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Reinaldo Polito

OPINIÃO

Um general poderia deixar o discurso de Lula menos raivoso e mais suave

General Otávio Santana do Rêgo Barros - Reprodução/Exército Brasileiro
General Otávio Santana do Rêgo Barros Imagem: Reprodução/Exército Brasileiro

Tenho me arrependido frequentemente de ter falado, nunca de ter me calado.
Philippe de Comynes

Em pouco mais de um mês de governo, Lula e seus ministros já arrumaram muita confusão com seus pronunciamentos. O chefe do Executivo tem defendido causas que assustam até alguns de seus seguidores de campanha. E os assustados não são apenas os leigos em Ciências Econômicas, mas também especialistas renomados nesse campo de estudo.

Está certo que, nessa esteira, entram aqueles que talvez até discordem mesmo das diretrizes estabelecidas pela política tateante da atual gestão. Ninguém, entretanto, pode ser ingênuo de julgar que o motivo seja apenas o de valor de face. Por trás das críticas há certamente alguns beicinhos magoados que não foram contemplados com as boquinhas esperadas.

Comunicação equivocada

Feitas essas considerações preliminares, é preciso ter em conta que, agindo certo ou errado, o que mais atrapalha Lula e sua turma é a comunicação equivocada. Há formas e formas de se transmitir a mesma informação. A impressão que dá é que trocaram o cercadinho verde e amarelo de Bolsonaro pelo vermelho de Lula.

Bater de frente o tempo todo com o que foi legado pelo governo anterior agrada, mas apenas aos adeptos petistas. Nesse caso, que vantagem Maria leva? Esses apaixonados por Lula aplaudem sem filtro toda a sua verborragia. Para furar a bolha e estender os braços na seara opositora a conversa precisa de gente do ramo.

Passado desastroso

Essa incompetência oratória da esquerda tem DNA. Em 2015, por exemplo, Dilma e seus ministros faziam uma trapalhada atrás da outra. Tiveram de aprender com os próprios erros para ajustar o vento da biruta. Foram eventos sucessivos com comportamentos diversos.

Em março, depois das manifestações contra o governo, Miguel Rossetto, secretário-geral da Presidência, foi um verdadeiro elefante na loja de cristais. Fez um pronunciamento atacando os manifestantes. Como consequência, teve de ouvir um panelaço ensurdecedor. Os tiros de Rosseto funcionaram como bumerangue.

Precisaram aprender

Aprenderam assim que, se continuassem pondo o dedo na tomada, tomariam choque. Por isso, em junho, depois da devastadora delação do empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC, convocaram alguém do ramo para falar. Quem apagou os incêndios foi o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, Edinho Silva.

Ele fez um pronunciamento sereno e equilibrado, sem antagonismos. E, diante do resultado positivo do seu discurso, em agosto, quando ocorreram as monstruosas manifestações em todo o país, lá estava Edinho novamente para acalmar os ânimos.

Foi direto, simples e muito eficiente. Em vez de dizer que tudo não passava de atitudes golpistas, afirmou que "As manifestações deste domingo foram vistas dentro da normalidade democrática".

Acertaram o tom

Pouco depois, sentindo que suas palavras haviam dado bom resultado, dentro do mesmo tom ameno, Edinho reforçou o que já havia dito:

É um momento difícil da vida brasileira, que temos de trabalhar para que a gente possa desfazer esse ambiente de intolerância, porque o Brasil sempre foi, historicamente, um país de diversidade religiosa, cultural, regional e política.

Passados mais de oito anos, diante dos acontecimentos atuais, seria possível a Lula, ou alguns de seus ministros, repetir exatamente as mesmas palavras, sem pôr nem tirar. Com certeza, os resultados para a pacificação do país seriam muito mais positivos que essa história de insistir no "nós contra eles".

O porta-voz salvador

Na primeira fase do governo Bolsonaro, o ex-presidente era useiro e vezeiro em dizer umas besteiras, mas contava com a competência do seu porta-voz, General Rêgo Barros, para filtrar e amenizar seus discursos no momento de se comunicar com a imprensa. Com aquele jeito sereno, ponderado, amistoso e muito eficiente, Rêgo Barros atendia a todos os jornalistas com cordialidade e respeito. Evitava rusgas inconsequentes.

Quando o general deixou o governo, a comunicação de Bolsonaro desandou. Depois de falar o que não devia, tentava consertar, mas a emenda era quase sempre pior que o soneto. Se tivesse continuado com seu porta-voz, não é possível afirmar que vencesse as eleições, mas suas chances de vitória seriam maiores.

Um general para Lula

Lula está só no começo. Já demonstrou que, se for em frente com sua oratória beligerante, irá encontrar percalços pelo caminho. Não custaria nada a ele, num gesto de inteligência e demonstração de boa vontade, convocar "um general Rêgo Barros" para traduzir seus discursos raivosos em linguagem mais suave e diplomática.

Duvido que alguém, provido de sensatez, equilíbrio e vontade de acertar, pudesse ser contra uma iniciativa como essa. Enquanto só se ouve dizer "fora esse", "fora aquele", que tal mudar o tom para "bora, general, vamos nessa"?

Paz e bem!

Superdicas da semana

  • A maneira de falar é tão importante quanto o conteúdo da mensagem
  • Um governo deve ter uma pessoa competente para comunicar suas mensagens
  • O porta-voz eficiente afasta divergências desnecessárias
  • A pacificação surge na convergência, não no antagonismo de ideias

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como Falar Corretamente e sem Inibições", "Saiba dizer não", "Comunicação a distância", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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Errata: este conteúdo foi atualizado
O verbo "ter" é reflexivo e não se liga com hífen ao pronome "me".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL