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Empreendedorismo

Empresário cria banheiro de bolso para evitar o aperto na rua

Paulo Gratão

Colaboração para o UOL, em São Paulo

13/07/2018 04h00

Já pensou se, na hora do aperto, não for mais preciso recorrer a banheiros públicos para aliviar as necessidades? Em vez disso, lançar mão de um "aparato" pequeno, que cabe na bolsa, e pode ser descartado após o uso? Parece esquisito, mas alguém teve essa ideia e pretende fazer com que você use.

O Número 1 é um pouco maior que uma carteira de mão e, ao ser aberto, revela uma manta (com material similar a fraldas comuns) que absorve até um litro de urina, sem deixar rastros ou odores. Para minimizar o impacto com o descarte, o produto é feito com tecido biodegradável, e ainda vem sendo estudada uma forma de inserir sementes que possam ser germinadas com os resíduos.

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Ideia surgiu no Carnaval do Rio

No carnaval de 2006, Flavio Boabaid saiu de Florianópolis (SC) para desfilar em uma escola de samba no Rio de Janeiro com cerca de 20 amigos. Lá, eles descobriram que deveriam vestir a fantasia e esperar longas horas em pé, apenas consumindo bebidas e sem acesso a banheiros.

"Depois do desfile, eu não conseguia andar direito de tanta vontade de urinar. Fiquei procurando onde havia opções de banheiro e prestei atenção às pessoas que estavam na mesma situação que eu, principalmente as mulheres. Eu poderia me virar em um poste, mas elas não", relatou.

Imagem não saiu da cabeça

Passados três anos do ocorrido, Boabaid ainda pensava como poderia ajudar as pessoas a não depender mais de banheiros químicos. A ideia veio ao visitar uma farmácia e ver um pacote de fraldas compacto. Pensou: uma fralda em um saco plástico seria uma boa solução.

"Uma embalagem plástica, com uma manta interna, absorveria a urina e não deixaria vazar. Fiz pesquisa no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e vi que não havia nada parecido com isso", afirmou. Assim, nasceu o conceito do produto que viria a ser chamado de Número 1.

Ele passou mais três anos pesquisando até chegar ao protótipo de sua ideia.

Precisa de um box ou lugar escondido para usar

Um grande problema da ideia é que a pessoa ainda fica exposta enquanto urina no banheiro portátil, o que pode causar constrangimento, discussões e até problemas legais.

O site do produto recomenda procurar um local "que ofereça um mínimo de privacidade". Segundo o empresário, o ideal é que, no caso de um evento, sejam oferecidos locais para que a pessoa possa utilizar o produto adequadamente.

"Mesmo que seja um box, evita o ambiente de um banheiro químico, com odores e necessidade posterior de limpeza. Nos eventos em que o Número 1 já foi testado, aconteceu dessa forma", disse Boabaid.

Sementes para ajudar o ambiente

Sua pesquisa consistia em possíveis materiais que poderiam ser utilizados para a absorção da urina, praticidade e também sustentabilidade.

Os fabricantes de fralda não entendiam o produto imaginado por Boabaid e, muitas vezes, ele precisava simular com objetos que tinha por perto. "A Receita Federal levou 40 dias para definir a categoria em que o Número 1 seria encaixado. Ele não está em 'fraldas', e sim em 'sacolas plásticas'", disse.

O empreendedor enviou o produto para receber aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tanto em Brasília (DF) como em seu próprio estado, Santa Catarina.

O próximo passo que vem sendo estudado pelo empreendedor, em parceria com outros pesquisadores, é colocar sementes nos produtos. Assim, após serem descartados, as sementes podem germinar com os resquícios da urina. "O Número 1 foi concebido em detalhes para não só não agredir o meio ambiente, mas para melhorá-lo", afirmou.

Vendido somente pelo site

Boabaid diz que sabe que o produto é polêmico e pode enfrentar resistência por parte do consumidor. No entanto, afirma que a insatisfação com a infraestrutura oferecida em eventos e vias públicas pode ser o chamariz.

Por enquanto, o Número 1 é vendido apenas pelo site da empresa. O kit com três unidades custa R$ 12; com nove unidades custa R$ 30 e com 18, R$ 54.

Boabaid afirmou que vem negociando a distribuição em diversos pontos de venda, como farmácias e supermercados.

Brasileiro pode resistir à ideia

Na visão da analista de negócios do Sebrae-SP Patrícia Lacerda, a ideia é inovadora e tem potencial de fazer sucesso. No entanto, para ser aceito, é preciso enfrentar muitos aspectos culturais do brasileiro. "Ainda é um tabu falar que vai fazer xixi no saquinho. Se a ideia não for muito trabalhada, surgirão questionamentos. As pessoas precisam se convencer e ultrapassar a barreira cultural", declarou.

Outro ponto é a já citada falta de privacidade e de local adequado para usar o produto. "É interessante que ele pense em todos os empecilhos que afastem o consumidor. Nesse caso, ele pode procurar parcerias com empresas de boxes para colocar nos eventos e garantir a privacidade. O mais viável é que ele foque em parcerias, em vez de criar seus próprios boxes, para não perder o foco dos seus produtos."

A ideia do descarte também precisa ser trabalhada pelo empreendedor, pois não é algo que esteja inserido na rotina do brasileiro e pode causar confusão. "É um risco que ele corre, e precisa pensar em como educar o consumidor para, futuramente, não haver problemas", afirmou.

A sustentabilidade é um fator importante no seu negócio, mas não pode ser o único aspecto, segundo Patrícia. "Tem um peso significativo, mas não pode ser a única questão abordada no marketing, pois ainda não é fator de decisão para a maioria dos consumidores", declarou.

Onde encontrar:

Número 1 - http://usen1.com/

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