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Escola cobra R$ 15 mil para interessado testar franquia como autônomo

Divulgação
Bruno Gagliardi é CEO do Centro Britânico Imagem: Divulgação

Colaboração para o UOL, em São Paulo

22/06/2018 04h00

Pagar R$ 15 mil para testar o negócio como autônomo por um ano antes de assumir a compra definitiva da franquia. Essa é a proposta da escola de idiomas Centro Britânico. O interessado não terá uma escola própria para dar as aulas. Ele deve conseguir os alunos e oferecer as aulas em ambientes variados, como escolas normais (fora da rede do Centro Britânico) ou empresas. 

O valor de R$ 15 mil é para o empreendedor usar o método do Centro Britânico e ter "suporte". O modelo foi proposto pelo CEO da escola, Bruno Gagliardi, para ver se o empreendedor se adapta ao processo da rede antes de abrir a unidade física. Segundo ele, a ideia surgiu para evitar desistências. O modelo se chama Hunter e é uma espécie de “estágio” para o franqueado. Será que vale a pena?

Especialista ouvida pelo UOL diz que o esquema pode dar a impressão de que o empreendedor está pagando para trabalhar (veja a análise detalhada mais abaixo neste texto).

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Escola diz que ideia é mostrar desafios práticos

Muitas franqueadoras colocam os empreendedores para passar alguns dias em franquias ativas, mas isso não basta, na visão dele. “Uma escola já em funcionamento não tem os desafios do início, que são fundamentais”, declarou Gagliardi.

“Tivemos unidades que foram revendidas, pois o franqueado decidiu que queria morar fora do país, se dedicar a projetos pessoais ou por simplesmente não dar conta. Entendemos que em uma escola o ideal para o aluno é que não haja muitas mudanças no comando da franquia”, afirmou.

Se o franqueado já tiver experiência, capital e perfil, pode abrir a franquia convencional do Centro Britânico sem passar pela experiência Hunter.

Investimento inicial é de R$ 15 mil

No primeiro momento, o franqueado Hunter paga a taxa de franquia de R$ 15 mil. No entanto, no decorrer de um ano, a franqueadora calcula que ele tenha uma despesa total de R$ 70 mil com a contratação de um coordenador pedagógico, caso ele não seja da área educacional, materiais, localização, entre outras coisas. A franquia pode ser alocada em um coworking, home office ou escritório.

O empreendedor terá carta branca para atuar em escolas, condomínios, empresas e outros estabelecimentos da região, desde que aprovados pela franqueadora. “Fazemos o mapeamento de potenciais clientes e criamos, em conjunto, uma estratégia de abordagem para cada um desses comércios”, disse.

Precisa conquistar cem alunos

A meta estabelecida é de cem alunos para que ele consiga uma receita bruta mensal mínima de R$ 25 mil. De acordo com Gagliardi, o lucro líquido é estimado em 36%.

O Centro Britânico espera ter até dez franqueados nesse modelo em 2018. “Vamos ter um encontro mensal na franqueadora para alinhar e acompanhar as estratégias”, disse Gagliardi.

Suporte inclui material didático e treinamento

Segundo a empresa, o suporte dado aos participantes é o mesmo fornecido aos demais franqueados tradicionais da rede: método pedagógico para o franqueado e equipe, com materiais didáticos e treinamentos, coaching e desenvolvimento para coordenadores pedagógicos; recrutamento e seleção conjunta do coordenador pedagógico, auxílio no recrutamento e seleção dos colaboradores, se for necessário.

Também há criação e acompanhamento do plano de negócios, negociação com bancos e credoras, entre outras atividades financeiras; plano de marketing; suporte comercial para captação de equipe e criação de critérios de vendas. É feito ainda um curso de empreendedorismo para professores.

Duas candidatas contam experiência

Ainda não faz um mês que a ex-comissária de bordo Rose Freitas, 45, se tornou franqueada Hunter do Centro Britânico em Santos (72 km a sudeste de São Paulo), mas já está confiante de que conseguirá abrir a unidade física, no fim do período.

Ela vinha estudando o modelo de negócio da marca desde o ano passado, mas relutava em assinar o contrato pelo alto valor que deveria ser investido e a instabilidade econômica que o país atravessa. “Eles me propuserem o modelo Hunter e achei interessante. Começo com capital de giro mais baixo e consigo abrir uma escola com mais segurança”, disse.

Débora Carillo, 47, trabalha com ensino de idiomas há 25 anos. Ela foi uma das primeiras a abrir a franquia do Centro Britânico no formato Hunter, em São Paulo, e disse que se sentiu atraída pelo custo reduzido da operação, no primeiro momento. “Quando não há preocupação com estrutura, você coloca toda a energia no projeto”, afirmou.

Atualmente, ela tem dois convênios com colégios, totalizando 70 alunos, e acredita que consiga atender a até mais quatro convênios. Ela não revela faturamento, mas diz que o valor já ultrapassa o estimado pela franqueadora.

É preciso bater metas para abrir unidade física

Ao final de um ano, se Rose, Débora e os demais franqueados estiverem aptos a abrir a unidade física, terão de desembolsar o restante do investimento, que varia entre R$ 250 mil a R$ 350 mil, de acordo com a região – metade do valor corresponde a capital de giro.

Para isso, eles precisam cumprir alguns critérios estabelecidos em contrato, que são:

  • Número de alunos conquistados na ocasião: precisa ser, ao menos, os cem estabelecidos na meta
  • Capitalização do franqueado no primeiro ano: a renda bruta mensal deve ter sido de, ao menos, R$ 25 mil
  • Bom relacionamento com a franqueadora e cumprimento das normas previstas em contrato
  • Participação em pelo menos 85% dos treinamentos, eventos e outros encontros da franqueadora

O que acontece ao final de um ano

Caso o franqueado não atinja os requisitos citados e queira continuar na rede, poderá solicitar o prolongamento do prazo como Hunter, o que será analisado pela franqueadora.

Se ele não cumprir e não quiser continuar com a unidade, o contrato será anulado, sem nenhum tipo de multa. No entanto, se ele atingir as metas de alunos e faturamento, mas optar por não inaugurar a unidade física, deverá pagar multa de R$ 20 mil e outras pendências.

Nesse último caso, a unidade entra em processo de repasse, e os alunos conquistados são atendidos pela própria franqueadora até a chegada de um novo empreendedor.

Em caso de não abertura da unidade, a franqueadora não devolve os valores investidos, pois são encarados como cobertura dos custos de suporte cedido pela marca.

O perfil do investidor não é o mesmo das microfranquias (com investimento inicial inferior a R$ 90 mil, segundo a Associação Brasileira de Franchising – ABF), e sim pessoas com capital disponível, mas que prefiram testar o negócio antes.

Pode parecer que você paga para trabalhar, diz especialista

A advogada especializada em franchising Melitha Novoa Prado vê o modelo temporário com insegurança tanto para a própria franqueadora, quanto para o empreendedor. “O franqueado pode sentir que não é dono do negócio, apenas um operador. Franquia tem de ter risco para gerar comprometimento, senão é emprego. Ele pode achar que está pagando para trabalhar”, afirmou.

Ela disse que que há o risco de o empreendedor ser enquadrados como um representante de vendas. “Ele terá uma equipe de promotores de venda que serão seus franqueados.”

Além dos custos mencionados pela franqueadora, o franqueado precisará abrir uma empresa e contratar gente, o que pode gerar um problema ao dissolver o negócio, no período de um ano. “Apesar de a Lei de Franquia (8955/94) deixar claro que não existe vínculo empregatício entre franqueador, franqueado e colaboradores da franquia, esse modelo pode trazer fragilidade”, afirmou.

Para a franqueadora, o risco está em o franqueado não abrir a unidade, pagar a multa e capitalizar com os alunos conquistados por meio da metodologia da marca. O contrato de franquia do Centro Britânico, no entanto, estabelece que o franqueado não poderá exercer atividade concorrente à da franqueadora em um período de 24 meses, após a rescisão.

Onde encontrar:

Centro Britânico - http://www.centrobritanicoidiomas.com.br/

(Reportagem: Paulo Gratão; edição: Armando Pereira Filho)

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