade é que esse período de certa reclusão coincidiu com o aumento nos seus índices de popularidade. As pesquisas recentes mostram que se as eleições presidenciais fossem hoje, ele ganharia de todos os concorrentes.

Mesmo afirmando que não se preocupa com reeleição, a verdade é que não passa uma semana sequer em que não mencione as eleições de 2022. Ou seja, diz uma coisa, mas as atitudes demonstram que pensa em outra. Nada de mal em um político desejar vencer eleições. O contrário seria estranho. Com essa subida nos indicadores de popularidade, depois de ter enfrentado um verdadeiro inferno com notícias ruins de todos os lados, imagino que Bolsonaro continuará por algum tempo nessa toada mais soft. A ver.

Superdicas da semana

  • Eclesiastes: há tempo de estar calado, e tempo de falar
  • Popular: dou um boi para não entrar na briga, e uma boiada para não sair
  • Anne Frank: você conhece uma pessoa depois de uma briga. Só, então, é possível julgar o seu caráter
  • Orson Welles: muitas pessoas são bastante educadas para não falar com a boca cheia, porém não se preocupam em fazê-lo com a cabeça oca

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Superdicas para escrever uma redação nota 1.000 no ENEM", "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL