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Carlos Juliano Barros

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Fim de semana de três dias no Japão: por que a moda não pega no Brasil?

Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

29/06/2021 04h00

Corria o inverno de 1928 quando um dos mais influentes economistas do século passado, o inglês John Maynard Keynes, resolveu colocar no papel uma série de palpites sobre o futuro dali a cem anos.

Resumindo grosseiramente, o breve ensaio "Possibilidades econômicas para os nossos netos" previa que a riqueza cresceria exponencialmente e que as gerações seguintes poderiam enfim trabalhar menos, em virtude do progresso tecnológico. Keynes chegou a imaginar que, na Europa e nos Estados Unidos, ninguém precisaria pegar no batente por mais de três horas ao dia para ter suas necessidades satisfeitas.

Ainda faltam sete anos para alcançarmos a idílica data concebida pelo economista que ressuscitou o capitalismo após o derretimento da Bolsa de Nova York, em 1929. Mesmo assim, é possível afirmar com segurança que a profecia de Keynes sobre a drástica redução da jornada de trabalho não vai se concretizar.

Mas eis que em 2021 o governo do Japão vem patrocinando uma proposta com o poder de aliviar a barra da futurologia furada do grande pensador inglês: um fim de semana de três dias para aprimorar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Economia e demografia

Não é de hoje que a redução da semana útil vem sendo testada por empresas no Japão. Uma das primeiras a abraçar a ideia foi a Microsoft local, durante todo o mês de agosto de 2019, em pleno verão.

De acordo com a gigante de tecnologia, a produtividade dos funcionários teve um salto de 40% no período porque as pessoas passaram a ser mais eficientes, deixando de lado reuniões desnecessárias e focando no que era necessário fazer.

Só que agora o próprio governo se convenceu de que é preciso encarar a diminuição da jornada de trabalho como uma política pública. E há uma série de motivos para isso. O objetivo é que os japoneses tenham um respiro não só para estudar, mas também para sair, gastar e girar a roda da economia, que se move lentamente há um bom tempo.

Existem também preocupações com a dinâmica demográfica. Com um dia a mais para dedicar à vida pessoal, o governo espera que os japoneses não só deem uma turbinada nas baixas taxas de natalidade do país, mas também possam cuidar de seus pais e avós - quase 30% da população já têm mais de 65 anos.

Morte por trabalhar demais

O culto à labuta pesada já foi um traço cultural tão marcante no Japão que até consagrou uma expressão mundialmente conhecida: karoshi - a morte por excesso de trabalho.

Esse tipo de ocorrência passou a ser oficialmente registrado pelo Ministério da Saúde do país no final da década de 1980, com a explosão de uma onda de executivos repentinamente mortos em decorrência de jornadas extenuantes.

Mas o fato é que hoje em dia os cidadãos da potência asiática já não passam tanto no expediente como faziam num passado recente. Dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) colocam o país abaixo da média dos 38 Estados-membros da entidade no quesito número de horas trabalhadas por ano.

Ao longo de 2020, cada cidadão japonês dedicou uma média de 1.598 horas à sua atividade profissional. A estatística é consideravelmente mais baixa do que a dos líderes do ranking, encabeçado por colombianos (2.172), mexicanos (2.124) e costa-riquenhos (1.913). O Brasil não aparece na lista porque não é integrante oficial da OCDE.

Brasil: o gargalo da produtividade

A chave para a redução da jornada no Japão tem a ver com uma palavrinha mágica: produtividade. Basicamente, estamos falando da capacidade de fazer mais em menos tempo - garantindo, claro, um salto de qualidade.

Por aqui, onze em cada dez especialistas batem na tecla de que historicamente a produtividade média do trabalhador brasileiro tem ficado muito aquém do que o necessário para fazer a nossa economia deslanchar. E os dados realmente apontam nessa direção.

Segundo o Observatório da Produtividade do Ibre/FGV, nas últimas quatro décadas, a produtividade por hora trabalhada cresceu a um ritmo muito tímido no Brasil - apenas 0,9% ao ano. Não à toa, a renda per capita avançou no mesmo passo de tartaruga: 0,8%.

Isso está diretamente relacionado à capacitação e à formação escolar dos trabalhadores. Mas também tem a ver com os investimentos despejados na economia que, por sua vez, estimulam que as pessoas se qualifiquem profissionalmente para atender à demanda.

O problema é que, quando se fala em investimento, também andamos bem mal das pernas. No ano passado, o volume de dinheiro injetado na economia brasileira fechou em irrisórios 16,4% do Produto Interno Bruto (PIB) - próximo do nível mais baixo em meio século. Nações que puxam a locomotiva do crescimento mundial, como a China, ostentam números superiores ao dobro dessa proporção.

Por isso, não nos enganemos: enquanto não destravarmos investimentos e levarmos a formação de profissionais realmente a sério, a produtividade do trabalho no Brasil permanecerá em níveis muito apáticos. Aí, não só deixaremos de gozar de fins de semana de três dias, como já fazem os japoneses, como estaremos condenados a trabalhar de forma cada vez mais intensa e precária.