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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dinheiro na poupança ajuda a elevar a concentração de renda no Brasil

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Valter Police

Valter Police

Planejador Financeiro CFP(R), é o Head da Academia Fiduc, além de administrador de carteiras registrado na CVM.

30/08/2021 04h00

A concentração de renda é um problema que vem aumentando nos últimos anos, não apenas no Brasil, mas em diversos países pelo mundo. Ela tem sua origem em diversos fatores.

Ao ler um artigo americano intitulado "Why the Rich Have Become Richer" ou, em tradução livre, "Por que os ricos se tornaram mais ricos", de autoria de John Rekenthaler, vice-presidente de pesquisa da Morningstar, umas das maiores e mais famosas empresas de análises de investimentos do mundo, me deparei com um fator pouco explorado, que tem o poder de reduzir esse problema e que pode ser aplicado no Brasil.

Leia abaixo o artigo completo.

De acordo com a análise mostrada no arquivo, o problema reside no fato de que o aumento da renda da parcela mais rica da população tem sido muito maior do que o aumento das parcelas mais pobres. Os números indicam que os 5% mais ricos tiveram aumento real (acima da inflação) da ordem de 150% no período entre 1975 e 2019, enquanto o aumento médio ficou em menos de 50%.

Esse é um fator que demonstra claramente o aumento da concentração de renda. De acordo com o autor, no entanto, isso é apenas uma parte do problema. Outra parte reside no tipo de investimentos que cada grupo faz ao longo do tempo.

Outro estudo americano, denominado "Como a composição da riqueza difere da classe média até o 1% mais rico", publicado por Nick Routley, no site Visual Capitalist, mostrou que os americanos de renda média investem menos de 4% em ações e fundos multimercado.

A camada de alta renda investe algo como 19% e os 1% mais ricos chegam a mais de 31%. Ao mesmo tempo, o imóvel de residência representa 62% do patrimônio para a classe média, pouco mais de 25% para a alta renda e menos de 8% para os 1% de maior patrimônio.

Como os mais ricos investem um percentual muito maior de seu patrimônio no mercado acionário do que as camadas menos abastadas, que têm preferência por investimentos mais conservadores, como a renda fixa, os resultados financeiros divergem significativamente e impactam de forma direta o crescimento do patrimônio de cada grupo.

No mesmo período do estudo, enquanto a renda cresceu em 50% na média e 150% para os mais ricos, o mercado acionário americano entregou um retorno de quase 3.300%!

E no Brasil, será que a situação é a mesma? A resposta é sim, infelizmente. De acordo com a pesquisa "Raio X do Investidor Brasileiro", edição de 2020 feita pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), os investidores brasileiros ainda têm preferência por investimentos cujo retorno é historicamente baixo.

A pesquisa mostrou que os investimentos mais conhecidos pelos brasileiros são a caderneta de poupança e os investimentos em imóveis. Aliás, a pesquisa também diz que a maior parte das pessoas que conseguiram guardar dinheiro em 2020 pretende manter os recursos investidos (muitos na poupança) ou investir em imóveis. Será que são bons veículos para o crescimento do patrimônio?

A caderneta de poupança tem um rendimento estruturalmente baixo, que é fixado em 70% da taxa básica de juros (Selic), o que, mesmo com isenção do Imposto de Renda, não vai fazer o patrimônio de ninguém crescer a taxas atrativas.

Mas e os imóveis? Uma pesquisa feita pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas, ligada à USP) e pelo portal Zap Imóveis utilizou dados do período de 1975 até 2015 e mostrou que, durante esses 40 anos, a valorização média dos imóveis na cidade de São Paulo foi de apenas 1,8% acima da inflação. Se estendermos essa análise até 2019, esse número fica abaixo de 1,4% ao ano.

Assim, aqui no Brasil, como nos EUA, a concentração de renda também é influenciada pelas decisões de investimento das pessoas. Precisamos aprender a mudar nossos hábitos de investimento, nos educarmos no assunto e mudarmos nossos paradigmas.

Os investimentos que nossos pais e avós mais conheciam e que nos foram apresentados como as opções mais seguras, na verdade, tendem a nos manter cada vez mais distantes do crescimento do patrimônio que poderíamos ter. Boas escolhas!

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL