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Reinaldo Polito

Temer não deveria pedir a Bolsonaro para recuar, mas sim ao STF

Michel Temer e Bolsonaro - Adriano Machado/Reuters
Michel Temer e Bolsonaro Imagem: Adriano Machado/Reuters
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

26/04/2022 04h00

Um bom arrependimento é o melhor remédio para enfermidades da alma.
Cervantes

O ex-presidente Michel Temer é tido como apaziguador. Mesmo nos momentos mais agudos nas disputas políticas sempre se mostrou sereno e conciliador. Talvez o maior exemplo dessa característica amistosa tenha sido no tsunami provocado por Bolsonaro no famoso 7 de setembro.

Empolgado com a presença da multidão que o aplaudia na avenida Paulista, Bolsonaro passou do ponto e disse o que não deveria dizer. Só para dar ideia da agressividade do seu discurso, basta mencionar o ataque que desferiu ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Alexandre de Moraes:

Ou esse ministro se enquadra, ou ele pede para sair. Sai, Alexandre de Moraes! Deixa de ser canalha!

Crise nas instituições

Esse pronunciamento agressivo e contundente parecia não ter volta. Estava claramente atacando um dos três poderes do Brasil. Esse confronto entre as instituições que garantem a democracia do país se transformou em verdadeiro barril de pólvora. Havia risco iminente de que a população, instigada pelas palavras do presidente, invadisse as dependências da mais alta corte brasileira.

Se esses fatos viessem mesmo a ocorrer, estaria caracterizado um crime e Bolsonaro poderia ser "impichado". Ainda que tivesse apoio da população, que contasse com um vice não interessado na queda do chefe do executivo e com a maioria do Congresso não hostil ao seu governo, seria difícil impedir que fosse apeado do poder.

Recuou

Sentindo que fizera besteira, imediatamente pediu que a população se mantivesse calma e não levasse em frente a intenção de atacar o prédio do Supremo. Em seguida solicitou que o ex-presidente Michel Temer fosse até Brasília para intermediar uma conversa entre ele e o ministro Alexandre de Moraes. Além da experiência do ex-presidente e do seu perfil conciliador, fora ele quem indicara Moraes para ser um dos togados naquela prestigiosa casa.

Deu certo em um primeiro momento. Ainda que não tenha sido divulgado o teor do diálogo, houve essa comunicação entre os dois pelo telefone. Temer também ajudou a redigir uma carta para ser divulgada à Nação, assinada por Bolsonaro, na qual negava a intenção de agredir Poderes. A situação foi contornada. Tudo dava a entender que daí em diante a convivência passaria a ser harmônica. Não foi.

Tudo como dantes

Moraes nunca perdeu uma única oportunidade de fustigar o presidente. Dava a impressão de querer testar os limites do primeiro mandatário e provocá-lo até que pudesse se rebelar novamente e se enroscar na própria armadilha. Bolsonaro desconfiou de que esse era o objetivo e engoliu todos os sapos que precisava engolir. Talvez surgisse no futuro uma oportunidade de confrontar o ministro sem sair das fronteiras da Constituição.

Na semana passada, teve essa chance. Um dia após Daniel Silveira ser condenado pelo STF a oito anos e nove meses de prisão pelo elástico placar de dez a um, Bolsonaro publicou decreto concedendo "graça" ao deputado. Essa iniciativa pegou o país de surpresa. É prerrogativa do presidente conceder esse benefício. Está na Carta.

Litígio indesejável

Por mais que o Supremo e a oposição possam espernear, e mesmo que encontrem uma forma de revogar essa decisão, o primeiro mandatário não poderá ser acusado de descumprir a lei. Só que a animosidade, que já era enorme entre os dois poderes, se intensificou ainda mais.

De novo entra em cena Michel Temer. Na sexta-feira, dia 22, o ex-presidente sugeriu que Bolsonaro revogasse, pelo menos momentaneamente, o decreto que libertou o deputado. O notório bombeiro das tretas políticas alegou que, como o processo ainda não havia transitado em julgado, o ideal seria que o presidente voltasse atrás para evitar uma crise institucional entre os dois poderes. A resposta de Bolsonaro foi lacônica: não. Seguida de um sinal positivo do polegar.

Outro destinatário

Da primeira vez, o presidente estava enroscado com suas impropriedades verbais. Agora não. Está respaldado na letra da Constituição. Talvez fosse o caso de sugerir agora que Temer dirigisse sua mensagem a outro destinatário, o próprio ministro Alexandre de Moraes.

Poderia dizer, por exemplo: Alexandre, na última vez, foi o presidente que levantou a bandeira branca e recuou para evitar o abalo das instituições. Acho que agora, você, meu dileto afilhado, é quem deveria colocar panos quentes.

Para isso, seria preciso humildade e resignação. Será que há?

Superdicas da semana

  • Decidir por vingança é quase sempre um grande equívoco
  • Ainda que esteja com a razão, nem sempre a vitória é o melhor caminho
  • A boa convivência é um eterno exercício de tolerância e renúncias
  • Há disputas em que tanto vencedores quanto perdedores saem derrotados

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como falar corretamente e sem inibições", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 minutos para falar bem em público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.