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Reinaldo Polito

OPINIÃO

Há diferença entre Lula e Bolsonaro nas ações diplomáticas

O presidente Lula (PT) ao lado do presidente da China, Xi Jinping - Ken Ishii/Pool/AFP
O presidente Lula (PT) ao lado do presidente da China, Xi Jinping Imagem: Ken Ishii/Pool/AFP

Colunista do UOL

18/04/2023 04h00

Os homens a quem se fala não são aqueles com quem se conversa.
Rousseau

As experiências de Bolsonaro e Lula nas visitas aos países mais importantes do mundo têm tudo a ver com a habilidade de comunicação de cada um. A forma como se expressam e a mensagem que transmitem revelam caminhos e posições que desejam seguir. A permanência deles nessas viagens é curta, mas as consequências podem ser perenes.

Em maio do ano passado, os críticos de Bolsonaro ficaram alvoroçados com a ida do então presidente à Rússia. Chamaram-no de irresponsável pelo fato de visitar um país que estava às portas de iniciar conflito com a Ucrânia, como efetivamente ocorreu. Os ataques ao ex-chefe do Executivo foram ainda mais fortes por causa dos Estados Unidos.

Diziam os oposicionistas que aquela não era hora de visitar uma Nação que digladiava com um dos nossos aliados econômicos mais poderosos. Essa iniciativa não deixava de ser um bom afago a Putin, mas, ao mesmo tempo, era uma espécie de afronta a Biden. Sua ida à Rússia seria um equívoco.

Não deu ouvidos

Além desse risco tão evidente, todos imaginavam que o relacionamento do Brasil com os Estados Unidos poderia azedar ainda mais tendo em vista a conhecida amizade de Bolsonaro com Donald Trump, um dos mais ferrenhos desafetos de Biden. A melhor decisão, segundo os adversários do ex-presidente, seria ficar quietinho em casa.

Bolsonaro não deu ouvidos a esses conselhos, e foi mesmo assim. Terminou tudo bem. A começar pelo timing da época escolhida, poucos dias antes de a Rússia invadir a Ucrânia. Um pequeno atraso na viagem poderia ter sido um desastre.

Missão cumprida

Conseguimos fechar acordo para o fornecimento dos fertilizantes, fundamentais para a sobrevivência da nossa agricultura. Biden não se mostrou incomodado com a situação, tanto que convidou, com insistência, Bolsonaro para participar da 9ª Cúpula das Américas, em Los Angeles.

Os dois conversaram amigavelmente. Os fertilizantes chegaram. E o Brasil, mantendo sua excelente tradição diplomática, ficou neutro no conflito.

Essa não parece ser a realidade que envolve a visita de Lula à China. Não pela viagem em si. Afinal, os chineses são nossos importantes parceiros comerciais. As consequências duvidosas talvez venham dos pronunciamentos feitos pelo presidente brasileiro.

Tomou lado

As afirmações de Lula não parecem alinhadas com as tradições do Itamaraty. Afirmou que os Estados Unidos incentivam a continuidade da Guerra da Ucrânia. E não parou por aí. Censurou a hegemonia do dólar e deu a entender que os americanos forçam os brasileiros a sabotar a China. Se Biden não retaliar o Brasil, será milagre.

Há pouco tempo, ao visitar os Estados Unidos, o chefe do Executivo não disse uma única palavra contra a China. Diferente dos discursos que proferiu em Xangai. Essa atitude distinta torna evidente a tomada de posição do governo do Brasil a favor dos asiáticos e contra o líder ocidental.

É uma escolha para lá de arriscada. As rápidas e fortes reações dos americanos indicam claramente que eles não gostaram nada desse posicionamento. Jornais e emissoras de televisão nos Estados Unidos produziram longas matérias censurando o comportamento de Lula.

Não dá para confiar

O Brasil é um grande país. Possui um poderoso agronegócio que sustenta um quinto da população mundial. Por isso, deve ser respeitado. Devemos considerar, entretanto, que, ao nos compararmos com China e Estados Unidos, não temos lá tanta importância assim no cenário mundial.

Não tenhamos ilusões. A conta vai chegar. Estamos nos metendo em briga de cachorro grande. Os chineses são parceiros até o limite de suas conveniências. Não dá para fechar os olhos e simplesmente confiar.

Ninguém acredita que essas palavras de Lula sejam apenas motivadas por seus arroubos impensados. Provavelmente, o tom de seus discursos deve ter sido avaliado e ponderado com toda cautela pela nossa diplomacia. É de se imaginar que sabiam das consequências e das reações dos Estados Unidos. Talvez seja uma jogada para conseguir vantagens em futuro breve. A ver.

Que os objetivos sejam comerciais

Se, todavia, nenhum desses pronunciamentos tiver sido precedido de estudos e análises detalhadas de custo/benefício, correremos o risco de arrumar disputas desnecessárias com aqueles que gozam de importância fundamental para o desenvolvimento da nossa economia. Tomara que não tenha sido apenas por questões ideológicas. Seria o fim.

Vamos dar o benefício da dúvida. Assim como Bolsonaro estava com a razão, apesar das críticas quase unânimes que recebeu na época da sua visita à Rússia, pode ser também que Lula esteja vendo o que não conseguimos enxergar neste instante. Só o futuro terá a resposta.

Superdicas da semana

  • Temos uma das mais competentes diplomacias do mundo
  • Se o país adota um lado, pode ganhar um inimigo. Se não adota nenhum, pode ganhar dois
  • Pronunciamentos importantes não podem ser improvisados
  • As palavras são como flechas, depois de atiradas não voltam

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como Falar Corretamente e sem Inibições", "Comunicação a Distância", "Saiba Dizer Não", "Os Segredos da Boa Comunicação no Mundo Corporativo" e "Oratória para Advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para Líderes Religiosos", publicado pela Editora Planeta.