PUBLICIDADE
IPCA
0,73 Dez.2021
Topo

Reinaldo Polito

Por que Lula e Bolsonaro falam mal, mas conseguem ser bons oradores?

TOMAS CUESTA/AFP E ISAC NóBREGA/PR
Imagem: TOMAS CUESTA/AFP E ISAC NóBREGA/PR
Conteúdo exclusivo para assinantes
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

11/01/2022 04h00

Há criaturas que se intercomunicam até através do silêncio.
Maurice Maeterlinck

Como é possível afirmar que Lula e Bolsonaro falam mal, mas são, ao mesmo tempo, bons oradores? A resposta a esse paradoxo é simples. Lula e Bolsonaro cometem erros primários, básicos de comunicação, mas conseguem com sua maneira de se expressar atingir seus objetivos. Basta lembrar que ambos foram eleitos ao cargo de presidente com grande votação.

Afinal, quais são os defeitos de cada um deles para que possamos afirmar que falam mal, e quais são as virtudes para que sejam considerados bons oradores?

Por que Lula fala mal?

Sua voz é arrastada, rouquenha. Talvez tenha se desgastado ao longo dos anos durante as gritarias que fazia na porta das fábricas quando era líder sindicalista. Tem problemas de dicção.

Fala com erros elementares de gramática, que só alguém sem nenhuma formação intelectual cometeria. Possui o irritante vício de dizer "sabe?" com frequência no final das frases.

Movimenta-se demasiadamente de um lado para outro, sem nenhum objetivo, diante do público. Nesses momentos perde o contato visual com a plateia.

É negligente no preparo da sequência da apresentação, pois demonstra claramente que fala o que lhe vem à cabeça, e acaba por dizer o que não deveria.

Quais são as qualidades de Lula?

Ele é um sedutor de plateias. Fala exatamente o que as pessoas gostariam de ouvir. Tem a capacidade de mudar o rumo da apresentação de acordo com a reação do público. Lança mão de histórias de churrasco e futebol para falar a linguagem que o povo entende. E gosta.

É sempre muito veemente. Demonstra na voz, nos gestos e na fisionomia que está envolvido com a mensagem que transmite. Consegue calibrar a emoção da fala de acordo com a temperatura do público. É carismático.

Todas as vezes que transmite uma informação muito importante, toma o cuidado de valorizá-la com pausas expressivas, permitindo que os ouvintes reflitam sobre ela.

Não se intimida com os ataques que recebe. Tem a resposta pronta para cada acusação. E se não tem resposta, se defende com ironias para desestabilizar o oponente.

Por que Bolsonaro fala mal?

Abusa dos palavrões. Às vezes se expressa de forma vulgar, com piadinhas inconvenientes. É um comportamento que agride a liturgia do cargo. Não é próprio a um presidente da república.

Tem dificuldade para usar o teleprompter. Diante do aparelho, fala com postura rígida, comunicação visual fixa, demonstrando desconforto e insegurança. Trunca o pensamento com pausas fora de lugar. Durante a campanha esse pode ser um ponto bastante negativo.

Essas pausas inadequadas, embora sejam mais graves diante do teleprompter, é um defeito que o acompanha em quase todas as apresentações. Ele não consegue transmitir pensamentos inteiros sem interrupções despropositadas. O vocabulário é sofrível.

Não conseguiu desenvolver um repertório de mensagens que pudesse ajudá-lo a diversificar nos diferentes ambientes onde tenha de se apresentar. É muito repetitivo. O seu vício no final das frases é o de dizer "talkey?".

Fica nervoso diante de qualquer contratempo. Se alguém faz algum barulho na sala onde concede entrevista, interrompe o que está dizendo para repreender a pessoa. Já abandonou entrevista na metade porque não gostou da pergunta que lhe fizeram. Essas atitudes demonstram descontrole e arrogância.

E, talvez, a mais grave de suas falhas: entra em discussões polêmicas sem nenhuma necessidade. Em muitas situações ganharia mais se ficasse calado e não fizesse comentários sobre temas controvertidos.

Quais são as qualidades de Bolsonaro?

Ele tem raciocínio pronto e espirituoso. Dá respostas rápidas e "cirúrgicas" aos ataques que recebe. Percebe logo quando alguém está preparando alguma armadilha para apanhá-lo em contradição. Se fazem várias perguntas ao mesmo tempo, tem a habilidade de escolher a que seja mais conveniente, sem demonstrar que está fugindo das demais.

É bom de briga. Os oponentes têm receio de provocá-lo, pois sabem que reagirá com veemência e até agressividade. Consegue como poucos escolher os adversários que devem ser atacados.

Nas vezes em que foi entrevistado na Globo, GloboNews e no Roda Viva, da Cultura, quando todos imaginavam que seria destroçado, foi firme, e, em vez de só se defender, partiu para o ataque e conseguiu ótimo desempenho. Não se intimida nunca.

Os grandes desafios

Enquanto Lula terá dificuldade para explicar os motivos de sua prisão, Bolsonaro também não terá vida fácil para falar das acusações que a CPI da Covid-19 fez a ele.

Lula, embora não seja um grande debatedor, pois se sai melhor falando sem ser aparteado, tem muito mais experiência que Bolsonaro em debates. Por outro lado, afastado da vida pública por tanto tempo, talvez não esteja tão familiarizado com as questões do país.

Por mais que possamos encontrar defeitos na comunicação de Lula e Bolsonaro, o certo é que os dois são bons oradores. Conseguem com seu jeito de se expressar atingir os objetivos que desejam.

Superdicas da semana

  • A boa comunicação é aquela que dá resultado
  • Há pessoas que mesmo cometendo erros básicos de comunicação conseguem atingir seus objetivos
  • Há pessoas que mesmo se expressando com boa técnica não conseguem resultados
  • Os ouvintes podem gostar ou não de um orador sem saber os motivos
  • Os sinais de artificialismo afastam as pessoas
  • A naturalidade conquista os ouvintes

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre o tema: "Como falar corretamente e sem inibições", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Saiba dizer não sem magoar as pessoas" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 minutos para falar bem em público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

PUBLICIDADE