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Carlos Juliano Barros

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Nomadland: Sonho americano pode virar pesadelo para quem vive do trabalho

Frances McDormand em cena de "Nomadland" - Divulgação
Frances McDormand em cena de 'Nomadland' Imagem: Divulgação
Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

26/04/2021 10h10

Grande vencedor do Oscar deste ano com três estatuetas, incluindo a de melhor filme, Nomadland tem como pano de fundo a paisagem pouco edificante do mundo do trabalho na principal economia do planeta.

É claro que a sensível história contada pela cineasta chinesa Chloé Zao, consagrada com o prêmio de direção, abre um leque muito mais vasto de reflexões. E algumas delas, apesar de bastante corajosas, até correm o risco de serem injustamente tachadas de piegas nestes tempos estranhos.

Estamos falando, por exemplo, da vontade de levar uma vida materialmente desprendida e ecologicamente harmônica, como fazem alguns dos personagens nômades do filme que, diga-se de passagem, existem de carne e osso. Ou da importância de exercitar a solidariedade e "ajudar as pessoas" - missão a que se propõe Bob Wells, o célebre youtuber e ativista da vida sobre rodas que também dá as caras na tela.

Mas é ao mergulhar na batalha de uma mulher de classe média para pagar as contas que a mensagem de Nomadland se faz mais atual e urgente. Encarnada por uma convincente Frances McDormand, agraciada com o troféu de melhor atriz, Fern é uma espécie de elo perdido entre dois modelos de sociedade lapidados justamente pela maneira como as pessoas se relacionam com o trabalho.

O primeiro desses modelos é o de Empire - a autêntica vila operária nos confins dos Estados Unidos onde Fern tocava um cotidiano sem sobressaltos com o marido, funcionário dedicado de uma mina de gesso decadente. A debacle de Empire se assemelha à de outros centros industriais americanos que colapsaram com as metamorfoses econômicas e tecnológicas das últimas cinco décadas. O caso mais emblemático talvez seja o de Detroit, antigo pólo das montadoras de automóveis.

Com a morte do esposo, o fechamento da fábrica e a desintegração de Empire, Fern vê sua estabilidade erodir e seu padrão de vida desabar. Ela, então, é obrigada a deixar para trás aquele enclave da era industrial exilado no tempo e a encarar de frente um modelo de sociedade mais contemporâneo - o do "precariado", para usar o já clássico conceito do economista britânico Guy Standing.

Morando numa van e pernoitando em estacionamentos, Fern envereda pela trilha dos trabalhadores temporários que pingam de bico em bico. O motor de sua jornada é a eterna e incerta busca por emprego. A trajetória vai de armazéns da Amazon, passando por lavouras de beterrabas a lanchonetes de fast-food.

Sem qualquer tipo de garantia ou perspectiva, Fern é a alegoria perfeita da queda livre da classe trabalhadora americana e da escalada da concentração de renda em um país tão rico quanto desigual.

O enredo é comum entre os americanos golpeados pela Grande Recessão, a crise econômica de 2008 detonada pela farra de agentes do mercado financeiro que estimularam milhões de trabalhadores empobrecidos a assumirem dívidas impagáveis para realizar o sonho da casa própria.

Nesse sentido, é inevitável comparar Nomadland ao filme que já havia rendido a Frances McDormand a estatueta de melhor atriz em 2018: Três Anúncios para um Crime. Na época de seu lançamento, o longa-metragem foi interpretado como um retrato da capilaridade do discurso de Donald Trump, bastante popular no interior do país, distante dos holofotes dos centros urbanos do mainstream.

O palco da trama de Três Anúncios para um Crime era a típica cidadezinha conservadora da América profunda - terra de pessoas abaladas pela ruína econômica e suscetíveis ao discurso raivoso de um magnata que prometia fazer a nação grande novamente.

Apesar de as histórias dos filmes se passarem em épocas e cenários semelhantes, há uma diferença fundamental de enfoque. Três Anúncios para um Crime examina como parcela significativa dos cidadãos dos Estados Unidos foi capturada pelo ressentimento e pela violência que decorrem da sensação nada agradável de ficar para trás.

Já Nomadland não chega a parecer comercial de margarina, mas traz um sopro de esperança. Sim, é possível reconstruir o pacto social do sonho americano em bases mais solidárias e sustentáveis, ainda que o caminho seja longo e o trabalho, árduo e precário. Não por coincidência, Nomadland ganha projeção no momento em que Trump deixa a Casa Branca e o novo presidente Joe Biden prepara o mais ambicioso programa de investimentos públicos e de geração de empregos desde o New Deal executado por Franklin Roosevelt, na década de 1930.

Se o plano der certo, nômades como Fern talvez possam viver a vida rodando a América apenas por opção - e não por necessidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL