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José Paulo Kupfer

Inflação se acomodou entre explosão em alimentos e contenção em serviços

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

12/01/2021 13h38

A inflação, medida pela variação do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), terminou o ano pressionada, e continuará elevada até pelo menos meados de 2021. Alimentos foram, de longe, os maiores vilões da alta de preços de 4,52% em 2020, que superou o centro da meta de inflação para o ano, estabelecida pelo Banco Central em 4%.

Além de alimentos, o IPCA foi pressionado, no ano passado, pelas tarifas de energia elétrica e pelos altas nos preços de eletroeletrônicos domésticos. Os três itens responderam por 85% da inflação de 2020. Demanda pela cesta básica, com origem no auxílio emergencial, bandeiras amarelas e vermelhas na energia elétrica, para compensar maior intensidade na operação de termoelétricas, e elevação de 30% na cotação do dólar, afetando o preços de eletrônicos, explicam essas altas.

Variações do IPCA, a cada mês, de acordo com projeções de especialistas, devem arrefecer em 2021, não registrando aumentos mensais acima de 0,5%, na maior parte do ano. Mas, a base de comparação baixa, em razão do mergulho de economia causado pela pandemia de Covid-19, no primeiro semestre de 2020, puxará para cima o acumulado da inflação em 12 meses.

São previstas altas acumuladas em 12 meses acima de 5%, com picos superiores a 6%, de meados do primeiro semestre até meados do segundo semestre. Por enquanto, de todo modo, as previsões são de que a inflação ao consumidor, medida pelo IPCA, fechará 2021 em torno de 3,5%, pouco abaixo do centro da meta, fixado em 3,75%.

O surto inflacionário de 2020 se caracterizou por acontecimentos pouco comuns, refletindo um momento também incomum de impactos causados pela inesperada e intensa pandemia de Covid-19. Em paralelo a um autêntico colapso da atividade econômica, com choques negativos concomitantes de oferta e demanda, houve a necessidade de assegurar renda para milhões de vulneráveis e informais.

Com isso, apesar do desemprego crescente, houve uma garantia de renda básica para 65 milhões de pessoas, pouco menos de um terço da população total. Ao longo de 2020, sob a forma de um auxílio emergencial, foram injetados na economia quase R$ 300 bilhões. Esses recursos, dirigidos basicamente a populações de baixa renda, elevaram a demanda por alimentos, num momento em que a oferta sofria restrições. Refletindo esse desequilíbrio, altas em preços de alimentos alcançaram níveis não vistos há pelo menos 20 anos.

No cômputo geral, os preços de alimentos subiram 14%, em 2020, a maior desde 20021. Mas a alimentação no domicílio, a que mais pesa no orçamento das famílias, sofreu elevação de 18%. Preços de alguns produtos foram às nuvens.

O campeão de alta de preços foi o óleo de soja, com elevação de 103% no ano. O preço do arroz aumentou 76%, enquanto o preço do feijão subiu 45%. Mesmo culturas de ciclo curto, como tubérculos, raízes e legumes, caso da batata e do tomate, tiveram seus preços elevados em 46,6%. Até preços de hortaliças e verduras aumentaram 21%, em 2020.

Parte dos desequilíbrios nos preços dos alimentos, principalmente aqueles verificados em produtos de safras longas, caso das commodities alimentícias, com cotação internacional - soja e derivados, milho, outros grãos, além de carnes - pode ser debitado na falta de planejamento do governo. Logo no início da pandemia, outros países exportadores de alimentos reforçaram seus estoques internos., mas o Brasil não fez para garantir oferta para a demanda intensificada.

Com a alta das cotações do dólar e a demanda mais forte do exterior, o governo permitiu desvio relevante da produção interna para o exterior, provocando queda na oferta doméstica. Ocupando lugar entre os maiores exportadores de grãos do mundo, o país assistiu ao paradoxo da alta intensa dos preços internos de alimentos.

No cômputo geral, a puxada dos alimentos na inflação foi compensada pela moderação de altas notadamente nos serviços. As restrições de movimentação de pessoas, ao lado do desemprego de mão de obra em elevação, reduziram a demanda, com ênfase nos serviços pessoais.

Um exemplo interessante é o da alimentação fora do domicilio, ou seja, em restaurantes e lanchonetes. Enquanto os preços da alimentação em casa explodia, subindo quase 20% no ano, os preços da alimentação fora de casa aumentaram 4,8%, pouco acima da média do índice.

Refletindo a situação acima descrita, os núcleos de inflação, que medem os movimentos de preços mais estruturais, retirando de cena variações ocasionais ou temporárias, continuaram abaixo do centro da meta de inflação. Com elevação de 2,8%, em 2020, ficaram mais próximos de 2,5%, índice fixado como piso do intervalo do sistema de metas.

Um novo auxílio a mais vulneráveis está em debate, mas as perspectivas são as de que, caso seja adotado, o volume de recursos e a população abrangida serão menores do que os do auxílio de 2020. Esse, ainda assim, pode ser um foco, embora menos intenso, de pressões inflacionárias, novamente centradas em alimentos. Mas, com a perspectiva de aumento do desemprego, e, em consequência, uma demanda mais contida, é esperado que tais pressões arrefeçam ao longo de 2021.