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Cresce venda de novas ações na Bolsa; veja dicas de como investir

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João José Oliveira

do UOL, em São Paulo

24/08/2020 12h31

Resumo da notícia

  • Vendas de novas ações na Bolsa este ano já movimentaram quase R$ 40 bilhões
  • Juros baixos e aumento de dinheiro em circulação estimulam a oferta de novas ações na Bolsa
  • Veja orientações para checar se vale a pena ou não investir nesse negócio

O ano de 2020 tem sido rico em vendas de novas ações na Bolsa. As estreias neste ano já movimentaram quase R$ 40 bilhões em operações de Oferta Pública Inicial (IPO, na sigla em Inglês), quando uma empresa vende ações pela primeira vez na Bolsa, e de follow-on, quando uma companhia já listada decide aumentar a quantidade de suas ações no mercado. Para se ter uma ideia, o volume de negócios dessas operações este ano já é o dobro do registrado no primeiro semestre de 2019 e três vezes mais que o total realizado em todo ano de 2018.

Há no momento uma fila com pelo menos 30 empresas que aguardam autorização da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para fazer mais ofertas de novas ações. Por isso, a expectativa de profissionais de mercado é que as operações de IPO e follow-on em 2020 ultrapassem com folga os R$ 90 bilhões registrados nos 12 meses de 2019.

"Até o final do ano serão 110 dessas operações de lançamento de ações, o que representa um recorde", disse o sócio diretor do grupo de investimentos em empresas privadas Stratus, Alvaro Gonçalves, membro do conselho da Abvcap (Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital) e presidente da Câmara Consultiva de Empresas e Estruturadores de Ofertas da B3. O recorde anterior desse tipo de operação no Brasil foi em 2007, com 61 lançamentos.

Números do mercado

Segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), no primeiro semestre as operações de IPO somaram R$ 32,7 bilhões e as de follow-on, R$ 4,3 bilhões.

Mas por que em meio à pandemia do novo coronavírus e à maior crise econômica em gerações vemos tantas empresas vendendo ações novas na Bolsa? E como saber se vale a pena ou não colocar dinheiro nessas ofertas em vez de, por exemplo, comprar papéis que já são negociados no mercado.

"A recuperação da Bolsa para patamares pré-crise motivada pela liquidez em um contexto de juros muito baixos. Além disso, a entrada na Bolsa de novos investidores pessoas físicas. E um terceiro fator é do lado das empresas, que estão em momento difícil de caixa ou que veem uma janela de oportunidade para atrair recursos para fazer investimentos", disse o economista do Banco BV, Carlos Lopes.

Veja abaixo detalhes desses motivos do aumento das vendas de novas ações em 2020, as orientações para checar se vale a pena ou não investir e os cuidados a serem tomados antes de colocar dinheiro nesse tipo de negócio.

Muito dinheiro em circulação

Aumentou a quantidade de dinheiro em circulação, e uma parte disso está indo para investimentos em Bolsa. Para enfrentar a queda da renda das famílias e das vendas das empresas, os governos em todo o mundo decidiram liberar recursos por meio de crédito e de auxílios emergenciais. Isso acontece também no Brasil.

O resultado disso é que foram injetados na economia global este ano mais de US$ 10 trilhões, segundo o FMI (Fundo Monetário Internacional). No Brasil, o governo diz que os recursos para enfrentar a crise econômica provocada pelam pandemia vão superar os R$ 700 bilhões.

Juros estão baixos

Também com objetivo de tentar reaquecer a economia, o governo reduziu juros para baratear o crédito ao consumidor e os gastos das empresas com capital de giro, por exemplo. Isso reduz os ganhos de aplicações de renda fixa e estimula a migração para renda variável.

No Brasil, a taxa básica de juros, a Selic, caiu para 2% ao ano, a menor da história. Com um rendimento tão baixo, a renda fixa está dando um retorno quase inferior ao da inflação. Ou seja, o ganho real do aplicador praticamente não existe.

A saída então é diversificar a carteira, assumindo mais risco em outros ativos com maior potencial de valorização, como a Bolsa.

Empresas estão em busca de capital

No lado de quem vende as ações, muitas empresas estão procurando recursos para atravessar a crise ou para aproveitar esse momento para acelerar a expansão e ganhar terreno contra a concorrência.

Como existe liquidez no mercado e juros baixos que alimentam o interesse dos investidores pela renda variável, o empresário tem mais chances de vender ações de sua empresa por um valor mais interessante.

"Os empresários têm mais confiança de que uma parte de sua empresa poderá ser vendida por um valor mais alto, contando exatamente com o fato de haver mais dinheiro disponível no mercado", afirma o sócio fundador da Veehda Investimentos, Rodrigo Marcatti.

Quem está comprando

Dados da Anbima mostram que os fundos de investimento compraram 50% das novas ações vendidas este ano. Os estrangeiros ficaram com 27,9% e as pessoas físicas com 13,4%, além de 8,9% que foram para outros investidores institucionais (como fundos de pensão, por exemplo).

Comparando com 2019, a participação das pessoas físicas quase dobrou, saindo de 7% ano passado. Isso mostra que o apetite dos aplicadores brasileiros por esse tipo de operação está crescendo.

Quem tem dinheiro para investir está procurando alternativas que rendam mais de 2% ao ano. E a Bolsa é uma opção.

O que considerar

Antes de entrar na onda dos IPOs, o investidor deve tomar alguns cuidados, dizem gestores de recursos e consultores financeiros.

Atenção na transparência: Empresas que vão estrear na Bolsa podem ter menos transparência de seus dados - como vendas, despesas, lucro, etc - que as companhias que já são negociadas.

As empresas listadas e que já têm ações negociadas em Bolsa são obrigadas a divulgar regularmente todas as informações de seus negócios. Além disso, toda e qualquer novidade importante que possa afetar a companhia deve ser comunicada ao mercado. Por isso, é muito mais fácil checar se a saúde financeira dessas companhias está indo bem ou mal.

Uma empresa que vai estrear na Bolsa também será obrigada a divulgar todos esses dados, mas esse histórico pode estar apenas começando. O passado ainda é menos conhecido - dados anteriores podem ser mais difíceis de serem acessados.

Conhecer e entender o setor: Antes de investir em uma ação que está estreando na Bolsa, o aplicador precisa checar se conhece a área de atividade na qual essa companhia atua. Também é importante avaliar se essa área de negócio está indo bem, ou se está passando por uma crise.

"O setor em que a empresa atua é muito importante. Entender o setor, as dinâmicas, se é um setor regulado ou não, se é um setor cíclico ou não. Se tem ações comparáveis na Bolsa, melhor ainda", afirma o sócio gestor da Perfin, Alexandre Sabanai.

Embora a análise do setor seja importante, diz Sabanai, a dinâmica e a qualidade da gestão da empresa têm um peso maior na decisão de se investir ou não em uma companhia que está fazendo um IPO. "Estar em um mar positivo, com ondas boas é importante, mas se o surfista não for bom, de nada vai adiantar", afirma o gestor da Perfin.

Levantando o histórico

Conhecer a história da empresa que decidiu vender ações novas no mercado é fundamental antes de entrar em um IPO. Para isso, o investidor deve checar se a companhia tem uma trajetória de lucros e de sucesso, ou vive uma trajetória de altos e baixos ao longo dos anos. Essas questões precisam ser respondidas antes de se aplicar em uma estreante na Bolsa.

Profissionais de mercado chamam a atenção para empresas que de uma hora para outros começaram a crescer muito rapidamente. Há casos de companhias que aceleraram o ritmo de expansão dos negócios antes de um IPO exatamente para engordar as vendas e elevar o valor da companhia antes de lançar ações no mercado.

"Precisa prestar atenção se a empresa deu saltos muito grandes de operações às vésperas de um IPO, para checar se não houve uma inflada das operações para engordar o porquinho dela", disse o sócio-fundador da empresa Veedha, Rodrigo Marcatti, destacando que é importante avaliar se esse movimento é sustentável ou artificial.

Preço e desconto

O preço de uma ação que está estreando na Bolsa depende de tudo isso acima - desempenho do setor, histórico da empresa, planos de crescimento, etc. E uma forma de avaliar se o valor pedido pela empresa em um IPO é interessante ou não é comparar o preço de venda com outras ações já negociadas em Bolsa e ver se há algum desconto.

Se a empresa que está fazendo o IPO é do setor de construção, por exemplo, a dica de profissionais de mercado é comparar o preço de lançamento da nova ação com outros papéis que já são negociados.

"Para comparar os preços de ações de duas empresas não basta simplesmente olhar para o preço da ação para ver se o papel está mais barato. A gente tem que olhar para os múltiplos da empresa", afirma Ricardo Cavalieri, estrategista de ações do BTG Pactual digital.

A ação de uma empresa A pode até custar menos que a de uma empresa B, por exemplo, mas se a empresa B tiver histórico e projeções de margem de lucro anual mais elevados que os da empresa A, isso deve ser considerado.

Feitas todas as análises, entrar ou não em um IPO ou follow-on vai valer a pena se as contas mostrarem que há um desconto interessante em relação ao valor de outras ações negociadas em Bolsa.

Não é para novato

Exatamente por exigir do investidor um trabalho mais cuidadoso de pesquisa, essas operações representam um grau de risco maior que o de aplicações em ações já negociadas no mercado. Por tudo isso, profissionais de mercado afirmam que pessoas que não investem ainda na Bolsa devem buscar outras formas de começar a aplicar em ações e evitar IPOs.

"Fazer esse tipo de investimento sem uma análise profissional é uma aposta. As contas são extremamente complexas. E há sempre outros investidores mais bem equipados para tomar a decisão", afirma o diretor de planejamento financeiro da Fiduc, Valter Police.

Para quem é pouco familiarizado com o mercado acionário, profissionais de mercado sugerem buscar aplicações como fundos de ações, que representam uma forma mais simples e menos arriscada para começar a investir na renda variável.

Como fazer

Para participar de um IPO ou follow-on, o investidor deve ter ou abrir conta em uma corretora autorizada a comprar ações nessas operações. Usualmente nesse tipo de oferta, é feita uma lista de espera em que os investidores registram o interesse em adquirir os papéis, fazendo uma reserva.

Na oferta, existem regras que definem como será definido o preço da ação, quanto cada tipo de investidor poderá adquirir dos papéis, como será feita a liquidação da compra e outros detalhes, por exemplo, de por quanto tempo o aplicador terá que ficar com aquela ação.

Em muitas operações há limites de lotes que podem ser comprados por determinados tipos de investidor - pessoas físicas, investidor institucional, fundos, etc - e como será a regra de divisão caso a quantidade de interessados seja maior do que a quantidade de ações oferecidas.

Onde buscar a informação

O investidor pode buscar essas informações na instituição financeira com a qual ele tem relação - banco, corretora ou plataforma de investimento - assim como junto a profissionais de mercado, como agentes autônomos, consultores e planejadores financeiros. Há ainda as novas casas de análise independentes, com informações disponíveis na Internet.

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Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.