PUBLICIDADE
IPCA
1,06 Abr.2022
Topo

José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Arsenal contra Putin inclui calote e cria risco de crise financeira global

Conteúdo exclusivo para assinantes
José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito ?Jornalista Econômico de 2015? pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

28/02/2022 15h23Atualizada em 28/02/2022 17h27

As sanções econômicas sem precedentes adotadas pelos Estados Unidos e países aliados contra a Rússia, em reação à invasão da Ucrânia, estão alcançando o efeito desejado. O efeito pretendido, não custa lembrar, é o de desestabilizar a economia russa, com inflação e contração econômica, e, em consequência, ao gerar descontentamento na população com a situação, desestabilizar também o governo de Vladimir Putin.

Na manhã desta segunda-feira (28), a moeda russa, o rublo, derretia, com desvalorização de quase 20%, mesmo depois de o CRB (Banco Central da Federação Russa, na sigla em inglês) ter praticamente dobrado os juros básicos da economia de 9,5% ao ano para 20%. A Bolsa russa não abriu e estrangeiros foram proibidos de vender ativos que mantêm no mercado russo. Bolsas nos Estados Unidos operam em ligeira baixa, assim como fecharam na Europa. Na Ásia, fecharam em ligeira alta.

Há relatos de corrida aos caixas eletrônicos, na Rússia, para saque de rublos, bem como nas casas de câmbio para trocas de moeda local por outras, o que justifica o mergulho da sua cotação, enquanto o BC russo fixava regras mais rígidas de controle de capitais. O circuito é conhecido: uma crise de confiança financeira acaba desaguando numa crise bancária, na qual os depósitos dos cidadãos na moeda local correm risco de virar pó.

O congelamento dos recursos das reservas cambiais mantidas pelo governo russo e de fundos de investidores russos no exterior visa justamente evitar ações de defesa do rublo. Impedido de recorrer a suas reservas em outras moedas, o banco central perde capacidade de agir para reverter o derretimento da moeda local.

O problema é que as sanções podem respingar nas economias dos países que as estão impondo à Rússia. Desde o início da discussão de EUA e aliados no rumo da aplicação de sanções econômicas, sabe-se da existência desse risco.

Não é por coincidência que os bloqueios de recursos russos pelo mundo preveem, no entanto, isenções para transações vinculadas às exportações russas de energia. É uma tentativa de limitar um previsível efeito bumerangue adverso nas economias dos países que estão impondo as sanções.

Além de petróleo e gás - deste último a Europa Ocidental é fortemente dependente -, a Rússia e seus aliados de ex-repúblicas soviéticas, são importantes participantes de mercados de alimentos, diretamente, como, por exemplo, no caso do trigo, e indiretamente, como no caso dos fertilizantes. As cotações internacionais desses produtos já estão em alta expressiva, com destaque para o petróleo, de volta às vizinhanças de US$ 100 por barril.

Outros efeitos adversos das sanções financeiras impostas à Rússia, talvez ainda mais graves, dizem respeito à confiança dos agentes econômicos nos sistemas internacionais de pagamentos e, mais ainda, na aplicação de recursos em dívidas soberanas de outros países. De um modo ou de outro, na frente financeira e bancária do conflito na Ucrânia, o mundo inteiro já está envolvido nesta guerra.

Justificadas ou não, as sanções podem impactar negativamente os fluxos de comércio internacional e a confiança no sistema financeiro global. O conflito, nessa configuração com poderoso arsenal não militar, leva a muitos riscos, inclusive o da eclosão de crises globais de liquidez bancária, não exatamente nos mesmos moldes, mas à maneira do crash de 2008.

Enquanto o banimento dos russos do sistema de pagamentos SWIFT pode afetar mais diretamente o comércio internacional, a vedação de acesso do banco central russo às reservas externas do país e de investidores nacionais a seus fundos no exterior configura outra coisa. Não há como escapar do entendimento de que configura uma forma clássica de calote, ainda que possivelmente temporário.

As reservas cambiais russas, estimadas em US$ 630 bilhões, não estão aplicadas em dinheiro vivo e guardadas em cofres. Como todos os países que não podem emitir moeda de reserva internacional, a Rússia mantém recursos, numa proporção majoritária, em títulos de dívida soberana, emitidos por Tesouros ou bancos centrais desses países.

Ao vender esses títulos, os Tesouros nacionais e/ou BCs se comprometem a restituir ao detentor dos papéis, com o devido rendimento combinado, o dinheiro que foi emprestado. Quando não cumpre o combinado, está dando um calote. É como se dissessem aos russos: não pago o que prometi pagar pela dívida que fiz com você. É uma situação delicada e extremamente perigosa para o sistema financeiro e bancário internacional.

O Brasil, por exemplo, mantém US$ 362 bilhões em reservas internacionais. A preferência, obviamente, é por ativos mais seguros e com razoável liquidez, em detrimento de maior rentabilidade. As informações sobre as aplicações das reservas internacionais brasileiras estão no Relatório de Gestão das Reservas Internacionais, documento anual publicado pelo Banco Central. O último dado disponível, registrado no relatório publicado em março do ano passado, mostra que 86% das reservas brasileiras estavam aplicadas em dólares e 88% do total em títulos governamentais, em dezembro de 2020.

Verifica-se que o grosso dos recursos mantidos pelo BC em moeda estrangeira está aplicado em títulos do governo americano, não por outro motivo porque são considerados os mais seguros do mundo. Imagine-se agora se, num hipotético ataque especulativo ao real, como, por exemplo, o de fato ocorrido na virada de 1998 para 1999, quando se deu a mudança do regime de câmbio fixo para o de câmbio flutuante, vigente até hoje, as reservas brasileiras estivessem bloqueadas. Ironia da história, o ataque à moeda brasileira teve origem na crise cambial russa do segundo semestre de 1998, com repercussões negativas em todos as economias emergentes.

As reservas, naquele episódio, não estavam bloqueadas, mas exauridas - a defesa do câmbio fixo derrubou as reservas de US$ 60 bilhões, em agosto de 1998, para menos de US$ 20 bilhões, em janeiro de 1999 -, o que dá no mesmo. Na época, o BC foi obrigado a subir a taxa básica de 19% ao ano, em novembro de 1998, para 29%, em dezembro, e terminar com uma pancada, elevando-a a 45% ao ano, em março - como agora o BC russo. Detalhe não desimportante: em 1999, a economia cresceu apenas 0,3%.

Não há ainda condições de dimensionar integralmente os danos e consequências com as quebras nas regras financeiras internacionais ao fim do atual processo. Crescem, por exemplo, as possibilidades de um calote generalizado das dívidas russas - o CDS de 5 anos, aquele indicador do risco de calote de um país, no caso da Rússia, dobrou em pouco mais de uma semana, para mais de 400 pontos. Sabe-se lá que grau de contaminação uma eventual confirmação dessa possibilidade poderia provocar.

Depois da constatação de que não existe um regulador global independente, o sistema de pagamentos SWIFT não é efetivamente neutro e nem os títulos do Tesouro americano são 100% seguros, não é difícil concluir que, ao longo desta crise, custos econômicos e sociais serão altos e mudanças nos sistemas financeiros e bancários internacionais, inevitáveis.

  • Veja as últimas informações sobre a guerra na Ucrânia e mais no UOL News com Diego Sarza: